Vontade de sumir

11 de maio de 2010

“Ah, que dia estranho”, pensou com seus botões, embora estivesse nu da cintura pra cima.

E logo se deu conta que era segunda-feira.

A segunda é a culpa do domingo.

A segunda é o complexo de culpa do domingo.

Dia perfeito pra sumir, quando bate essa vontade imensa e incomensurável de.

Vontade quase sempre adiada, porque normalmente os acometidos encontram-se sem forças para agir.

Ou pensar num modo, válvula de escape, via de fuga.

Cinema, literatura e blá-blá-blá oferecem mil e uma idéias.

Assim, de cabeça, lembro algumas.

  1. Via Raduan Nassar, em Lavoura arcaica. Depois de tentar comer a própria irmã, a única saída é mesmo fugir. Praonde? Prum hotelzinho barato próximo à estação, ferroviária ou rodoviária, segundo as condições do fugitivo. Aeroporto, não, que aeroporto é outro barato.
  2. Via Ridley Scott, em Thelma e Louise. Para mulheres, e homens sensíveis – estes, com a tal da alma feminina. Vá, se mande, junte tudo que você puder levar, de preferência uma amiga ainda mais louca, roube um carro, mate, se preciso for, e reze – com sorte, você ainda encontra um Brad Pitt imberbe no meio do caminho.
  3. Via Wim Wenders, em Paris, Texas. Da série fugas inexplicáveis, que nada justifica deixar pra trás uma belezinha como Nastassja Kinski, a não ser o louco do sogro, Klaus, em seu encalço. A não ser, reencontrá-la num cabaré eletrônico, mistura de fliperama com randevu. Isso, depois de uma travessia no deserto. Recomenda-se levar filtro solar.
  4. Via J. D. Salinger, em O apanhador no campo de centeio. Foi expulso do colégio? Nova Iorque é seu destino e descobrir praonde porra vão os patos do lago do Central Park sua meta.
  5. Via Malcom Lowry, em À sombra do vulcão. Esqueçam o vulcão islandês de nome impronunciável e fiquem com os mexicanos Popocatépetl e Ixtacíhuatl, sombreando a cidade imaginária de Quauhnahuac, que bem pode ser Cuernavaca. Ideal para fugas em novembro, quando se celebra o Dia dos Mortos no México. Mas com doses generosas de álcool, pode-se fugir em qualquer mês do ano.
  6. Via Raymond Queneau, em Zazie no metrô. Para os amantes de uma Paris menos óbvia. Viagem impossível e frustrada: com a greve, nada de subterrâneos. Resta blasfemar, como Zazie, uma Alice muito mais lôca que a de Carroll, impossibilitada de “vagãobundar no metrô”: “Com mil diabos, puta merda!” Finda a fuga, o melhor da viagem – a sensação de envelhecer.
  7. Via Michelangelo Antonioni, em Profissão: repórter. Fuga dentro da fuga: estando num deserto qualquer do mundo (não é nem preciso ir longe, até no seu quintal você encontra um) e topando com um defunto parecido com sua pessoa, roube-lhe documentos e vida e escape. Ideal para quem quer cruzar, em algum ponto da fuga, com uma Maria Schneider. Não confundir, pelamordedeus, com o programa do Caco Barcellos – aí você não merece fugir, não: merece ficar em casa.
  8. Via Antonio Tabucchi, em Noturno indiano. Percurso longo, de Bombay a Madras, de Madras a Goa, fuga infinita, porque qualquer viagem à Índia é encontro e desencontro. Recomenda-se, nos fones de ouvido, Não vá se perder por aí, com Mutantes.
  9. Via Charles Nicholl, em Rimbaud na África. França, Egito e Etiópia, em busca de um fugitivo bem mais impressionante: Arthur Rimbaud, que, conta a lenda, abandonou a poesia moderna para ser traficante de armas na África. O livro-ensaio-biografia de Nicholl é uma viagem em si, evocando a cada página a máxima do poeta: “Eu é um outro…”
  10. Via Sergio Leone, em Era uma vez na América. Entre nuvens de ópio e tiros, o amor de uma vida inteira; entre os acordes de Yesterday e o som de um telefone que ninguém atende, a resposta à pergunta “O que você tem feito?” – “Tenho dormido cedo”. O que remete à maior fuga de todos os tempos – o início de Em busca do tempo perdido, Proust, na tradução de Quintana:

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”.

Dormir, pois, é fuga das mais baratas e rápidas.

O danado é a insônia.

5 Já Comentaram para “Vontade de sumir”

  1. Carito disse:

    clap, clap, clap!!!

  2. Jarbas Martins disse:

    Andava meio sumido daqui, meu caro Mário Ivo, movido talvez por esse comum sentimento que, vez em quando, nos abate. A náusea matinal acompanhada do sucrilho nosso de cada dia.Mas, oh meu caro cronista pós-moderno, minha flor paródica e corrossiva, como é salutar tua suave dose de ácido.Teu kit contra insônias, depressão, a náusea sartreana, essas coisas da modernidade, ignoradas arrogantemente pela minha avó Liquinha e suas eficazes mezinhas.Não havia, meu caro nada Ledo Ivo, muitos recursos na modernidade para se curar o nosso sentimento de culpa, culpa da nossa herança judaico-cristã.Aguentar um ressacão do tamanho desse que você fala aí, não era moleza.Rir, o breve verbo rir, que palindromozinho besta e eficaz.Mas nisto você é bom e sabe o que faz, meu rapaz.E haja Magritte, Salinger, Nassar, citações
    tão oportunas quanto obrigatórias.Querem, há muito tempo, cassar a alegria, meu caro Ivo. Vale aqui o comentário do meu poeta pós-canônico preferido, o Carito: clap, clap, clap.Supimpa como dizia um tio-avô angicano.

  3. Alex de Souza disse:

    Vamos fugir desse lugar, baby.

  4. Larissa Gabrielle Aráujo disse:

    “Vontade de sumir” – como eu conheço isso.

  5. soraia disse:

    melhor seria se chegasse sempre aos sábados, pois se teria o domingo inteiro pra dormir.

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