WHAT YOU SAY?

26 de outubro de 2013

Hit The Ray, Charles

Volonté me telefona. Hora do almoço. Eu estava atacando um frango, não, em verdade era uma tilápia, não, na verdade eu não estava atacando nada, a fome nem era tão grande assim, e a tilápia, infelizmente, não se contorcia no prato, os filés de, qualquer coisa, são assim, carne morta, tal. Então. Volonté me telefona, sempre de um número diferente. Volonté é o cara que mais celulares tem na City. Nenhum dele, todos dos amigos. Que é que tem demais? Muito mais inteligente compartilhar o celular do que alimentar mal e porcamente a matilha de chineses trabalhando na escravidão moderna das fabriquetas. Divago, tergiverso. Volonté tem dessas coisas. Uma chamada de Volonté tem dessas coisas. Sempre um número diferente, todos desconhecidos, quase nenhum deles na minha agenda. Volonté tem amigos diversos. Fico feliz por não ser amigo dos amigos de Volonté. Nada contra. Feliz porque tem uma legião de amigos. Ou de caras que lhe emprestam, delicadamente, voluntariosamente, o celular. Pra me ligar. Volonté não abusa. Faz chamadas rápidas, mas sem pressa, um minuto, dois, três minutos duram. A fama de Volonté de poeta peripatético da City tem durado bem mais e é meio injusta e chata. Há um tom de galhofa com que a usam. Eu não gosto quando tiram onda com Volonté. Essa onda de poeta peripatético já foi. Volonté anda, caminha, sim, por toda a City. Por que não? Não tem carro, não polui as ruas, os becos, as avenidas. Qual a graça, então, de tirar onda porque o poeta deambula? Volonté é visto e se faz ver. Por toda parte. Nem deus é tão onipresente. E daí? Quando não é visto, Volonté se faz ouvir. Número tal. Desconhecido. Alô. E lá vem a voz de Volonté, ecoando não das tumbas mas do tal número desconhecido. Também meu número já se fez presença no celular de outrem, pra mim desconhecido, desconhecidos mútuos que se encontram na capacidade inata de Volonté pedir emprestado o aparelho, educadamente, sem abuso, já disse, e ligar, e dar notícia, e perguntar como estamos, e não marcar nada porque Volonté não é homem de encontros marcados. Alô. Aproveita e conta de mais um desafeto, às vezes é o mesmo da semana passada, quase sempre é  o mesmo do mês, ano passado. Volonté é homem fiel às desafeições. O que é justo. Os inimigos são eternos. Gli uomini offendono o per paura o per odio. Vou citar Machiavelli assim mesmo, no original. Volonté merece. Volonté merece tudo. Até esse prosaísmo besta de citar Machiavelli no original. Peripatético, o caralho! Volonté é o Príncipe dos mil números, ninguém tem mais celulares do que Volonté, Príncipe dos mil números. Ninguém anda mais pela City do que Volonté, Deus de si mesmo.

Volonté me telefona. Hora do almoço. Eu estava por aqui quando me meti a tergiversar, a divagar. Isso, de Volonté, telefona, Hora, almoço. Lá, eu, aboletado em cadeirinha de restaurante mezzo sofisticado, coração de Petrópolis, bairro sem coração, telefone toca. Alô. A voz de Deus. Gostou do sarau?, pergunta. Gostei, respondi animado, impossível não se animar diante da voz de Deus ecoando em número alheio, desconhecido. Ah, o ignóbil, ah o desconhecido, ah o coração das trevas nas trevas acesas do bairro mais sem coração da City. Não existe amor em Petrópolis, já falei? Pois estou dizendo agora. Nem as tilápias vicejam por aqui, nem as tilápias se contorcem, debatem diante do garfo impiedoso. Que chato. Carne morta. Servida no prato. Sem falar que a minha pedi ao molho suculento de maracujá e me servem uma outra ao molho de camarão. Cazzo, diria Machiavelli. Não existe amor em Petrópolis, nem fruit de la passion. Tem mas tá em falta. Alô. Desculpa, Deus. Por que não escreve algo sobre? Me pergunta. Deus. Número desconhecido. Estou tentando, Lord, ainda que você, ainda, não me tenha comprado a Mercedes Benz requisitada em ofício numerado, papel timbrado, tal. Então. Vai. Vai ou não vai falar sobre o sarau organizado por Volonté, noite dessas, no sebo de Ari? É uma pergunta, é a pergunta. Deus é assim, não oferece respostas mas faz perguntas, objetivas, simples, sinceras. Nem sei se é sebo, acho que não, o nome é Letra & Música, nenhum sebo usaria o &, ampersand, o nome dessa porra é ampersand. Abreviação gráfica para et. Surge et ambula, por exemplo. Surge et divaga, filho da puta. E o sarau? Não fiz a pergunta pra tilápia, adormecida em sono profundo sob massa escorrida de camarões. Tão minúsculos os camarões. Não existe amor em Petrópolis, quiçá grandes camarões. Fiz a pergunta pra mim mesmo, faço a pergunta pra mim mesmo, andei deambulando Petrópolis inteiro sem encontrar o amor mas isso é outra história, e a história aqui é Volonté que me telefona que me pergunta se gostei do sarau que diante da minha afirmação animada me pede que escreva algo que conte algo que narre enfim como foi o sarau lá no Letra & Música. Pois, foi assim.

Segunda-feira, o telefone toca. Volonté. Quarta-feira, hora dezoito. Aviso. Convite. O sarau era projeto antigo. Meses, talvez. Duas ou mais vezes cancelado e adiado. Salvo engano eram três os poetas homenageados, Adriano de Sousa, Napoleão de Paiva, outro que esqueço o nome ou muito me engano com o nome, tal. Eu apareço, hora dezenove que não sou homem de horários. Na entrada, Alex Nascimento. Era ele o terceiro homenageado? Juro que não sei. Mas era. Vai saber. Alex é quase meu namorado de infância, embora nossa distância seja de séculos e nossa intimidade dure eternos segundos cada vez. Mas, et, mais vale um segundo eterno na mão que anos de tédio banalizado entre quatro paredes. É por isso que nunca dividimos casa que isso não é papel para amantes genuínos que somos. Ele fica na dele, eu na minha. Nos abraçamos vez em quando, sem rancor porque não nos vimos nos últimos treze dias, mil e uma noites de amor, vendo estrelas caindo como na música de Jammil que fingimos não gostar. Ele na dele, eu na minha. Não vou negar que me senti traído, meu amante homenageado e nenhuma porra de telefonema pra me avisar? Podia ter pego emprestado um dos muitos de Volonté. Mas, não. Mas, tudo bem. Nosso amor se refaz imediatamente. Nem precisa ele me tomar pela mão e me levar até a namorada, que está lá pelo tal sarau, que, inclusive já começou, nos fundos da casa, um quintal maravilhoso, onde também repousam como plantas ornamentais o outro homenageado da noite, o Sr. Napoleão de Paiva, também Sousa, também de Alexandria, e outros tantos, et caterva como se diz por aí nas rodas cultas. Somos ao todo nove almas. Incluindo os músicos. E as plantas. Se é que as plantas têm alma. Acho que não. Nenhum vento as bole, nenhum deus as anima. As cervejas, casco verde, ocupam a mesa. Nos ocupamos das conversas, atualizadas, porque o tempo, porque quando nos vimos a última vez, quando nos veremos outra vez. Tal. Eu falei nove? Injustiça. Tem a décima. Deus. Volonté está por ali. Tão bêbado que me ignora. Injustiça. Não está mais bêbado do que eu, nem do que Deus, o verdadeiro, eternamente embriagado de anjos no Éden. Ensimesmado. Olhos baixos. Anda pra lá e pra cá. Marginal a si mesmo. Estamos todos acostumados a isso. Volonté nos ignora, pra que dele tenhamos atenção. Anda pra lá e pra cá. Vai comprar cerveja em algum boteco da vizinhança porque lhe proibiram beber no Letra & Música. Uma história que não vou contar aqui porque não. O sarau segue, o baile segue, sem dança, a música se arruma, se anima. Tem o sobrinho de Napoleão, acho que o nome é Pedro. Vergonha, não citar o nome na real. Custa ligar pra alguém pra checar o nome? Custa, não tô a fins, pode ser? Bom. Tem a namorada de Pedro, também. Nossa. A menina canta que é uma maravilha. Eu podia inventar uma expressão melhor pra edulcorar a pílula mas é por aí mesmo a menina canta que é uma maravilha ponto. Começa cantando uma música em espanhol e já manda ver, já diz a que veio. Segue o baile. Rola um Peninha mais pureza mais carinho mais calma mais alegria, rola um Bem que se quis e a velharia, incluso eu, fica uns três, cinco minutos tentando se lembrar quem cantava, quem? Quem? Marisa Monte, cazzo, porra. Ah a idade. Rolam outras canções porque as pedras assim não hão de criar limo e tals. Mas, quando, lá pras tantas, os cascos verdes se multiplicando geometricamente sobre a mesa de madeira, ensaia uma Billie Jean que redime Michael Jackson de qualquer idiotice que tenha feito na vida, ah. Ah. Ah. She was more like a beauty queen, from a movie scene… Billie Jean is not my lover. Pecado que eu não saiba o nome da moça pra ensaiar ter sido o primeiro a elogiá-la em público quando ela se apresentar no, no, no Carnegie Hall por exemplo? Insomma. Segue o baile. O casal manda ver, pede desculpas por não ter ensaiado mais músicas, alguém informa que ensaiaram um mês inteiro, o doido do poeta Volonté ia todos os dias, ou quase todos os dias, e cobrava e organizava e planejava o sarau. Que está pelo avesso. É quase como, não, não é quase como. É. Um grande evento pra dez almas, nove, porque um da plateia já se mandou. Restamos nós, os cascos verdes. O poeta. Pega um livro da sacola no chão. As aves, almas de rapina do meu namorado. Não. Alex Nascimento is not my lover. Não ouvi direito os versos. Qual teria sido? A voz de Volonté está quase inaudível, como sempre foi, como sempre é, anjo no Jardim do Éden, rouco, embargado. Infringente. Podia ter sido Et Cætera? Aspas. A primeira me deixou Porque eu era Botafogo, E ela, Flamengo. Aspas. Não. Não. Prefiro que seja, sim, Correio. Os créditos são de Nascimento, Alex, ano dois mil e um, o da Odisseia: Tenho toda uma vida Pra morrer. Resta-me A idade final Menos o que já vivi. E assim, entre créditos E débitos, finjo, Pensando que não notam. Claro Que dão risadas Às minhas costas. Meia história uma vez; Outra vez, mais meia história; E nunca parei pro óbvio: O somatório de meias verdades Jamais será uma verdade inteira. Se disser que Não te quero um centavo, Não te esqueço um minuto, Isso não é mentira, É um paradoxo, já que Não te odeio. Melhor admitir Que além de amor e ódio Há toxinas. Tão venenosas Quanto amor e ódio são. Ponto. Vamos pro parágrafo seguinte, não do poema, mas deste texto aqui que precisar respirar.

Os versos continuam. O baile segue. A página é a 55, 56, o livro ainda se encontra lá pela Fundação José Augusto, que o presidente então era Woden Madruga, o velho Madruga, como gostamos de chamar e arrumar um jeito, qualquer jeito, de inseri-Lo, outro Deus, na conversa, no texto, na descrição, narração do, sarau. Então. Segue, sublinho: Contorna-se quase tudo, menos o esplendor. Pronto, agora fudeu. Eis a essência do sarau, eis o motivo, se é preciso, das homenagens. Filho da puta, esse Alex. Ter um amigo que escreve assim, de verdade, nos deixa mais viados do que já somos. Nos amolece. Nos deixa lânguidos. Vou tatuar no cóccix, acima do, em verdade, se preciso em letras garrafais:

CONTORNA-SE QUASE TUDO, MENOS O ESPLENDOR.

Pronto. Momento boiolagem é finito, finitum est, voltemos ao sarau, que as cervejas verdejam sobre a mesa e o poeta Volonté está próximo de ir embora. Não antes de tocar uma música e outra, ao violão, as cordas de aço, coração de aço, o único coração com cordas de aço do bairro, já falei? Não, e deixa pra lá. Dedilha, então, o poeta Volonté, deus das pequenas coisas, Tempo perdido, sim, a música da Legião. Não a Legião do, aspas, meu nome, porque somos muitos, aspas, porque, aspas, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas, e ninguém o podia amansar, aspas. Tempo perdido, pois. Só instrumental. Os acordes inconfundíveis. E Napoleão de Sousa, de Paiva Sousa, vai e sozinho recita, pausa, a mulher proibida: essa música nostálgica é puro flagelo os acordes tangem a paixão como dedos que inventassem tocar piano em teclas feridas. sinto-me estrangeiro dentro de mim. Etc. E, mais pra frente, página 67 de Apenas Chegaram: ensina como me habilitar à tua boca me enredar nos teus músculos orquestrar teus movimentos cruzar gozos e espasmos e possuir a rosa louca do teu corpo – proibido. Ponto, finitum Napoleão. Segue o baile, agora mais animado. Nem falei que Ari trouxe castanhas e queijo de manteiga. Trouxe. Alex está entusiasmado com o queijo de manteiga. Volonté, também. Os olhos injetados. Nem falei que tocaram Na rua na praia na fazenda. Nem falei que tocaram Eu moro numa casinha de palha Que fica detrás da muralha Daquela serra acolá. Da primeira, lembraram que o Kid Abelha cantava. Eu lembro de Hyldon, cazzo, vamos nos originais. Da segunda, se perguntam se é invenção de Volonté. Eu sei que não, mas cadê a memória? Só agora me dou conta que é de Beto Guedes, do pai de Beto Guedes, tal. Ah. E nem falei que a mocinha cantou, ensaiou cantar, até que cantou mesmo uma do Rei, Ray Charles. Mas, por enquanto estamos no auge do sarau. E o auge do sarau é Volonté cantando Tempo perdido. Legião. A Legião. Enrola a letra, emboloa tudo. Castiga as cordas. Selvagem. Ouvir Volonté cantando Tempo perdido é experiência mística. Sacro amargo profano selvagem. Impossível descrever, impossível narrar o inenarrável, é um lamento, eterno grito, eterno desafino, Volonté parece que canta em seu próprio funeral, está mais vivo do que nunca, mais morto do que sempre. Sua voz é o epitáfio de si mesmo. Uma ode ao tempo, enquanto o tempo permanece em suspensão, e nem é ainda manhã, e nem as luzes estão acesas, e nem o som do violino de Pedro, será mesmo Pedro?, consegue aliviar a dor que convalesce e estiola, valei-me São Álvaro de Campos.

Sem mais. Mais nada a dizer. Mais nada a narrar. Apenas que, sim, a mocinha não apenas ensaiou cantar, mas chegou mesmo a cantar, Ray Charles: Hit the road, Jack, and don’t you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road, Jack, and don’t you come back no more.

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