Você viu um cabeção por aí?

3 de março de 2010

Se eu fosse escroto diria: a vida é curta e a cerca longa

Sem medo de parecer arrogante, sem meias-tintas, declaro:

– Vez em quando leio a Veja, para entender o que apreende e aprende a dita massa ignara, o rebanho de ovelhinhas, todas, com mínimas e discretas variações, tendendo para o alvar.

Mesma coisa e com a mesma intenção, faço com a Globo, tevê.

Voltando à revista do signore Civita, com ela me entretive, dias desses, no balanço lento das horas em que sempre se mergulha quando numa recepção médica. À página 129 da última edição, 3 de março 2010, dou de cara com uma matéria (? artigo? opinião?) que bate na tecla do preconceito vigente contra intelectuais, artistas e similares: que esse microrebanho tende à prática recorrente do salto com vara, isto é, a pular a cerca, trair e coçar etc. etc. O termo, aliás, denuncia a antiguidade do lugar-comum, com esse ar rural de tradição, família e propriedade e o velho tratamento destinado às damas: cercas servem não apenas para delimitar os limites da posse, como a posse em si de novilhas, cabritas e outras associações ao belo sexo, como se dizia, pois, um dia, um mês, no século passado, ontem.

De um certo modo, a revista antecipou uma pesquisa inglesa, divulgada também por esses dias, que afirma, em poucas palavras, ser o homem infiel mais burro do que o fiel. Tipo assim: o macho que, hoje em dia, consegue manter-se fiel a uma única parceira, o faz em conseqüência da evolução. Não sei se da espécie, da mente, ou da mentalidade.

Mas, enfim. A Veja – como um William Bonner impresso – sentencia, categórica, a existência de uma “larga lista de sábios que agem como tolos na vida privada”. O primeiro do rol é um historiador inglês de quem nunca ouvi falar e que, alerta a revista, vai sifu com o divórcio iminente e eminente. Seguem os escritores Ernest Hemingway e Norman Mailer e o cineasta Woody Allen. Para este último o semanário dedicou seu mais profundo maniqueísmo: acusa o diretor de ter sido expulso de casa pela mulher quando esta encontrou fotos de uma filha adotiva do casal, nua. Esqueceu apenas de dizer que, na verdade, a menina não era menor de idade nem filha, ainda que adotada, de Allen. E que os dois, depois do escândalo, passaram a viver juntos e se casaram oficialmente em Veneza. Ou seja, nada a ver, sob este ângulo, com a associação “mentes brilhantes, comportamento infame”. Afinal, casar em Veneza é sonho não apenas de machos intelectuais, como de machos-celebridades, machos novos-ricos, machos-machos e, especialmente, das mulheres com quem casam.

Quanto à tal pesquisa desconfio que a única diferença entre os homens “fiéis” e os “infiéis” é que os primeiros nunca se deixaram flagrar. O que prova que realmente são mais inteligentes.

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