Um amor de anos

7 de fevereiro de 2012

Para Giulia

Então, rapazes.

Então, moças.

Sem mais delongas, nem intróitos, nem beletrismos, nem aforismos, vos conto apenas que – dois pontos.

Estava eu chafurdando nas prateleiras em busca de um livro tal, quando, ao encontrar o tal livro tal, dou de cara com um cartão-postal da filha.

Do tempo em que os cartões-postais levavam hífen. Entre uma coisa e outra, uma palavra. E outra.

Sem data, sem timbre postal, o único indício de que foi escrito há muito, muito tempo, é a letrinha miúda e ainda infantil, os erros corrigidos com pressa e caneta hidrocor e o que conta e como conta o que conta.

Da tristeza pela distância do resto da família.

Da saudade do banho de mar.

Das aulas de esqui.

Da perna quebrada do irmão, olha só, justo pelas aulas de esqui.

Vai da saudade à vontade, das dunas à neve, do sol ao inverno.

E um oceano pelo meio.

A foto – no verso do cartão onde residem normalmente as fotografias nos postais – é de vaquinhas. Isso: vaquinhas. Branquinhas. Prosaicas. Nem gordas. Nem magras. Uma fila de vaquinhas (uns bezerrinhos ali pelo meio). Ao fundo, uns ciprestes denunciam a paisagem toscana. A legenda explica: as vaquinhas (e uns bezerrinhos ali pelo meio) estão voltando do pasto. O termo usado – na legenda explicativa – é “rientro”. A tradução pode ser “volta”, “regresso”, “retorno”. O que implica, por associação direta, uma volta, um regresso, um retorno – ao lar, à casa.

Um desejo.

Do lado direito do cartão – no verso dedicado à escrita –, assim, meio atravessado, sem régua ou compasso, ela, então, minha filha, sempre, naquele dia de há muitos anos (e quase posso vê-la, e quase posso tocar em sua franja quase dourada, e quase posso sentir ainda suas asas quando do abraço), pega do lápis e mancha de hidrocor a ponta do dedo (o cata-piolho – e é ela mesma quem lembra o apelido), imprimindo uma nódoa escura tão pouco detalhada de linhas que mal lembra a menção de uma identidade, e pede, misturando as línguas materna e paterna, que também eu imprima minha digital ali, abaixo da sua, ao lado da sua.

Outras manchas resistem sobre o cartão: outra digital, e o que parece ser um coraçãozinho.

Um sonho.

E, ao final do texto, conclui: “Até logo papai”. Um “Até logo papai” que ainda hoje, anos depois, é de uma imensidão sem tamanho, preenchendo qualquer vazio; uma ternura infinita, alcançando o futuro mais distante; uma saudade invencível, derrotando toda desesperança; um amor de anos, um amor de anos.

6 Já Comentaram para “Um amor de anos”

  1. Johnny Cavia disse:

    Marioivo,

    Vc escreve que é uma beleza, precisa deixar de ser preguiçoso e escrever mais amiúde, afinal esse seu emprego na Preá, além de outros que acaso você tenha não ocupam tanto assim seu tempo. Eu era feliz e não sabia quando tinha o prazer de ler o ‘embrulhando peixe’e depois, logo no inicio desse seu saite com nome proprio e terminação brasileira(que coisa mais brega nome proprio no saite, acho o ó da breguice, só falta mesmo vosmicê ter cartão de visita com nome do saite, telefones etc, mas isso é minha simplória opinião, de quem nem blog tem, ‘quidirá’ saite)
    Não vá se ofender com meu supuesto puxão de orelha, afinal leitores são abusados assim mesmo. Ou se se ofender, nada posso fazer exceto proxima vez que lhe vir ao vivo e cores e acaso vc consiga me identificar nessa fauna tão heterogenea que é a da Natal contemporanea, vir tomar ‘sastifações’ comigo.

    Num vá ficar rempli de soi-même com tanto elogio, pode ser que eu esteja armando o fôjo e jogando os pedacinhos de batata baroa para lhe atrair.

    & depois de tanta asneira escrita, sintetizo: Belissimo texto!

  2. Sophia disse:

    De chorar, Mário Ivo…
    De chorar.

  3. soraia disse:

    mais uma surpresa, embora não seja exatamente de surpreender: nos seus textos sempre há um cantinho para nós, seu leitores. comigo é sempre assim. neste, em especial, acolhida para o meu choro, e chorar de emoção viva faz bem.

  4. Bagdad's disse:

    Limpido e profundo.
    Chorei.

  5. Ana Laura Barreto disse:

    ô, marioivo! que coisa mais linda.

  6. Giulia disse:

    Pior è que è de chorar mesmo.
    E nao acaba.

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