Sorry story

1 de maio de 2010

Nunca fui muito fiel às minhas leituras internáuticas – a fidelidade, senão questão de pele, é de papel. Fui fiel, por exemplo, à jornalista Cora Rónai numa época em que os jornais do Sul Maravilha eram comprados em bancas de revista do centro da cidade – na Princesa Isabel, próximo à João Pessoa (a Princesa e o João, nomes de rua, fique claro, pra quem não conhece o centro, a Cidade Alta). Cora Rónai fazia parte daquela turma, quando O Globo e o Jornal do Brasil ditavam o ritmo das leituras. Escrevia sobre informática num tempo em que computador era coisa pra parede inteira e os telefones com teclas eram uma modernidade sem igual. Não sei se exagero, pode ser, ou não. O fato é, anos atrás, comecei a ler o sítio de Dona Rónai, filha de Paulo etc. Mas terminei esquecendo-o. Volto agora num copia e cola, porque, porque sim. Segue abaixo:

Queiram desculpar, por Cora Rónai

Um dos maiores sucessos do cinema no já muito distante ano de 1970 foi “Love story”, historinha melodramática que, a essa altura, teria caído no mais completo esquecimento se, por acaso, não tivesse uma fala que entrou para a história. “Love means never having to say you’re sorry”, dizia a personagem de Ali McGraw para o personagem de Ryan O’Neal, o namorado que, depois de fazer uma besteira qualquer, tentou pedir desculpas: “Amar é não ter que pedir perdão”.

A frase deu origem à tirinha “Amar é…”, virou chavão, adesivo e capa de caderno escolar, é batida e piegas, mas encerra uma verdade incontestável: quem se importa com o outro, de verdade, trata de pensar e de agir bem consistentemente, em vez de magoar e, depois, pedir desculpas. Quem gosta cuida, presta atenção, evita ferir. Oferecer desculpas depois que o mal está feito é em geral pouco e, na maioria das vezes, não adianta de nada.

Em 1992, por exemplo, o Papa João Paulo II pediu desculpas em nome da Igreja pelo processo movido contra Galileu Galilei, que ousou afirmar que a Terra girava em torno do sol. Além de Galileu já estar morto há 350 anos, o caráter patético do episódio ampliou-se com a declaração mesquinha do pontífice, que fez questão de observar que a condenação fora resultado de uma trágica “incompreensão mútua”. Oi?! Como assim? Desde quando Galileu, que corria o risco de ser queimado em praça pública, era obrigado a “compreender” seus algozes?!

No mês passado, o Papa Ratzinger pediu desculpas às vítimas dos padres pedófilos. Seria bonito se não viesse na esteira de um escândalo escancarado e de um princípio de clamor pela renúncia do Papa – acusado, ele próprio, de ter acobertado os crimes em áreas sob sua jurisdição. Desculpas para salvar a própria pele, porém, não têm qualquer valor, moral ou afetivo.

Acontece que pedir desculpas está na moda. De Bill Clinton a Tiger Woods, de Britney Spears à Lindsay Lohan, todo mundo deu de pedir desculpas – e todos, todos, com a mesma insinceridade, com a mesma falta de um arrependimento genuíno, que se possa notar em ações subsequentes. É como se o simples ato de dizer “Desculpe” ajeitasse tudo o que deixou de ser pensado e cuidado antes.

A mais recente figura da lista é o prefeito Eduardo Paes. Se as suas desculpas são sinceras, e ele de fato não soube dimensionar um evento que a cada ano fica maior, falta-lhe competência; se não são, e ele achou que um pedido de desculpas resolveria tudo depois, falta-lhe boa fé.

Em tempo: se magoei alguém da Igreja ou da prefeitura ao escrever isso, peço desculpas. [Cora Rónai]

Um Já Comentou para “Sorry story”

  1. Giulia disse:

    Lindo. lindo. lindo.
    Certinho para o dia de hoje.

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