Uma tristeza ensolarada

14 de janeiro de 2014

A aventura, Antonioni, 1960

Eu estava na praia construindo castelos de areia quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Uma tristeza ensolarada.

Gosto de maresia.

Cheiro de caravelas tocadas pelo vento dos descobrimentos, os caminhos das Índias, as indiazinhas com suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas, na descrição do Pero Vaz.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, e até arriscaria dizer na lembrança daquele sábado, a lembrança daquele sábado, que tinha apenas entoado a nuvem passageira de Hermes Aquino, quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, e devo avisar que falava justamente sobre a abóbada celestial que por aqueles lados parece mais evidente na evidência visível de que a terra é redonda e o tédio, grande, quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, pensando na aventura do descobrimento, as grandes navegações, o mundo visto desde a lua, pequeno grande passo para o homem e a humanidade, tal.

– Quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

O tempo não parou, as ondas não cessaram, o vento não mudou de direção, o sol não se fez mais ameno, ou mais tórrido. Nenhuma bandeira do fluminense apontou no horizonte. Nenhum calango correu célere no rumo das pedras vermelhas, negras e brancas contra o céu azul do início da tarde. Era sábado e a música daquele sábado, então.

Que estranho. Eu estava na praia e Moacy estava morto. A barba branca de Moacy estava morta. O tórax atarracado de Moacy não mais sentia os pulmões encherem e arquearem as costelas. Não haveria mais nenhuma explosão, nem BOOM, nem CRASH, nem UAU, nem ZZZZ, nem. Nem.

Não haveria mais a aventura de Monica Vitti em Lisca Bianca. Em Taormina. Em.

Depois, me diriam que Moacy estava vivo, que continua viva sua obra, seu legado, sua herança intelectual, tal.

Mas, que merda. Moacy continua morto, uma cova no semiárido, e o mar há muito varreu o castelo e todos seus infinitos grão de areia.

 

Um Já Comentou para “Uma tristeza ensolarada”

  1. Saudades de Moa.
    Ele mora na minha saudade. Agora.

Deixe um Comentário