Sobre bibliotecas fechadas e penitenciárias abertas

24 de abril de 2015

No meu estado, o Rio Grande do Norte, conhecido no Brasil quase apenas naqueles momentos de escândalo fantástico, de propinas e malversação de recursos públicos, isto é, com intervenção direta da mão humana, e no Brasil e no mundo quase tão somente pelos acidentes naturais, isto é, pelas paisagens realmente magníficas que a natureza dadivosa nos presenteou, isto é, sem nenhuma intervenção direta da mão humana nem esforço algum por parte do homem potiguar, têm-se falado muito em Alcaçuz e muito pouco da Biblioteca Câmara Cascudo.

Seria ingênuo acreditar que uma coisa implica diretamente na outra; ou seja, que a falta de livros nas estantes públicas, no recinto fechado e acolhedor das bibliotecas, por princípio sempre abertas ao público, termina na tentativa de se encerrar parte deste público no ambiente hostil das penitenciárias, por princípio e por força fechadas em si mesmas, mas, por inação ou inabilidade da mão humana, ou por corrupção e malversação dos recursos públicos, cada dia mais abertas para a fuga, para o terror.

É uma ideia não propriamente ingênua, mas simplista. Embora não seja inútil fazer aquele exercício de imaginação e pensar que muitos dos que tentamos hoje enclausurar entre os muros sujos de Alcaçuz tiveram suas infâncias negadas aos livros, papel que seria, em parte das bibliotecas públicas, como a Câmara Cascudo, e em parte do sistema educacional.

Esse é um raciocínio falacioso; basta pensarmos que muitos dos que efetivamente deveriam estar encerrados no sistema prisional, em Alcaçuz por exemplo, tiveram acesso livre aos livros, ao menos durante a infância, a adolescência e a juventude, e se hoje, em suas vidas adultas, ignoram as virtudes das páginas escritas, é por opção preferencial pela ignorância e o não saber.

Mas Alcaçuz nunca foi destinada a esse tipo de homem, que acostumamos a ver nos ambientes hígidos da sociedade, na varanda do restaurante da moda (no Rio Grande do Norte não passam de um ou dois), no cafezinho do shopping, na fila do banco, na direção dos jornais (em extinção, como no resto do mundo), nos corredores e nos plenários das câmaras e assembleias, e até estendemos a mão para saudá-lo, com vigor e satisfação, e mesmo com um certo orgulho que sempre traz a proximidade íntima do poder constituído.

Não, que ideia; Alcaçuz é para a patuleia, a plebe, ignara e ignorante, para os pretos de cor e situação, para quem recusamos o aperto de mão e desejamos a morte por justiçamento, e, na sua impossibilidade civilizatória, ao menos o exílio e o caldeirão do inferno eterno.

Do mesmo modo, a Câmara Cascudo não nos faz falta; temos a livraria do shopping, do mall (com dois eles), e o último livro do Piketty (com dois tês) para discutirmos com ardor na varanda de um dos dois restaurantes citados, enquanto nos lamentamos porque as bestas humanas estão fora e não dentro de Alcaçuz, e damos de ombros porque alguns coitados estão fora e não dentro da Biblioteca Câmara Cascudo, e passamos, entre um vinho e outro, a discutir se o Hub em São Gonçalo nos salvará a alma e o bolso.

Noves fora as ironias, igualmente falaciosas, restam dois fatos: a penitenciária de Alcaçuz está aberta, ou, aparentemente, abre-se, sempre que seus presos assim decidem. E a Câmara Cascudo continua fechada, há meses, há anos, há séculos, e isso não parece nem um pouco escandaloso nem nos provoca nenhum terror.

2 Já Comentaram para “Sobre bibliotecas fechadas e penitenciárias abertas”

  1. Priscila Fonseca disse:

    Parabéns pelo texto! Abçs

  2. philippe poncet disse:

    Merci beaucoup pour ce commentaire sur le “scandale”, en effet, de la bibliothèque Câmara Cascudo, fermée depuis…5 ans, six ans?…

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