Tauromaquia: Michel Leiris | Georges Bataille

29 de julho de 2010

Livrinho desses, abrigados sob o guarda-chuva do cult, Espelho da tauromaquia é um apanhado de reflexões estéticas costuradas pela poética de Michel Leiris, francês, amigo de Bataille e Picasso, surrealista, etnólogo, tal. Me veio em mente quando da notícia sobre o fim das touradas na Catalunha (de onde vinha certa espanhola sedutora, que desejava de um brasileiro as artes exóticas de tocar castanhola e apanhar o touro à unha, coisa aliás, nunca vista, senão na rima burlesca de carnaval tropical).

A propósito, me perguntaram se sou favorável às touradas porque tuitei [sic] comunicado do matador El Fandi sobre o causo [aqui]. Claro que as perguntas vieram sob o signo do espanto (umas) e da indignação (outras), às vezes os dois, acrescidos de reprovação explícita.

Ser a favor dos touros, e contra os toureiros, me parece o caminho mais fácil e óbvio. Ninguém, em sã consciência, deseja a tortura e o sacrifício de um animal. Embora, quase nunca, os carnívoros lembrem como vacas e outros bichos comestíveis são abatidos, especialmente quando diante de uma picanha na brasa, uma paçoca de pilão, um big mac.

Enfim, aquele papo do Torquato:

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.

Pois, eu também poderia ser radical e afirmar: só considero quem é contra as touradas se for vegetariano.

Fim.

Ainda não: nos anos primaveris da minha longa e velha existência, eu morava em Madrid – e infelizmente não conheci nenhuma espanhola da Catalunha. Também nunca assisti a uma tourada ao vivo, senão pela tevê, como quem assiste a uma partida de futebol. O fato é que tudo, a tourada, me pareceu uma grande sacanagem com o touro: antes de el matador enfiar a espada nas fuças do bicho, este já está muito do lascado, com outras facas, ou arpões, ou cutelos, ou qualquer troço pontiagudo e penetrante, enfiados no lombo.

Então, sou contra as touradas?

Sim. Não.

É triste e desumano levar um touro para uma arena, sob os olhos de uma massa animada pelo sangue por vir. Do touro ou do toureiro. De ambos. É um tanto covarde competir com alguém que vai morrer.

Então, sou contra as touradas.

Sim. Ainda não.

Se eu fosse espanhol, me sentiria mais à vontade para questionar minha própria cultura. Secular, ancestral. E sedutora. As touradas têm um apelo imagético inquestionável. São civilização e barbárie no mesmo espaço, arena. Assistam Matador, de Almodóvar, sexo e Tânatos, sexo e tauromaquia. Leiam a História do olho, de Bataille, e tentem suprimir os dois capítulos que fazem referência a touradas. História do olho é de 1928. Espelho da tauromaquia é de 1938. Matador é de 1986, o que, por outro lado, prova como estamos ficando burros.

Bataille:

Aliás, é preciso dizer que, quando o temível animal passa e torna a passar pela capa, sem descanso e sem trégua, a um dedo do corpo do toureiro, experimenta-se um sentimento de projeção total e repetida, característico do jogo físico do amor. A proximidade da morte é sentida da mesma forma. Essa multidão de passes felizes é rara e desencadeia na multidão um verdadeiro delírio; tamanha é a tensão dos músculos das pernas e do baixo-ventre que, nesses momentos patéticos, as mulheres gozam.

Leiris:

Provocado pelo brilho do pano, o animal investe; deslocando-se o menos possível, o homem esquiva-se do ataque, e os chifres, ao invés de atingirem um alvo de carne, não encontram mais que o chamariz da capa. Para que o passe seja perfeito, é preciso, entre outras condições, que ele seja “fechado” (que o chifre se aproxime do homem a ponto de quase o roçar) e que o touro passe por inteiro (que toda sua massa, da cabeça ao rabo, passe à frente do homem antes que esse retome a posição para receber nova carga).

*

Enfim, meus infantes, touradas são como Cuba sob embargo: a princípio somos contra, mas como imaginar um mundo sem a beleza dos passes do toureiro e sem aqueles automóveis americanos circulando pelos quase escombros decadentes de Havana, como se ontem fosse hoje, ainda hoje?

*

Bonus track: Leiris sublinhado:

Noutros séculos e noutras culturas, observam-se ritos, jogos, festas que servem de natural exutório aos impulsos da afetividade e graças aos quais os homens podem imaginar, ao menos por algum tempo, que assinaram um pacto com o mundo e reencontraram a si mesmos.

[...]

Basta entretanto ouvir o olé! – ampliando-se em rumor visceral – de uma multidão espanhola para se persuadir de que, em cada corrida, reina uma gravidade da qual nenhuma outra tentativa ousada de enganar a morte poderia fornecer equivalente, por grandiosa que seja em si mesma e nos detalhes de sua execução. [...] todas as ações executadas são preparativos técnicos ou cerimoniais para a morte pública do herói, que não é outro senão esse semideus bestial, o touro.

[...] a tauromaquia [...] é algo mais que um esporte, em vista desse caráter trágico que lhe é inerente – duplamente trágico, pois que há sacrifício, e sacrifício com risco imediato para a vida do oficiante.

[...]

De um modo ou de outro, o matador desempenha o papel de uma espécie de Ícaro ou de Don Juan, a quem tão-somente a força excepcional – ou a astúcia – permite escapar à aniquilação final.

[...]

Conclusão de toda essa parada amorosa com uma espécie de penetração, a estocada final (na qual é desejável que, segundo a expressão consagrada, a espada seja enterrada na ferida “até que se molhem os dedos”).

[...]

Pitada de veneno sem a qual nenhum álcool seria concebível, pois a ebriedade – por eufórica que seja – não pode jamais ser algo além de uma imagem mais ou menos aproximada de nossa comunhão futura com o mundo da morte.

Michel Leiris: Espelho da tauromaquia. Tradução: Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.

*

Bonus track: El Fandi:



Um Já Comentou para “Tauromaquia: Michel Leiris | Georges Bataille”

  1. Jarbas Martins disse:

    o fascício e a repulsa me dividem, caro mario ivo, quando os assuntos são: touradas, carrinho no futebol, boxe, e alguns jogos que pratiquei em minha primeira infância em Angicos: gato no pote e arremesso de cuspe à distância. dúvida hamletiana:sim/não. quanto às suas crônicas, nenhuma dúvida: fascinantes.

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