13 de julho de 2010


Um dia eu não tive um cachorro chamado Zé. Ele apareceu lá na fazenda onde eu morava numa tentativa tardia de ser uma Karen Blixen mais que um Raduan Nassar, coisa e tal.

Zé, quando ainda não tinha nome, já não tinha uma pata. Apareceu assim, na curva da estrada, próximo ao confim. Estava assustado e pensei que poderia nos morder.

Nem lembro como, levamos ele, que ficou num galpão sem portas. Amarradinho.

Água, ração, palavras carinhosas.

Ainda não tapinhas nas costas que não era hora. Como todo cão, Zé tinha dentes.

Prometi – mais a mim que a ele – que no outro dia o levaria à veterinária, que já cuidava dos outros cães. O cotoco fantasma seria tratado, supurado, anestesiado, essas coisas necessárias, fim.

Dei-lhe, pois, o nome Zé.

Eu queria ter um cão chamado Zé, está certo, um vira-lata aleijão tristemente abandonado numa encruzilhada agreste, mourão, confins, Zé. Tudo muito óbvio e simpático. Eu devia estar muito orgulhoso disso. Ah, o ser humano: quando quer se bom não dá ponto sem nó. Quem sabe eu acreditava na ressurreição da carne e na vida eterna celestial. E esperava que São Pedro me recebesse, além estrelas, de portões e braços abertos. Dispensaria até as chaves pra eu entrar e sair sem dar satisfação alguma. De que vale o Céu se não é free?

Não digo que sonhei com isso. São meras suposições.

Mas, no outro dia, talvez no café da manhã, o empregado veio dizer que Zé fugiu.

Eu achei que poderia dar uma vida melhor a Zé. Acho que ele não acreditou muito nisso. Não.

Talvez, com razão.

Lhe faltava uma pata. Não lhe faltava um dono. De que vale o Céu sem liberdade?

2 Já Comentaram para “Zé”

  1. soraia disse:

    nós humanos e nossas suposições…gostei!

  2. Jarbas Martins disse:

    bela alegoria, mario ivo. lembrei-me de cervantes.era maneta, tinha, como dono, um usurário e conheceu, através da prisão, o gosto pela liberdade. fiquei sem saber se zé delirava como cervantes ou como a cachorra baleia de graciliano ramos.

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