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Presentes embaixo da árvore

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Isaías Ribeiro, da série Dunas, 2010

Quando eu era pequeno, bem pequeno, eu não esperava por papai Noel, mamãe Noel, nem mesmo pelo Noel Rosa.

Eu esperava pelos presentes debaixo da cama.

O lance era dormir cedo pra acordar cedo e olhar embaixo, espalhando os lençóis, derrubando os travesseiros, colhendo o presente, tão simples, tão singelo, literalmente único.

Aquele inesquecível?

Um carrinho de Fórmula 1, tipo miniatura, embalado em caixa de acrílico transparente e um tantinho maior que os clássicos Matchbox.

Luxo.

*

Anos depois, já grandinho, lembro dois LPs inesquecíveis, ambos regalos de natal – o Double Fantasy, do casal LennOno, trinta anos atrás, e o Tatto You, dos Stones, um ou dois natais seguintes. Eu poderia falar horas sobre esses discos, mas tenho pressa pra recomendar uma ótima opção de presente para este natal: uma tela de Isaías Ribeiro, disponíveis pra pronta entrega em seu atelier. Pura propaganda do bem. Gosto tanto que uma parte da série Dunas enriqueceu meu único livro publicado, pela Editora Flor do Sal.

Luxo.

*

E entre as muitas faixas dos supracitados, seguem duas.

Aperitivo.

Luxo.

Os vivos, os mortos, os corpos, os porcos

domingo, 5 de dezembro de 2010

Este sítio não costuma copiar & colar matérias alheias, salvo as clássicas exceções à regra. Como no caso da reportagem de Laura Capriglione e Marlene Bergamo, publicada na Folha de Sampa, domingo, 5. Sem precisar explicitar o grito, as 816 palavras do texto seguem, nuas, cruas. O trecho em negrito é por conta do sobrescrito.

*

Onde estão os mortos?

O adolescente Davi Basílio Alves, de 17 anos, morreu na quinta-feira (25/11). Soldado do tráfico -a própria família o admite-, o jovem foi alvejado por policiais e caiu morto em uma rua de terra da Vila Cruzeiro, quando tentava fugir para o Complexo do Alemão. A mãe de Davi mora em uma viela suja, pichada com um imenso C.V. do Comando Vermelho, na parte baixa da favela.
A mulher logo recebeu a notícia de que o filho não conseguiu escapar. Quando o tiroteio amainou, ela correu ladeira acima. Viu Davi morto ao lado de um campinho de futebol e pediu aos soldados vasculhando as quebradas em busca de armas e drogas para que removessem o corpo de lá.
”Eles disseram que tinham mais o que fazer. Que, se ela tinha sido capaz de pôr um bandido no mundo, seria capaz também de enterrá-lo”, rememorou uma vizinha.
A mãe telefonou para a funerária. “Disseram que não dava para fazer o trabalho.” E não dava mesmo. Rajadas de tiros ainda cortavam a favela.
Choveu na noite de quinta. A manhã úmida veio com um calor de 29ºC na sexta. O corpo do adolescente grandalhão começou a incomodar. Rondavam urubus, que se empoleiravam às dezenas na torre de transmissão elétrica, a poucos metros dali.

AOS PORCOS

Das mais de 20 pocilgas localizadas nos terrenos baldios próximos, saíam porcos magros, em estado de fome crônica. No sábado, o cadáver amanheceu dilacerado. A mãe arrumou um carro -a vizinhança já não suportava o cheiro. O corpo foi enrolado em uma lona e conduzido ao Hospital Getúlio Vargas, na Penha.
Oficialmente, o jovem morreu naquele dia. Ficou assim registrado na planilha divulgada pelo Instituto Médico Legal: Davi Basílio Alves, 17 anos, pardo, Vila Cruzeiro. Só.
Para a Polícia Militar, 37 pessoas morreram em confrontos polícia-bandidos desde o dia 21 na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão.
Todo dia, a corporação solta um balanço das operações. Coisa sucinta, contabiliza mortos junto com número de garrafas PET e litros de álcool e gasolina apreendidos. Nenhum nome.
Para a Secretaria de Segurança Pública, morreram 18 pessoas (17 identificadas).
O número refere-se aos cadáveres produzidos a partir do dia 25. Os mortos entre os dias 21 e 24, a secretaria não contabiliza. E diz que nem o Instituto Médico Legal do Rio tem dados referentes aos mortos desse período, apesar de todos os corpos recolhidos nas favelas sinistradas pela violência terem sido encaminhados para lá.

INOCENTES

Coincidentemente, a contabilidade da Secretaria de Segurança Pública, omitindo as estatísticas anteriores ao dia 25, evita mencionar incômodas mortes de inocentes óbvios. Como a da adolescente Rosângela Barbosa Alves, 14, atingida por um tiro nas costas enquanto estudava dentro de casa, na frente do computador. Ou a da dona de casa Janaína Romualdo dos Santos, 43, e de um idoso -todos atingidos por balas perdidas.
Sobre as mortes ocorridas a partir do dia 25, o IML nada informa a respeito das circunstâncias em que elas aconteceram. Diz que os “detalhes sobre os laudos são peças de investigação e não serão divulgados”.
Assim, não se sabe se houve tiros à queima-roupa, ou o número de perfurações nos corpos, ou se houve concentração de disparos na cabeça. Nem sequer se sabe se alguém morreu esfaqueado.

SILÊNCIO

A Folha pediu para entrevistar um perito do IML. Resposta: “Infelizmente, não há perito disponível para conceder entrevista sobre o laudo cadavérico dos corpos”.
”Esse tipo de silêncio seria inadmissível se os mortos fossem moradores ricos de Ipanema, mas, como é gente pobre, vale tudo”, disse uma professora da Vila Cruzeiro.
O segurança Rogério Costa Cavalcante, 34, aparece em uma lista de mortos como um dos “traficantes que trocaram tiros com os policiais”, segundo informação oficial da assessoria de comunicação da Polícia Civil do Rio.
Das poucas coisas que se sabe sobre os mortos nos confrontos dos últimos dias, uma das mais certas é que Rogério Costa Cavalcante não trocou tiros com os policiais. Ele foi alvejado bem na frente das câmeras de fotógrafos e cinegrafistas.
Tinha os bolsos cheios de convites para a festa de aniversário de seu único filho. Iria entregá-los quando deu o azar de ficar entre os fogos da polícia e dos traficantes.
Cavalcante caiu com um buraco na barriga, pediu socorro e desfaleceu na frente das câmeras. A Primeira Página da Folha de sábado passado (27/11) publicou a foto.

SEM AUTORIDADE

O homem foi enterrado no cemitério do Catumbi na terça-feira (30/ 11). Com a polícia acusando-o de ligação com o tráfico, nenhum representante do Estado achou necessário levar solidariedade à família. Da imprensa que se acotovelava no Complexo do Alemão quando Cavalcante foi atingido, só a Folha acompanhou o enterro.
O Ministério Público ainda aguarda a conclusão dos inquéritos sobre as mortes, para entrar na história. Isso pode demorar até 30 dias.
Na última quinta-feira, um grupo de ONGs com atuação na área dos confrontos reuniu-se para “construir uma agenda propositiva para o conjunto de favelas do Alemão”. Pediam investimentos do governo. Sobre os 37 mortos, nenhuma palavra.
[Laura Capriglione e Marlene Bergamo]

Elle Muliarchyk, filme

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Metamorphosis from elle muliarchyk on Vimeo.

Amor à primeira vista

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


Livros são objeto do desejo, e o desejo, vocês sabem, endoidece. Como quem gosta de ler [ama, venera, idolatra] quase sempre tem um pé no fanatismo e outro no consumismo desenfreado, além, claro, os bolsos eternamente vazios, diante de tantos lançamentos, relançamentos, estantes e gôndolas abarrotadas de livrarias, bookshops, shopping etc., faz-se necessário, diria quase imperioso, uma mãozinha do objeto em si – capa, contracapa, dimensões, papel, lombada, livro é algo para se ter nas mãos muito antes de sob os olhos. Daí o papel [sorry], o trabalho, esforço, mágica, sedução, hipnose, do tal designer gráfico, que deve, além de respeitar e inovar a estética, impulsionar as vendas, fisgando o olhar do leitor no meio do mar de similares. Esse sujeito aí, o David Pearsons, que os entendidos do gênero devem conhecer, é, provavelmente, o sonho de qualquer editora. A Penguin Books sabe disso e várias de suas coleções têm o dedo do Pearsons. Nas fotos, alguns volumes da Great Ideas e da Great Loves. E, mais abaixo, outros da Éditions Zulma. Mais, no sítio do rapaz. Dá gosto de ver/ler.

Uma foto [duas fotos]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jean Clemmer, fotógrafo, amigo de Salvador Dalí, Jean Cocteau e outras figurinhas do gênero, andou colaborando com Paco Rabanne ali pelos idos da década de 60. Quarenta anos depois, uma exposição resgata a parceria entre fotógrafo e estilista e, de quebra, o espírito de liberação sexual da época – Canned Candies – The Nudes Of Jean Clemmer, de 26 de novembro a 18 de dezembro. [acima]

A mostra é obra e graça da galeria itinerante Flash Projects, especializada em fotos originais dos anos 50, 60 e 70, no que se refere aos mitos de cada uma das décadas – cinema, música, moda. Por algumas centenas de libras o apreciador pode meter a mão no bolso e levar, por exemplo, o flagrante de um anônimo mostrando Claudia Cardinale no set de Cartouche, filme francês de 1962.

Livro de peso

quarta-feira, 24 de novembro de 2010


O mundo editorial não vai se abalar, claro.

Não é bem o que se chamaria de alta literatura.

A não ser pelas dimensões exageradas, 50×50 cm, o que faz deste The official Ferrari Opus indiscutivelmente um grande livro.

De peso: 37 kg. Duas mil fotos, 852 páginas. O preço, claro, para poucos: 23 mil euros.

Sem dúvida, para poucos: apenas 400 exemplares, para clientes da Ferrari. A graça (no sentido de mimo, exclusividade)? Todos esses 400 volumes são acompanhados de uma lâmina de prata com os autógrafos de todos os pilotos da escuderia italiana ainda vivos.

Segundo um dos envolvidos, “não é um livro, é um concerto, uma ópera triunfante”.

Os pobres podem comprar a versão econômica, pela bagatela de 2.300 euros. Mas os autógrafos são apenas dois: de Fernando Alonso e de Felipe Massa.

Muito além das belas cadeiras

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Em italiano, sedia = cadeira, sedere = bunda

Com licença – estou activia-and-johnnywalkiando para o modo como Jô Soares trata seus entrevistados. Já se tornou recorrente as críticas sobre seu desconhecimento sobre certos assuntos, a má vontade com que trata alguns, a mania de empurrar com o próprio ego a entrevista, que termina virando, não poucas vezes, desculpa para sketches autobiográficos.

‘Xá’pra’lá.

Mas aí Milo Manara vem ao Brasil e é convidado para o programa do Jô. E eu, nem pensei nesses percalços anunciados pela experiência prévia, tão animado fiquei com a oportunidade de ver um dos meus três santos no panteão dos quadrinhos (os outros são Guido Crepax e Hugo Pratt, já mortos). Resultado: péssima entrevista e péssima tradução. Não vou nem comentar o italiano esboçado pelo Soares porque, claro, ele não é obrigado a falar bem nenhuma língua estrangeira – ao contrário do que ele mesmo pensa – e até que enrola razoavelmente, provando que já viajou além da novela Passione. Mas a entrevista. Nossa. O ápice foi achar que Manara desenhava tirinhas de quadrinhos nos jornais.

Então. Chega. Chega desse preâmbulo longo e enfadonho.

*

Meno male, dia desses saiu uma matéria com o italiano no La Repubblica. Contando um monte de coisas que eu gostaria e poderia ter visto no programa da Globo. [Não, não vou traduzir, mas reciclar a matéria, de Michele Smargiassi.]

*

A primeira desse “monte-de-coisas-que-eu-gostaria-e-poderia-ter-visto” é uma surpresa: “Nas longas filas que se formam quando Milo Manara autografa seus livros, quem diria, as meninas são a maioria” – revela o jornal. “E todas querem o desenhinho, e todas dizem: ‘Pareço com as que o senhor desenha, tá vendo?” – revela o entrevistado. Pano rápido, o quadrinista conta que, certa vez em Copenhague, num festival de histórias em quadrinhos, uma menina vestida apenas com um poncho o procura e diz: “Tá vendo? Por baixo estou completamente nua. Me desenha?”

[Glup.]

As mulheres reais querem ser as mulheres hiper-reais de Manara.

Recebo um monte de fotografias, inclusive de pessoas famosas, não vou dizer os nomes. Às vezes são fotos de suas esposas, até um pouco embaraçosas. Querem que as transforme em um desenho meu.

Os homens, claro – os homens babam pelas mulheres de Manara. Seios perfeitos, bocas sensuais, sexo, literalmente, à flor da pele.

Se engana – segunda surpresa – quem acha que o desenho começa por alguns desses atributos: Manara começa a criar suas mulheres a partir do rosto.

É o rosto que faz a diferença. Uma perna, no final das contas, é sempre uma perna.

E, para ser exato, sempre começa a partir do olho. Para ser ainda mais preciso, pelo olho direito.

Não sei por que, mas, se começo do esquerdo, não consigo.

Não usa o computador – “nem mesmo para colorir”. Se considera um artesão. Ainda assim, não reprova o uso da esferográfica.

Qual o problema? As canetas são tratadas injustamente pelos artistas. São mais rápidas que o nanquim, são macias e dóceis.

Manara desenha rapidamente. Acredita que o tempo de produção deve ser proporcional ao tempo de leitura.

Minhas historinhas serão lidas por garotos que as compram na banca de revistas da estação e as devoram em meia hora de trem – devem ter, então, o estilo dessa meia hora.

Isso não impede que seus desenhos sejam detalhistas. Aliás. Fazem a diferença. E, para provar que os detalhes são tão importantes e eróticos quanto o corpo de uma mulher, pega um livro da prateleira, abre, e mostra ao repórter Michele Smargiassi a Vênus de Dresden, de Giorgione.

A Vênus adormecida, também conhecida como Vênus de Dresden (séc. 16)

Você vê uma esplêndida mulher nua, não é? Mas o que realmente importa são as pregas do lençol que se dobram sob o peso do corpo. É isso: nos meus desenhos, se uma mulher está sentada em uma cadeira deve ser um cadeira real, uma cadeira onde você pode sentar-se, a melhor cadeira jamais desenhada. Porque é fácil fazer uma história em quadrinhos pornográfica: basta uma seqüência de corpos nus. Mas o erotismo de verdade está no entorno [da nudez].

E conclui, irônico:

Claro que eu não espero ser lembrado como ‘aquele que desenha belas cadeiras’. Mas se existe um segredo para o meu sucesso, seria esse.

O repórter anota, pertinente: “É curioso como, no final das contas, Manara teve poucos problemas com a censura e até mesmo com as feministas.” Na parede do seu estúdio se vê, emoldurada, uma lista dos livros proibidos na África do Sul à época do apartheid, inclusive alguns seus.

Eram censores, mas não eram burros. Não proibiam histórias eróticas, mas Giuseppe Bergman, que é um hino à viagem e à liberdade.

E as feministas? Nenhum grande problema, quase zero de complicação.

Uma noite, em Siena, enfrentei um coletivo. Terminou bem, elas admitiram que também gostam de erotismo, e que as minhas mulheres não são nada reprimidas.

Nem com a religião Manara parece ter tido grandes problemas: as freiras de Verona já lhe encomendaram um afresco para um convento, e os frades estigmatinos um projeto para um monumento ao fundador São Gaspar Bertoni.

O verdadeiro pecado não é amar o corpo feminino. É fazer dele um atributo de poder.

Quanto à mulher, Luisa, idem: “Não, não tenho ciúmes das mulheres desenhadas por Milo: elas são de papel”, conta, enquanto serve o café e Manara fuma um Havana, para depois, concluir, piscando os olhos para o marido: “Mas é melhor que não se tornem de carne…”

Se devem seduzir o leitor, [as mulheres que desenho] devem antes seduzir-me. Mas não me entenda mal. Quando eu trabalho, eu tenho para com o corpo feminino a mesma atitude de um cirurgião. Até porque desenhar cansa, é uma fadiga física, um trabalho artesanal, e o cansaço não combina com o abandono erótico. Se o desenho funcionará, só vou descobrir no final, quando o olho no espelho, para vê-lo como se não tivesse sido feito por mim.

Smargiassi conta que Manara desenha há 40 anos: “Quando começou, ‘suas mulheres’ tinham a mesma idade. Agora, ele passou dos 65, mas eles ainda permanecem jovens.”

Eu não sei nada dos segredos das mulheres, eu apenas as desenho.

Entre outras curiosidades, enquanto trabalha Manara ouve rock, clássico: Frank Zappa, Emerson Lake and Palmer.

No seu estúdio, “abarrotado de papéis, livros e estátuas de Buda”, não tem telefone.

Não espera nada da tecnologia além de uma conta de e-mail.

Diz que, enquanto desenha, seus “tutores” Hugo Pratt e Federico Fellini estão sempre por perto, “olhando por cima do meu ombro, me criticando”.

Depois de concluir o terceiro volume de Bórgia [lançado no Brasil pela Conrad], está preparando uma versão de América de Kafka. Em seguida, a biografia de uma modelo de Caravaggio, e uma série de desenhos animados escrita pelo cantor e ator italiano Adriano Celentano.

Mujeres, hommes

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Picasso, L'étreinte, 1903

Picasso, Minotauro acariciando uma mulher adormecida, 1933

¿Cómo va un hombre a decir algo relevante sobre las mujeres? Solo las mujeres pueden hablar de las mujeres. De los hombres más vale no hablar.

Assim falou Félix de Azúa em artigo recente sobre uma exposição reunindo Pablo Picasso e Edgar Degas. Barcelona, Espanha. Dois olhares masculinos sobre a feminilidade, cada um a seu modo. Biográfico:

Desde luego, Picasso vivió su vida sexual en términos patriarcales y Degas apenas tuvo vida sexual.

Degas

Degas

Trem das 21h

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não é o trem das 11, mas das 21, hora do começo do show de Khrystal – “impreterivelmente”, como enfatiza Zé Dias, que acumula as funções de produtor, fã incondicional e marido.

Próxima sexta, 12, no TCP, pois. Com ingressos a R$ 20 ou R$ 10 dependendo da carteirada de estudante.

Reservas até as 20h30. Garantam seus lugares entre as 180 poltronas.

*

Vou aproveitar o embalo para alguns serviços de utilidade pública, coisa que faço pouco por aqui:

Iracema Macedo e João Batista de Morais Neto devem lançar novos livros na Feira Literária da Pipa, pelo famigerado Sebo Vermelho.

Abimael Silva, aliás, já está com o novo volume do Sr. Carlos de Souza, codinome de Carlão. O romance, em sua terceira versão, ao que consta, deve ser batizado de Cidade dos Reis, apesar de o sobrescrito já ter acionado seus advogados pra entrar com um processo por plágio assumido e tal. Pelo andar da carruagem, não sai antes do verão 2011.

*

Tinha outras coisas mas eu esqueci.

Ou prefiro não lembrar.

Berlusconi, as mulheres e os gays

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

É melhor ser apaixonado por belas mulheres do que ser gay.

Assim, fora do contexto, a frase do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi – o homem mais rico da Itália – soa mais como uma batuta homofóbica e tão somente.

O buraco é mais embaixo.

A declaração é a cerejinha no bolo de mais uma confusão envolvendo o premiê e as mulheres. No início do ano, uma marroquina foi presa acusada de furto. A polícia ficou surpresa quando o próprio Berlusconi telefonou pedindo sua liberação, alegando que a jovem seria sobrinha do presidente do Egito. Os jornais souberam, publicaram matérias, ouviram a moça, que usava, em solo italiano, o sonoro codinome Ruby Rubacuori. Ou seja, Ruby “Roubacorações”.

E, claro, não era sobrinha coisa nenhuma de Mubarak.

Pois, La Rubacuori alega que, não, não assaltou o coração de Berlusconi. Esteve apenas em uma festinha organizada pelo primeiro-ministro, uma das tantas que costuma realizar, sempre com muitas mulheres – e quando se diz “muitas” não é exagero, aliás. E que na saída recebeu um envelope contendo sete mil euros. Por que? Ah, porque o premiê soube que a moça passava por algumas dificuldades. Pura solidariedade.

O problema é que Ruby, à época, tinha apenas 17 aninhos.

Com a imprensa pegando no seu pé, não restou a Berlusconi se defender, daí a máxima:

É melhor ser apaixonado por belas mulheres do que ser gay.

A desculpa não colou. Até a direita italiana, que caminha sempre de braço dado com Berlusconi, pede a renúncia do ministro.

Sábado à noite, os embalos seguem em Milão, na discoteca Borgo dei Sensi Il Karma, que tem como slogan a frase ambiguamente espiritual “a flor de lótus não conhece as razões do seu flutuar”.

Pois.

Abaixo, a tradução livre de um artigo [publicado aqui] da blogueira italiana Livia Iacolare, ativista dos direitos LGBT, e assumidamente lésbica. Noves fora os personagens e o país envolvidos, a realidade é comum a muitos países ocidentais.

*

As últimas declarações do premiê deixam pouco espaço a interpretações: é melhor olhar belas garotas do que ser gay. Refleti um pouco e, depois de me liberar de qualquer preconceito, entendi que Berlusconi tem razão. Sim, acredito que Berlusconi nunca disse nada tão verdadeiro em toda a sua vida pública. Admirar as belas formas de uma mulher na flor da sua juventude é infinitamente melhor do que ser homossexual. Vocês sabem o que é ser homossexual na Itália? Direitos civis zero, discriminação no trabalho, bullying, violência… Respondam objetivamente a pergunta: vocês têm certeza que, podendo escolher, preferem mesmo ser homossexuais neste país? É conveniente? O nosso presidente sabe muito bem o que diz quando fala e o que emerge do seu discurso é um sensação de alivio. “Ainda bem!”, pensa, “ainda bem que não nasci gay neste país de merda!”. Na Itália é muito mais invejado quem – com 80 anos e lá vai fumaça – pode admirar e desejar a beleza de dois jovens seios e contar vantagens sobre o caso. Muito mais feliz quem pode comprar uma mulher e uma casa com dois tostões. Infinitamente mais sortudo quem sabe que jamais será punido por suas culpas. “Melhor ser Berlusconi”; é essa a mensagem subliminar. [Livia Iacolare]