Tudo sobre Verônica

23 de janeiro de 2012

Verônica morreu.

Me avisam por email.

Um email que eu preferia não ter lido.

Ou que não precisasse ter sido escrito.

Mas eu li o email.

E alguém escreveu o email.

Onde a morte de Verônica aparece. Não em letras garrafais. Não em negrito, sublinhado, marcado de vermelho.

Verônica morreu e nem mereceu um itálico. Ou aspas. Ou colchetes.

Ou neon. Ou fogos de artifício. Ou caracteres góticos.

Sua morte aparece no meio de uma frase da qual não me lembro, mas sei que li. Em algum lugar, em algum dos emails que abarrotaram minha caixa de mensagens no último fim de semana. Talvez entre o release de um órgão público qualquer e o de um restaurante da moda. Qualquer.

Morta Verônica, morro um pouco também eu.

Mas dura apenas alguns minutos, essa falsa morte minha. O tempo de quase chorar, de travar a garganta, de palpitar o coração, de esquentar o córtex e recordar sua presença em minha casa, manhãs de segunda, onde fazia a faxina semanal e onde apareceram os primeiros sinais do tumor que lhe tiraria a vida e obrigaria alguém a me noticiar sua morte num email que preferia não ter lido.

Verônica cuidava de mim, entre uma varrida e outra, entre um pano de chão e outro, entre um banheiro lavado e outro.

Cuidava de um modo que só ela poderia cuidar. Essa namorada ainda não é quem o senhor merece, seu Mário, me dizia. E eu – que nunca gostei que me tratassem de senhor – gostava ainda mais de Verônica porque seu tratamento formal era uma prova de amor mais que fraterno. Ou quase maternal. Ou de tia.

Tinha uma voz quente, Verônica. Uma voz que mal se alterava quando eu – que tinha pedido, rogado, implorado, pra que ela não mudasse as coisas do lugar (e Verônica sempre mudava as coisas do lugar) – ligava pra ela e perguntava, meio puto, Verônica, cadê aquele papel assim, assado, que estava em cima dos discos na sala? Ou, Verônica, um livro tal, capa vermelho e azul, onde foi parar, Verônica? Aí ela se enrolava toda e dizia que ia pensar e que ligaria quando lembrasse.

Quase nunca Verônica lembrava, ou era eu quem quase sempre achava o perdido antes da sua ligação, descobrindo na verdade que o papel, o livro, não estava onde eu pensei que tivesse deixado.

Um injusto, eu, com as vagas lembranças de Verônica.

Foi para o hospital e eu nem me abalei em visitá-la, porque achava que ela voltaria logo e tudo correria bem e não havia motivos pra preocupação. Depois, quando percebi que meu otimismo era irreal, não tive tempo, mesmo, de ir lá, e pensei, não, ela não precisa de mim, outros amigos podem acudi-la.

Que filho-da-puta, hein, seu Mário?

Não. Verônica nunca falaria assim. Tinha um calor em sua voz e nenhuma palavra negativa. Eu gostava de conversar com Verônica, de me abrir com Verônica, de ouvir suas histórias de vida, seus conselhos. Verônica me alimentava de conselhos – quase todos bons, porque simplesmente desinteressados, simplesmente simples. Vez ou outra trazia goma e me fazia tapiocas. Um cafezinho, seu Mário? Aparecia na porta do escritório no exato instante que, sim, eu queria um cafezinho. E dizia, o senhor precisa comer – e me cortava frutas. O senhor devia fumar menos – e ela mesma acendia um cigarro. Porque Verônica era assim: imperfeita – e mais perfeita do que eu; contraditória, mas bem mais coerente do que eu. Amiga – e muito mais amiga do que eu fui.

Agora, morta Verônica, fico eu aqui, pretenso vivo, suposto sobrevivente, suspeito de sempre, procurando sanar de algum modo minhas falhas com Verônica. Minha lacunas com Verônica. Eu poderia encher páginas e mais páginas com tudo que sei sobre Verônica, mas a verdade é que Verônica era muito maior do que tudo que eu sei sobre ela.

3 Já Comentaram para “Tudo sobre Verônica”

  1. Patricia Teixeira disse:

    Puxa Mario! Que pena que ela se foi. Triste.

  2. Fátima disse:

    Todos fomos inadinplentes com ela, assim como somos com a vida.

    Não sei se isso te interessa, mas a única casa que ela não deixou de trabalhar, mesmo doente, foi a do “seu Mário”. Lembro-me do orgulho dela em ter ajustado uma roupa tua. Ela dizia-me, com muita convicção, “Seu Mário precisa de mim”.

    Conheço pouco de Mário, já “Seu Mário”…

  3. Mario Ivo disse:

    é, seu mário precisava – precisa – dela. foi.

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