Arquivos da seção ‘Blog’

Um muro de jasmins perfumado

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Jarbas Martins, meu quase solitário e já lendário comentarista, continua suas memórias improváveis, com sabor de fruta mordida. Quando faz assim, eu retiro seu comentário do campo dos comentários e deposito-o em prateleira mais visível aos olhos mundanos. Por isso, enquanto 2040 não chega, embalado quem sabe ao som de Siboney, copio, colo – e vocês lêem:

*

A noite para mim, antes mesmo de o cronista Antônio Maria lançar sua frase famosa, sempre foi uma criança.

Aí pelos meus dozes anos eu provei essa verdade que tinha um espumante gosto de guaraná. Corria o ano da graça de 1953, e eu – ninguém acredita nisso – tinha doze anos. Vão pensar que o que digo aqui é ficção, mas Mário Ivo já me prometeu que no ano de 2040 publicará essas fragmentadas memórias, com direito a prefácio, notas, links, e sabe-se lá que recursos a tecnologia da época propiciará.

Mas voltemos à inocência e à noite.

Morava numa casa de conjunto, conjugada à direita e à esquerda a outras duas. Na área externa de nossas casas (no final da Avenida Deodoro, ladeira da Rádio Poti), os jardins cresciam, em meio a umas florezinhas chamadas pelo singular e simplório nome de boa-noite. E flores e plantas outras que tinham nomes menos ingênuos: malvão, cróton, girassol… Mas o boa-noite que me fascinava não era o do nome das florezinhas. Nem o boa noite dos nossos vizinhos, tão solenes e tão íntimos.

Foi aí que eu conheci Irani, separada de mim por um perfumado muro de jasmins.

O boa noite que me fascinava era o de um inesquecível jingle, transmitido pelo rádio sintonizado na PR-A 8, Rádio Clube de Pernambuco: uma voz de barítono no jingle ofuscava qualquer cantor de ópera que, porventura, existisse no mundo:

Boa noite, com Guaraná Fratelli Vita…

E o meu sonho de consumo de menino era viajar a Recife, ver os letreiros luminosos que começavam a aparecer na terceira maior cidade brasileira, mais belos que os letreiros que aparecem nos filmes de Sofia Coppola… e tomar um guaraná Fratelli Vita.

[Jarbas Martins]

Cadernos de Caligrafia: Baudelaire

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Charles B, retratado por Etienne Carjat, 1863

Charles Baudelaire 1821-1867. O trecho abaixo foi retirado do seu Pequenos poemas em prosa, póstumo, 1869:

*

Deixa-me aspirar durante muito tempo, muito tempo, o odor de teus cabelos e mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem com sede na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como um lenço perfumado para dispersar as lembranças no ar.

[Charles Baudelaire, Pequenos poemas em prosa, tradução de Gilson Maurity Santos, Rio de Janeiro: Record, 2006]

O sorriso industrial

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ilustração de John Tenniel para o oitavo capítulo The queen's croquet-ground

Vem Jarbas Martins e comenta. Vem sempre Jarbas Martins e comenta. Vem sempre Jarbas Martins e sempre comenta. Vem Jarbas, sempre Martins, e comenta. Sempre. Graças a deus – que não é outro, e não se enganem, senão Jarbas Martins, JM. Quem não conhece Jarbas Martins há de pensar que é uma invenção minha. A essa altura do campeonato, um leão por dia, uma gatinha vezenquando, já nem sei. Mas eu gosto de Jarbas Martins. Nosso diálogo é psicodélico. Mais: psicotristetrópico. Sem ele, este blog aqui andava às moscas, todas engaioladas nas teias de aranha do tempo. A última do Jarbas foi a extensão de uma besteira qualquer que tuitéi em menos de cento e quarenta caracteres, verão da lata versus bolinha de papel. Fez um rondel que, promete, arrancará |suspiros| aplausos de Fernando |Gullar| Gabeira. Isso. E, O sorriso industrial é um belo título. JM poderia escrever um romance.

*

Tem razão, meu caro Mário Ivo, este país não merece a campanha da bolinha de papel. Proponho que esta campanha seja feita através do rondel. Essa forma poética é a própria decadência com elegância. Que o diga o dândi Tristan Corbière, queridinho de Pound e exímio cultor do gênero. Olha, Mário Ivo, estou fazendo campanha contra o Serra, usando os 13 versos do rondel. Eu sou o dândi de Angicos. O meu rondel vai arrancar aplausos até do Fernando Gabeira. Um intelectual serrista e da lata. Abraços.

O SORRISO INDUSTRIAL DA MOTOSSERRA

em memória de Chico Mendes

O sorriso industrial da motosserra

rói o mais leve sonho das esquinas.

Sua manada privada dos sem crinas

patina em uma pátria de ócio que os aterra.

De seu kit letal, soro e vacinas,

de suas unhas vorazes, terra e terra.

O sorriso industrial da motosserra

rói o mais leve sonho das esquinas.

Atento às leis do vento, instrui e serra

e verga à modo de árvore que assassina.

Em estojos de culpas se encerra

e nas lições do ócio mau que ensina.

O sorriso industrial da motosserra.

Jarbas Martins

Vista o livro

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Grande – e simples – sacada da grife (?) Out of Print (salvo engano do Brooklyn, NYC, USA): pegar capas originais de grandes livros da literatura universal e republicá-las em camisetas.

Como são desenhos das edições originais, a maioria fora de catálogo, o resultado é, no mínimo vintage.

Mas o melhor é que por trás do consumo fashion e da ponte alta literatura-moda popular (que poderia originar uma espécie de haute couture pop) a Out of Print abraça as causas sociais, sem a chatice do discurso óbvio: cada camiseta vendida equivale a um livro enviado a uma criança na África, através da parceria com a ong Books for Africa.

Alem disso, os desenhos são usados legalmente, de comum acordo com os artistas, autores e editores. E, como diz a marca:

Alguns são clássicos, alguns são apenas curiosos o suficiente para fazer grandes t-shirts, mas todos são impressionantes obras de arte.

E todas provocando aquele comichão de levar pra casa uma, duas, todas. Enchi minha cestinha com essas aí, acima e abaixo (e O grande Gatsby? E Moby Dick?). Pra ver o catalogo completo, clique aqui.

A natação, segundo Jean Vigo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Rock é rock mesmo

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Pra ensolarar a manhã

sábado, 7 de agosto de 2010

Brigitte Bardot & Saint-Tropez: um idílio

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sensual, livre, provocante, Brigitte Bardot revolucionou a moral e representa a mulher em todo o seu esplendor.

Um substantivo para o título e três adjetivos para descrição inicial de uma exposição inteiramente dedicada a B.B., tentam resumir quem os próprios organizadores definem como “símbolo da feminilidade” e “a atriz mais cobiçada do mundo”, “adulada”, aliás, “por todo o mundo”.

A mostra, aberta de 23 de junho a 31 de outubro, aproveitando o auge do verão europeu e mergulhando ainda nos inícios do outono, promete aos visitantes um passeio pela “vida tumultuada” da atriz criada por deus e amada por um monte de homens, e agora totalmente voltada aos bichos e à direita no esquadro político.

Objetos pessoais, fotografias, músicas, filmes, programas de tevê, entrevistas etc. prometem fazer o visitante “sonhar e ser seduzido”, garante a prefeitura de Saint-Tropez, que promove o evento.

Nem a praia, nem a atriz, claro, são mais as mesmas. Sobre a exposição, um sociólogo francês explicou o porquê do abandono do topless nas areias mais badaladas da França:

O que um dia foi moda hoje é trash.

*

Pra curtir: B. B. na primeira versão do clássico Je t’aime moi non plus, que a atriz, melindrosa, pediu para ser retirada das lojas, para não prejudicar sua imagem.

E a versão mais ouvida, com Jane Birkin, que nem francesa era.

O amor que não ousa dizer seu nome

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

“Pobre Peter Park”, diz a sinopse da próxima revista do Homem-Aranha (nos EUA, ainda no final de outubro), “odiado por todos seus amigos, sua namorada parou de falar com ele e, pra completar, o mundo inteiro despreza o Homem-Aranha”.

O sítio da Marvel não fala, claro, mas nos blogs mundiais ligados à sigla LGBT o assunto é praticamente comemorado – não pelo roteiro, mas pela capa, onde se vê um Spiderman entediado num Central Park, New York City, em festa. No canto direito da capa, dois homens, bigode e barbichinha, se beijam.

Não são os únicos casais: logo à frente dos dois, um casal hetero se beija. À esquerda, um casal interracial, ele, um negão de dois metros, ela, uma gordinha cheia de anéis.

Especialistas dizem que a capa é histórica: pela primeira vez numa revista em quadrinhos de grande circulação aparece um beijo gay.

Homófobos de plantão podem começar a entoar o velho sucesso das Frenéticas: “Mas o que mais me dói, mas o que mais me dói/ Você escolheu errado o seu super-herói.”

Cadernos de Caligrafia: Caldas

domingo, 1 de agosto de 2010

João Lins Caldas é, foi, um desses poucos poetas potyguares com alguma estofa a mais que o comezinho e usual muito barulho por nada. Nasceu em Goianinha, 1o de agosto de 1888, mas passou a infância, a adolescência e a velhice em Açu, onde morreu, meio pobre, meio esquecido, meio frustrado, como sói acontecer.

Aos 24 anos bateu asas na direção do Sul Maravilha, Rio, Sampa, Geraes.

O escritor José Geraldo Vieira transformou João Lins em personagem do romance Território humano.

A descrição, não-ficcional, de Caldas por Vieira:

Trabalhava como revisor de jornais à noite; vivia na Biblioteca Nacional, de tarde; almoçava e jantava sanduíches de mortadela e caldo de cana, na Galeria Cruzeiro; perpetrava vinte a trinta sonetos por dia em abas de carteiras de cigarros, ou beiradas de jornais. [...] Riscou na vida um triângulo cujos lados eram Dante, Shakespeare e Nietzsche; dentro se encravou como um tigre assanhado contra a estupidez e a corrupção humana. Não admitia emprego público; odiava a política; tinha um caráter sem jaça e uma susceptibilidade incrível. Naquele tempo seria classificado sumariamente como louco.

No início da década de 30, o poeta voltou a Açu, onde comprou um sítio – a “Frutilândia” – e se isolou completamente. Em 1958, por iniciativa de Celso da Silveira, veio a Natal, onde e quando foi saudado, festejado, hosanado pela jovem intelectualidade da época – além de Celso, Berilo Wanderley, Myriam Coeli, Newton Navarro, entre outros.

Oito anos depois de morrer, a Fundação Zé Augusto publica uma antologia poética, livrinho fino mas consistente, e que ainda pode ser comprado na “livraria” da Fundação.

A carta não lida é a que segue. Para ser relida:


A CARTA NÃO LIDA

Estou em que não lerás mais nunca a doçura expressiva dessa minha carta.

Perdoa. A doçura expressiva dessa minha carta.

Estou em que não lerás mais nunca.

Mas lerás sem dúvida uma outra carta.

Uma carta sem nunca a tonalidade da minha doçura.

Uma carta sem nunca a tonalidade expressiva dessa minha carta.

João Lins Caldas