Tremblement

5 de dezembro de 2012

A arte de cruzar referências e leituras na ressaca de uma segunda-feira, a arte de cruzar referências e leituras numa ressaca que se estende pela quarta-feira: os Diários de Susan Sontag versus uma entrevista com Franco Battiato para o La Repubblica.

De que falam os efebos? De Amor, claro.

La Sontag, em 1957 – em apontes curtos e dispersos sobre casamento, imagina-se no futuro, cercada de bisnetos, num diálogo provável:

– Bisavó, você tinha sentimentos?

– Sim. Foi uma doença que peguei na adolescência.  Mas fiquei curada.

O maestro, em entrevista, 2012, diante da pergunta sobre a tradição das canções italianas – prisioneiras – reféns – presas – do chamado Amor Romântico, aspas, sic:

– Mas por que me obriga a falar sobre isso? Logo eu, que me orgulho de nunca ter me apaixonado.

Volta atrás:

– Na verdade, me apaixonei aos 16 anos. Ela me fazia tremer as pernas. Foi belo, porque acabou ali. Mais um ano de tremblement me teria matado.

Battiato usa o francês pra explicar aquele tremor – provavelmente muito além das pernas.

– Eu entendo a sua pergunta, eu provei daquela embriaguez. Mas estamos falando agora do amor consciente, aquele que vem depois. É inaceitável a ideia do enamoramento como perpetuação do malestar, quando o casal começa a fase dos sadismos… É humilhante.

A seguir, aos borbotões (“Battiato é feroz”, me comentou Liana Machado):

– A paixão é uma doença, um peso que nos arrasta para baixo. De amores realmente bem resolvidos, numa perspectiva otimista, existe um em um bilhão. Os jornais  falam todos os dias sobre pessoas escrotas que pensam que são os donos dos genitais do outro. Não é isso que causa o feminicídio que estamos presenciando? Quantos homens matam porque sentem-se rejeitados? Querem chamar isso de amor? Aquele um em um bilhão acontece quando duas estaturas de mais alto nível se encontram – e então não se discute sobre a pasta de dente, e a diminuição do desejo não é razão suficiente para uma separação. Existe um equívoco a respeito do amor e do sexo. Muitos acreditam que seja um sentimento que explode numa forte tensão sexual – passado pouco tempo, apenas estúpida. Mas isso é um equívoco, uma ilusão. Até o orgasmo é um momento mais complexo do que uma simples ejaculação: é a prova geral do abandono do ego.

Parêntesis – ironia das ironias, o siciliano Battiato estréia em 68 com uma canção intitulada E l’amore [E o amor]. Lá pras tantas, disparava:

È l’amore che mi prende piano piano per la mano/ Mentre l’acqua dietro ai vetri già discende lentamente/ Come son lunghe le sere d’autunno se non sei con me.

[É o amor que me pega pouco a pouco pela mão/ Enquanto a água por trás dos vidros já desce lentamente/ Como são longas as noites de outono se você não está comigo.]

Um ano depois, desiste de cantar as dores de amores, viaja a Londres para comprar um sintetizador, abraça a música de vanguarda, entra e sai de uma profunda crise existencial.

– Me aconselharam um psicanalista. Foi a minha salvação. Me explicou que não era nada grave, não tivemos uma única sessão, só me prescreveu alguns remédios. Ao descer as escadas do seu consultório, disse a mim mesmo: bem feito, cretino, por se colocar nas mãos de alguém que não sabe nem mesmo quem você é. Claro que não comprei os remédios. Fiz da receita uma bolinha de papel e joguei no lixo. Em casa, como um selvagem, me deitei no chão. Pouco a pouco descobri que podia questionar o meu eu interior. Aquela, sim, foi uma experiência fantástica. No mais, che bello dormir sozinho…

Também Sontag enfrentou crises existenciais (aspas, sic, no plural). Mas ao contrário de Battiato, que acha que a arte é por demais sublime para ser apenas a trilha sonora de amores despedaçados, aos 15 anos a moça pensa saber onde encontrar alívio imediato:

Estou quase à beira da loucura. [...] cambaleante à beira de um abismo ilimitado – [...] Como posso fazer o diagnóstico de mim mesma? Tudo o que sinto, do modo mais imediato, é a necessidade mais sofrida de amor físico e de companhia mental [...] Minha necessidade é tão avassaladora e o tempo, na minha obsessão, tão curto – [...].

Dez anos depois, aos 25, ainda está longe da (suposta, aspas, sic) sanidade espiritual de Battiato (não existe nenhuma relação entre os dois, deixo claro, a não ser o acaso dessa segunda-quarta-feira):

Sadismo, hostilidade, um elemento essencial no amor. Portanto é importante que o amor seja uma transação de hostilidades.

Até no orgasmo divergem – o músico enxerga no prazer o abandono do ego, a ensaísta, o encontro vital, inclusive para a sua arte:

O orgasmo põe em foco. Eu anseio por escrever. A vinda do orgasmo não é salvação, porém, mais que isso, o nascimento do meu ego. Não consigo escrever antes de achar o meu ego.

E por aí vai. Um e outro, sem nada a ver, sem provavelmente terem se encontrado em vida (ela morta em 2004, ele ainda vivo – e imune à paixão). Até que dou de cara com uma e outro, ela num livro, ele numa notícia de jornal.

Amor romântico versus Amor consciente.

Por aí.

Coincidência, ou não, mesma segunda, notícia de segunda, cioè, da semana passada – o tal um em um bilhão dos amores bem resolvidos citados por Battiato é reconstruído pela repórter Mariana Filgueiras nas páginas da revista O Globo: o brasileiro Sylvio conhece a italiana Febea em 1966, em Milão. Da série Amor & Despedida à primeira vista: logo, o brasileiro precisa retornar à terra natal e “o amor foi construído à distância”. Sylvio:

– Nosso namoro durou um ano, 136 cartas, nove livros, dois telegramas e um telefonema.

Matemático, o rapaz, hoje ainda um jovem senhor, que explica no belo (emocionante, tal, etc.) trabalho de reportagem o que aconteceu depois de tais números: Febea vem ao Brasil, tem duas filhas com Sylvio, até que a morte (dela) os separa.

Impossível não lembrar de André Gorz, que antes de se matar, ao lado da mulher, doente terminal, lhe escreve uma carta:

Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher.

Impossível não lembrar, também, de Claudio Magris, que escreve uma declaração sucinta em forma de romance curto, na voz da mulher morta:

[...] entre meus braços e minhas pernas, ele também se esquecia dos medos que tinha, e é claro que eram muitos, mas os atirava para trás dos ombros, assim como fazia com as roupas quando íamos para a cama. Que pena me dão os que têm medo, [...] as pessoas são cheias de tiques, e isso quer dizer que não fazem amor como se deve [...].

Fazer amor como se deve, eis a incógnita.

Questão de segunda, de terça, de quarta. Sontag, Battiato, Gorz, Magris. E, porque é quarta, porque é ressaca, porque os dias têm trilhas sonoras, Brown, James: os homens constroem carros, trens, barcos, brinquedos, inventam a luz elétrica e até dinheiro para comprar outros homens, “but it wouldn’t be nothing, nothing without a woman or a girl”.

Ou, como diz uma amiga, Luciana Ubarana, que destila suas dores de amores no twitter:

né tosse não, são amores engasgados.

Um Já Comentou para “Tremblement”

  1. Lindão
    Você tece sonhos e esperanças e me dá um desejo de ser feliz.
    bj. MEmilia

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