Ant’ontem, no Teatro alla Scala de Milão, foi noite de estréia de mais uma versão da ópera Carmem, de Bizet. Daniel Barenboim, argentino de nascimento, o maestro. Pra quem não lembra, é aquele mesmo, que fundou, com Edward Said, a West-Eastern Divan Orchestra, formada por jovens árabes e judeus.
Como em toda noite de gala, nuvens de vestidos longos e gentlemen in black – embora a imprensa tenha observado a quase ausência de artistas e celebridades e que a nota dominante era uma certa sobriedade entre homens e mulheres. Nota dissonante, a filha de Berlusconi e presidente da Mondadori, uma das maiores editoras do país, que usava um colar de diamantes, “presente de papai”.
O estilo sóbrio não era à toa: diante do Scala, milhares de manifestantes protestavam e chegaram a jogar ovos no público, formado em sua maior parte por políticos e grandes empresários.
A maioria dos manifestantes era de operários da Fiat e da Alfa Romeo e de alguns funcionários de outros teatros italianos, inclusive de Roma e Turim. Em comum, o medo de demissões pela frente.
Daí os protestos.
O escritor Dan Brown (O código Da Vinci) era uma das exceções famosas presente. Achou tudo muito exótico e ameaçou mais um best-seller, desta feita ambientado no Scala. (Não sabe ele que Dario Argento já fez, provavelmente, coisa melhor do que ele nunca fará: o filme Terror na ópera, safra 1987).
A polícia, claro, não deixou barato.
Já os músicos – e olha que a Itália é provavelmente e atualmente um dos países menos civilizados da Europa – também não se calaram: já no fosso da orquestra, levantaram-se e fizeram um minuto de silêncio, pelos operários, pela gente do teatro italiano, mergulhado em mais uma crise.
Já o sobrescrito, desta ribeyra do oceano, ficou matutando com seus botões uma comparação que os bem-pensantes acharão absurda: enquanto em Milão, estreava-se uma ópera em meio a protestos de gente comum contra o desemprego, na Capital Espacial do Brazil, no mesmo dia, com a diferença do fuso horário, encerrava-se mais um Carnatal, pleno de celebridades ou de pretensas, desta vez com um agravante a mais – todos, ou quase todos, fazendo ouvidos de mercador, indiferentes às ameaças de epidemias, pandemias e outras “mias”.
Inimaginável pensar que alguém ousasse protestar – por exemplo, na pipoca.
As (poucas) vozes dissonantes preferiram se entrincheirar – e se isolar – nos twitters da vida (virtual).
Diferenças entre colonizadores e colonizados?
Talvez. O mais certo é que por aqui as óperas sempre bufas são.
