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Carta ao pai

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Foto de Giovanni Sérgio, príncipe dos fotógrafos potyguares

Ah, mas o sol já tinha deitado quando adentrei o avarandado do Yacht Club de Natal que, suponho e o sei, se escreve de outro modo e grafia, mas insisto, a isso chama-se, batiza-se, cala-se, ironia, tal, qual, mal, quando Laélio Ferreira de Melo, escondido entre uma garrafa de cerveja e chapéu panamá, enuncia meu nome qual trombeta do apocalipse e, vos digo, em verdade, repito, sol posto, sol morto, melhor assim, sem testemunhas senão as sombras e as derradeiras damas que vagueiam lá e cá e o Putigy apodrece em silêncio e ausência de lua, luar, serenata. A conversa não vai nem vem que isso é coisa para barquinhos ancorados – a nossa flui, maré secante, rumos do horizonte, alto-mar. Fala-se, claro, do pai, Othoniel Menezes, príncipe dos poetas potyguares, tempo em que poesia era coisa de realeza e não esse rés-do-chão enlameado de hoje-dia. Tempo em que Esmeraldo Siqueira, cutelo guardado no peito, debaixo do sovaco, abre espaço entre os milicos e abraça Othoniel, preso no Recife e desembarcado do trem da tarde e põem-se a falar na língua de Victor Hugo e Baudelaire para espanto da choldra que nada entende e hoje mais que nunca ignora. Nem olhamos os yachts ancorados e eu preferi ignorar as cordas do violão ao longe, perto. Polêmico por (de rerum) natura, não há que se concordar com tudo que Laélio pensa e fala (eu, por exemplo, concordo apenas uns 50% do que eu mesmo penso e falo), mas não deixa de ser uma dissonância necessária no curral das ovelhinhas. Daí, pois, que já me alongo, segue carta do pai ao filho, digo, do filho ao pai, que paternidade é via de mão-dupla, sem preferências – parte do livro próximo a ser lançado, última luz sobre a obra de O Príncipe:

CARTA PARA OTHONIEL NO AZUL, por Laélio

Meu caro amigo eu não pretendo provocar/
Nem atiçar suas saudades/
Mas acontece que não posso me furtar/
A lhe contar as novidades [...] Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (Meu Caro Amigo, de Chico Buarque de Holanda)

“Seu” Othoniel, me abençoe.

Aqui está a sua “Obra Reunida”.

Compromisso cumprido, comigo mesmo.

Fiz o que pude, meu velho. Foram madrugadas sofridas, adiamentos, angústias, muita saudade. Relendo tudo o que escreveu, revisando e redigindo as notas – vão me chamar de prolixo, aposto! –, avivavam-se na cachola setentona as lembranças de tudo quanto sofreu: as perseguições que lhe fizeram; a sua pobreza digna, altiva e ao mesmo tempo resignada; a doença, o auto-exílio, a saudade de Natal, a perda de Maria.

Nas notas que redigi, as amargas, sobre indivíduos, pessoas, segui conselho do velho Balzac (“Pode perdoar-se, mas esquecer, isso é impossível”). Aos que lhe fizeram mal, perdoei  alguns, poucos. Dos outros, não esqueci nenhum: os nominei e sobre eles fiz registro merecido.

Há poucos dias, completei setenta  e uma safras de caju, aqui mesmo, na ocara grande do mestre-de-campo Felipe Camarão. Há quarenta, logo depois de Mamãe, o senhor, saudoso da terra, exilado e esquecido no Rio de Janeiro, partiu para o Azul.

Diz o povo – aqui, neste planeta amalucado – que a vida é frágil, que passa. Ficaram, porém, para mim, intangíveis, as suas obras, as lembranças, as saudades – repito. Permanecem, como impressões que o tempo atenua, mas não apaga. A eternidade tem a duração da memória de quem nos ama. Passamos pela vida dos outros deixando nossa imagem numa frase, num verso, no rosto de um descendente.

E quanto lhe tenho vislumbrado por cá, meu velho! Nos meus filhos, nuanças das coisas que eram tão suas: sorrisos desconfiados, recolhimentos, alegrias. Neles, vejo, sempre comovido, tudo isso e até mais nos gestos, modos de andar, alguns tiques, nas vozes, nos olhos deles todos – filhos e netos. Noto-me, ainda, muito parecido com o senhor, “incompreendido e incompreendendo” quanta coisa deste mundão cá de baixo, com a mesmíssima larga aversão à mediocridade provinciana.  Já houve quem nos chamasse, aos dois, pai e filho, de “irritadiços”. Valeria, pois, para ambos, aquele contundente e velho conselho sertanejo de que “não se pode discutir com um burro sem ter um pedaço de pau na mão?”

Vosmecê, meu pai, bem sabe que deixei os versos comportados muito cedo por muitas razões, limitando-me, nas horas vagas, às glosas sacanas, fesceninas, quase sempre de crítica e desabafo, metendo a catana numa pá de gente – às vezes, até, me arrependendo por algumas grosserias: a velha história de “não perder o mote”.

Poesia e cultura – “agricultura insana da cabeça” – nunca rimaram com felicidade material,  fortuna. O senhor mesmo dizia a Esmeraldo Siqueira, naquelas cavaqueiras das “hemiplégicas poltronas” lá de casa, que o único poeta que tinha dado certo, naquela sua época, era o Augusto Frederico Schmidt – milionário amigo e ghost-writer de Juscelino, embaixador e dono de supermercados.

Fui à vida, à liça, muito cedo, sem nunca sonhar em vir a ser um daqueles “intelectuais conterrâneos” que por cá saltitam e pululam. Fui, sim, catar o pão de cada dia em atividade profissional sem nenhuma poesia, Brasil afora, vasculhando – a bem da verdade, com pouquíssimo sucesso na hora dos julgamentos  pelas cortes – o lixo da corrupção fantástica de muitos comedores de verbas federais, lestos e mitrados rabos-de-couro, políticos viciados ou afilhados desta brava e malina gente.

Até hoje, nessa banda escura, nada mudou no Pindorama. Acho eu que a coisa só fez piorar, desde os tempos da carta de Caminha. Aqui, na nossa não muito gentil Jerimunlândia – canguleiro eu, xaria o senhor –, há poucos dias, um estentóreo historiador nativo, freguês juramentado de caderneta do Instituto Histórico, deu-me, solene, de pé e com vasto calhamaço agasalhado no sovaco, mesta e acachapante notícia sobre uma grossa estripulia do João Rodrigues Colaço, Capitão-Mor da Fortaleza e, dizem alguns, fundador da Cidade. Pois não é que o nosso contraparente, marido empistolado da fidalga e distante “prima”, Dona Beatriz de Menezes, está sendo acusado – veja só, o Senhor,  pode rir! –, séculos depois da tal tribuzana, de “doar a si próprio uma sesmaria na Redinha”? O que mal começa, segue mal a vida toda. “A gente vai vivendo e esperando que alguma coisa divina aconteça…” (Borges).

Linda e pobre terra, a nossa “iara morena, pulando na água serena do Potengi, a cantar”…

Muita água no velho rio desceu, o tempo rodou e, vamos e venhamos, Othoniel Menezes – o parnasiano, o modernista,  o jornalista, o ensaísta, o prosador, o etnógrafo, o folclorista, o humanista, o crítico –, hoje,  salvo para poucas pessoas, é apenas mais um nome de rua na Limpa dos Santos Reis. E apelido de prêmio de poesia da Prefeitura de Natal, só isso. Seus livros publicados foram poucos e, agora, são muito raros. O rio da sua canção, lá bem perto da ruazinha modesta, está poluído pela imundícia dos esgotos; o prêmio, temporariamente cassado pela pequenez cerebral da atual administração, entregue às baratas e borboletas viageiras.

Seu nome, Papai, sob outro ângulo, é sempre lembrado pelo povo, ricos e pobres, quando se canta a “Praieira”. Essa minha “irmã mais velha” que, aos oitenta e oito anos, permanece formosa, vetusta senhora, hino da terra, bela canção – “feita às pressas para homenagear humildes pescadores”. Continuou,  a modinha – sua e de Eduardo Medeiros –, fiel à premonitória nota de pé de página, de 1923, no “Jardim Tropical”, vaticinando a tal “ilusão efêmera da popularidade”.

Guimarães Rosa dizia: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. Pois é, Papai, quem desconfia agora sou eu, “a coisa aqui tá preta”, como diz aí por cima, na epígrafe, o filho de Sérgio Buarque de Holanda, aquele jovem que, na televisão, nos tempos da ditadura – aquela, infelizmente, que o senhor não lhe viu o fim – cantava “Pedro Pedreiro” e o chorão da “Praieira” chorava baixinho, fazendo chorar sua Maria, os dois na salinha modesta do apartamento do Catumbi.

Aqui, há muitas exceções, honrosas, decentes, mas a coisa, no geral,  neste piccolo mondo, “tá preta” mesmo no ensino (de todos os graus), nas academias – inclusive na de Letras, aquela que o senhor nunca foi lá tomar posse –, na política e no bestunto da maioria dos “intelectuais conterrâneos” – estes últimos produzindo mais do que sabiá no fundo da gaiola. O senhor, “Seu” Othoniel, não calcula quantos “poetas”, quantos “cordelistas de bancada” (uma invenção recente!), quantos “escritores”, quantos “tradutores” (os de Baudelaire, uspeanos cavilosos, são uma graça!), grosas de “jornalistas”, dúzias de “críticos literários”, centenas de “mestres” e “doutores” e até “filósofos metafísicos” expertos em “ciências mortas e línguas ocultas” (arre égua!) sobrenadam – todos! –  engalfinhados, esfalfados, sem fôlego, em petição de miséria, sapecando caldo e danando cangapé uns nos outros, no “Poço do Dentão” da Praia do Meio…

Para lá de atuais, perfeitos para a época – quadra gaiata por que passa o nosso torrão de canguleiros e xarias –, ajustam-se, como se luvas fossem, os sonetos do seu “Desenho Animado”. A colorida fauna, ali tão bem posta, permanece a mesma e quiçá muito pior. Os perus dos silogeus, por exemplo, continuam a rondar nos terreiros, sapientíssimos sandeus, os papos inflados a arrebentar de vento, fabricando, todo santo dia, gás do milho do alfabeto. Esmeraldo Siqueira, do seu tempo e que viveu mais tempo, seu amigo, verrumava mais direto:

Os asnos são divertidos,
Asnos bípedes, é claro,
Todos se julgam sabidos,
Dotados de senso raro.

Darcy Ribeiro dizia:

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou-me resignar nunca.

O mundo e o País mudaram. Manda no Brasil, hoje, um partido criado por trabalhadores, que degringolou para a corrupção grossa, agradando aos pobres – e muito mais aos ricos –, “distribuindo riqueza” com projetos que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

No Brasil, os bancos nunca lucraram tanto quanto lucram agora. O país do seu querido Roosevelt, hoje – quem diria! –, é governado por um negro bem intencionado e competente. Por cá, a economia melhorou, afinal o país é rico. A droga vem acabando com a mocidade, a liamba e a cocaína correm frouxas,  inclusive entre muitos dos tais “intelectuais conterrâneos” papa-jerimuns. A violência campeia, em todos os níveis. Mulher anda casando com mulher, homem casando com homem. Os rios estão morrendo – o Armagedon se anuncia nas guerras e nas catástrofes, na fome, nas epidemias. E o Brasil, meu velho, perdeu a Copa do Mundo!

Novidade grande é uma tal de Internet e um certo “Professor Google”. Ferramentas para o bem e para o mal, facas de dois gumes. O “professor” é um gênio ao quadrado. Equivale, o mestre – só para o senhor calcular, por baixo –, a umas cem mil miscelâneas daquelas de João Babão[1], nos velhos tempos. Os sabichões daqui e de alhures deitam e rolam na maionese: copiam o que lhes interessa e sapecam em baixo e jamegão lustroso, na maior cara de pau, ganhando fama e prestígio entre os bestas.

No planeta poluído, os bons e justos ainda não descobriram aquela – “simples, fecunda, bíblica, feraz” – sementezinha de mostarda da paz de que o senhor fala nos versos da “Canção da Montanha”…

Bem disse – e disse bonito! – o poeta lusitano José Saramago:

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

Um beijo no senhor, aí, na dimensão Azul. Dê outro, muito saudoso também, em Maria de Othoniel.

Seu fim-de-rama,

Lelinho

Praça Pedro Velho, Natal, julho de 2010

[1] “João Babão” – Funcionário do Estado, boêmio, inteligentíssimo, famoso no meio literário de Natal nas primeiras décadas do século passado. Dizia possuir – sem a menor chance de empréstimo a quem quer que fosse – “a melhor e maior miscelânea de todo o Estado”. Nunca ninguém viu o volumoso calhamaço. João, hoje, em Natal, seria, no mínimo, apodado de “peripatético”. O Dicionário Aurélio registra: miscelânea [Do lat. miscellanea.] Substantivo feminino. 1. Mistura de variadas compilações literárias. 2. Volume que se compõe de coleção de estudos afins, escritos por vários autores para homenagear uma pessoa ou instituição em data significativa; polianteia, miscelânea de homenagem, volume de homenagem. 3. Fig. Mistura de coisas diversas. [V. mixórdia (1).] 4. Fig. Confusão, amontoamento, salgalhada.

Tauromaquia: Michel Leiris | Georges Bataille

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Livrinho desses, abrigados sob o guarda-chuva do cult, Espelho da tauromaquia é um apanhado de reflexões estéticas costuradas pela poética de Michel Leiris, francês, amigo de Bataille e Picasso, surrealista, etnólogo, tal. Me veio em mente quando da notícia sobre o fim das touradas na Catalunha (de onde vinha certa espanhola sedutora, que desejava de um brasileiro as artes exóticas de tocar castanhola e apanhar o touro à unha, coisa aliás, nunca vista, senão na rima burlesca de carnaval tropical).

A propósito, me perguntaram se sou favorável às touradas porque tuitei [sic] comunicado do matador El Fandi sobre o causo [aqui]. Claro que as perguntas vieram sob o signo do espanto (umas) e da indignação (outras), às vezes os dois, acrescidos de reprovação explícita.

Ser a favor dos touros, e contra os toureiros, me parece o caminho mais fácil e óbvio. Ninguém, em sã consciência, deseja a tortura e o sacrifício de um animal. Embora, quase nunca, os carnívoros lembrem como vacas e outros bichos comestíveis são abatidos, especialmente quando diante de uma picanha na brasa, uma paçoca de pilão, um big mac.

Enfim, aquele papo do Torquato:

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.

Pois, eu também poderia ser radical e afirmar: só considero quem é contra as touradas se for vegetariano.

Fim.

Ainda não: nos anos primaveris da minha longa e velha existência, eu morava em Madrid – e infelizmente não conheci nenhuma espanhola da Catalunha. Também nunca assisti a uma tourada ao vivo, senão pela tevê, como quem assiste a uma partida de futebol. O fato é que tudo, a tourada, me pareceu uma grande sacanagem com o touro: antes de el matador enfiar a espada nas fuças do bicho, este já está muito do lascado, com outras facas, ou arpões, ou cutelos, ou qualquer troço pontiagudo e penetrante, enfiados no lombo.

Então, sou contra as touradas?

Sim. Não.

É triste e desumano levar um touro para uma arena, sob os olhos de uma massa animada pelo sangue por vir. Do touro ou do toureiro. De ambos. É um tanto covarde competir com alguém que vai morrer.

Então, sou contra as touradas.

Sim. Ainda não.

Se eu fosse espanhol, me sentiria mais à vontade para questionar minha própria cultura. Secular, ancestral. E sedutora. As touradas têm um apelo imagético inquestionável. São civilização e barbárie no mesmo espaço, arena. Assistam Matador, de Almodóvar, sexo e Tânatos, sexo e tauromaquia. Leiam a História do olho, de Bataille, e tentem suprimir os dois capítulos que fazem referência a touradas. História do olho é de 1928. Espelho da tauromaquia é de 1938. Matador é de 1986, o que, por outro lado, prova como estamos ficando burros.

Bataille:

Aliás, é preciso dizer que, quando o temível animal passa e torna a passar pela capa, sem descanso e sem trégua, a um dedo do corpo do toureiro, experimenta-se um sentimento de projeção total e repetida, característico do jogo físico do amor. A proximidade da morte é sentida da mesma forma. Essa multidão de passes felizes é rara e desencadeia na multidão um verdadeiro delírio; tamanha é a tensão dos músculos das pernas e do baixo-ventre que, nesses momentos patéticos, as mulheres gozam.

Leiris:

Provocado pelo brilho do pano, o animal investe; deslocando-se o menos possível, o homem esquiva-se do ataque, e os chifres, ao invés de atingirem um alvo de carne, não encontram mais que o chamariz da capa. Para que o passe seja perfeito, é preciso, entre outras condições, que ele seja “fechado” (que o chifre se aproxime do homem a ponto de quase o roçar) e que o touro passe por inteiro (que toda sua massa, da cabeça ao rabo, passe à frente do homem antes que esse retome a posição para receber nova carga).

*

Enfim, meus infantes, touradas são como Cuba sob embargo: a princípio somos contra, mas como imaginar um mundo sem a beleza dos passes do toureiro e sem aqueles automóveis americanos circulando pelos quase escombros decadentes de Havana, como se ontem fosse hoje, ainda hoje?

*

Bonus track: Leiris sublinhado:

Noutros séculos e noutras culturas, observam-se ritos, jogos, festas que servem de natural exutório aos impulsos da afetividade e graças aos quais os homens podem imaginar, ao menos por algum tempo, que assinaram um pacto com o mundo e reencontraram a si mesmos.

[...]

Basta entretanto ouvir o olé! – ampliando-se em rumor visceral – de uma multidão espanhola para se persuadir de que, em cada corrida, reina uma gravidade da qual nenhuma outra tentativa ousada de enganar a morte poderia fornecer equivalente, por grandiosa que seja em si mesma e nos detalhes de sua execução. [...] todas as ações executadas são preparativos técnicos ou cerimoniais para a morte pública do herói, que não é outro senão esse semideus bestial, o touro.

[...] a tauromaquia [...] é algo mais que um esporte, em vista desse caráter trágico que lhe é inerente – duplamente trágico, pois que há sacrifício, e sacrifício com risco imediato para a vida do oficiante.

[...]

De um modo ou de outro, o matador desempenha o papel de uma espécie de Ícaro ou de Don Juan, a quem tão-somente a força excepcional – ou a astúcia – permite escapar à aniquilação final.

[...]

Conclusão de toda essa parada amorosa com uma espécie de penetração, a estocada final (na qual é desejável que, segundo a expressão consagrada, a espada seja enterrada na ferida “até que se molhem os dedos”).

[...]

Pitada de veneno sem a qual nenhum álcool seria concebível, pois a ebriedade – por eufórica que seja – não pode jamais ser algo além de uma imagem mais ou menos aproximada de nossa comunhão futura com o mundo da morte.

Michel Leiris: Espelho da tauromaquia. Tradução: Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.

*

Bonus track: El Fandi:



Uma bunda particularmente bela

terça-feira, 27 de julho de 2010

Educativa, instrutiva, tal, sem a internet eu provavelmente não saberia da existência da signorina Belén Rodríguez e seus inumeráveis escândalos.

Belén Rodríguez faz furor nos EUA – diz um jornal.

Belén Rodríguez de maiô, de biquíni, sem a parte de baixo do biquíni, com a pontinha da luva encarnada na boca sorridente, saindo do mar e segurando os melõezinhos (ops, os seios), nua em pêlo, ufa etc. – exibe 1.001 fotos um portal de fofocas.

Belén Rodríguez transa com o namorado fora do chalé nas Malvinas – relata outro blog, ilustrando mais uma série de flagrantes de um paparazzi que alcançou com maestria diversos ângulos do, digamos, conluio amoroso.

Belén Rodríguez festeja seu aniversário usando um vestido transparente – comenta mais um, que chega a perguntar, mas ela poderia ter escolhido um look menos discreto? E, resposta rápida, claro que não!!!

Enfim, tem Belén Rodríguez pra todos os gostos e tamanhos na rede mundial de punhe… digo… computadores.

A última da moça, argentina de origem italiana, modelo, apresentadora de tevê, showgirl e, claro, namorada de famosos, é que ela corre o risco de não ir ao Festival de San Remo, onde é – era, aliás – forte concorrente.

Por quê?

Porque o prefeito da cidade italiana, balneário entre o kitsch e o espalhafatoso, soube que a menina andou cafungando umas carreirinhas de pó:

Não aceito associar a minha cidade com quem não tem uma moralidade indubitável.

Ano passado, um cantor italiano foi recusado pelo festival por ter admitido o uso de estupefacientes, inda que, segundo ele, por motivos “terapêuticos”.

O prefeito não contou conversa, ao comparar os dois casos:

Não vou mudar de idéia só porque tem uma bunda particularmente bela, especialmente quando comparada com os cabelos estranhos daquele cantor.

Já eu, recuso-me a tecer e, ou desfiar quaisquer comentários. Bundas merecem respeito.

Amigo

terça-feira, 20 de julho de 2010


Pra não dizer que não falei das flores, republico aqui email da Fragmentos para o dia do amigo. Muito simpático e verdadeiro à causa, com um monte de palavras sinceras e reais, tipo parceiro – fiel -braço direito – amigo de fé – irmão camarada – confidente – chopp no fim de semana etc. etc. e tal.

Deprê

sábado, 10 de julho de 2010

Melencolia I, 1514, Albrecht Durer

Vezenquando é bom chafurdar de twitter em twitter, como quem vai fazendo um caminho próprio de pedra em pedra. Escolher ao acaso, ou pelo que diz e não diz o avatar e, ou, o nome. Foi assim que descobri o @caodadepressao, que a princípio pensei ser o caô da depressão, mas, claro, é o cão, mesmo. Copio e colo abaixo uma rápida seleção das mais ou menos recentes tuitadas do perro, aula de síntese e sinais dos tempos internos de cada um – canta a tua aldeia interior e serás universal:

Você tem cerveja na geladeira. Nova Schin

Sua amada. Nem sabe que você existe.

Seus amigos estão se divertindo. Você não.

Você tem programa pra sexta feira. Retweetar o @caodadepressao.

Indicaram você no follow friday. Ninguém te seguiu.

Seu amigo lembrou de você. Dinheiro emprestado.

Chegou mensagem. “Seus créditos acabaram”.

Ofenda alguém pela internet. Faça virtualmente o que você não tem coragem de fazer pessoalmente.

Está um lindo dia de sol lá fora. Agora volte ao trabalho.

Você o considera como amigo. Ele te considera um babaca

Um belo dia. Para o fracasso.

Dê conselhos para as pessoas. Finja que tem experiência em relacionamentos.

Você o ama. Ele te trata como objeto.

Você ri do @caodadepressao. Mas no fundo sabe que é tudo verdade.

Você sofre por ela. Ela transa com outro.

Você torce na Copa do Mundo. Mas não é o seu time.

Tenho duas notícias pra você. Uma péssima e outra horrível.

Boa tarde. Todos sabem que você não terá uma.

Vamos dormir. Fingir que está tudo bem.

Insônia. É sempre assim.

Você idolatra suas amigas. Não tem personalidade.

A vida sorriu pra você. Ela é banguela.

Perca tempo na internet. Ninguém sente sua falta no mundo real.

Dignidade. Você já perdeu a sua.

Sua opinião. Nunca é levada em conta.

Copa do Mundo. Você não tem para quem torcer.

Abrace o travesseiro. Lembre-se dela.

Hoje você tem companhia. A solidão.

Seja traída. Publique no Youtube para que todos saibam: http://migre.me/UBKo

Ele te despreza. Foi sempre assim

Ela está online. Falando com outro.

Dias difíceis. Dias normais.

Sua sexta feira. Tão boa quanto Felipe Melo.

Fique em casa no final de semana. Observe ninguém perceber.

Você tem programa para essa noite. Globo Repórter.

Seus amigos. São os atuais ficantes da sua ex.

Sua melhor amiga. Está transando com seu ex.

Seu final de semana será um fracasso. Igual a seleção brasileira.

Dunga é um perdedor. Lembra você.

Copa do Mundo. Você não tem pra quem torcer.

Hoje é dia de festa. Na Holanda.

Twitter baleou. Sua seleção também.

Brasil fracassou. Como você.

Copa do Mundo. Sua seleção está fora.

Encare novos desafios. Tenha novos fracassos.

Ela está offline. Você está bloqueado.

Diga que está feliz. Mentir não custa nada.

Você teve pesadelos. Sua vida é pior.

Uma mulher te cantou. Travesti.

Inverno longo. Não tanto quanto sua solidão.

Conte uma piada. Ninguém retweeta.

Seu amor verdadeiro. É falso.

Noite agradável. Para suicídio.

Solidão. Pelo menos ninguém te machuca.

Você trabalha muito. Ninguém reconhece.

Cadernos de caligrafia: Chandler

sábado, 3 de julho de 2010

No dia em que o Brasil perdeu a copa de 2010 (ou seria 2014?) eu me arrisquei a aventurar-me no maior shopping da City, driblando a chuva e o trânsito e assistindo da janela o ar mal-humorado dos garçons dos bares – mais, desconfio, por um senso real de patriotismo do que pelo menor número de clientes sedentos. Tudo que eu tinha a fazer era comprar um livro pra minha pequena – o primeiro volume de Querido diário, otário, uma série de um tal Jim Benton. Mas, Querido diário, otário, é melhor fingir que isso nunca aconteceu estava em falta nas prateleiras. Assim, ela escolheu o #2, Querido diário, otário, tem um fantasma na minha calça! Ela leu um bom número de páginas e soltou igual quantidade de risadas enquanto mastigávamos qualcosa no café – eu, um brownie quente com sorvete, ela, a famigerada torta alemã. Por mim, eu precisava de algo semelhante. Falo de livros, porque o brownie quente com sorvete já estava de bom tamanho. Estava decidido a levar o Coetzee de Verão, porque Coetzee é um dos autores que ainda rendem um certo prazer na leitura de romances, outrora um vício, e perdido nos últimos anos, ou obnubilado por leituras mais cadentes ou tendentes à realidade do que pra ficção fantasiosa. Mas aí, aí, aí, nesse flanar inconstante entre prateleiras e gôndolas do supermercado, digo, livraria, rumo da bilheteria, digo, do caixa, vi apontar o nome mágico de Chandler, Raymond. Assassino na chuva, o título. L&PM, 2006, tradução de Beatriz Viégas-Faria. Eu adoro Chandler, talvez mais do que Hammett, com certeza mais do que Hammett, com certeza muito mais do que Hammett. O motivo não carece de explicações. Mas basta abrir uma primeira página ao acaso pra entender. Eu fazia isso com o I Ching, quando tinha preguiça de jogar as varetas ou as moedas. Saía sempre algo como “fogo sobre a montanha, a imagem do Penetrante” ou “o poder de domar do grande” ou qualquer outra metáfora poética e fantástica. É claro que eu não esperava nenhum poder oracular de Chandler – mas o fato é que dei de cara com a página 183, onde o personagem, sempre um detetive particular fodido e sem trabalho, elucubra sobre um cartão de visitas que lhe caiu em mãos. O cartão, descreve o americano, era “muito fino, cor marfim, masculino no tamanho” e mostrava apenas duas palavras gravadas:

Soukesian (Vidente)

O que RC faz das duas palavras é um resumo, síntese ou diapasão da sua capacidade de escrever:

Eu tinha uma vaga idéia de qual devia ser o negócio dele e que tipo de gente compunha sua clientela. E, quanto maior o negócio, menos ele iria anunciar. Se você desse a ele bastante tempo e bastante dinheiro, ele podia curar tudo, desde um marido cansado até uma praga de gafanhotos. Devia ser um perito em mulheres frustradas, em casos amorosos complicados e espinhosos, em rapazes que saíam de casa e não mandavam notícias, em saber se uma perspectiva ou outra vai prejudicar a minha imagem junto ao meu público ou melhorar. Até homens provavelmente se consultavam com ele: sujeitos que gritavam ordens como búfalos furiosos no escritório e assim mesmo não passavam de mingau morno e insosso por dentro. Mas a maioria seria de mulheres: mulheres com dinheiro, mulheres com jóias, mulheres que poderiam ficar macias como seda ao toque de uma elegante mão asiática, mulheres que ficariam cegamente obedientes a um Soukesian, o vidente.

Quem é eu?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O nome da banda é Eu, Edu e os Caras. Ninguém sabe quem é o Eu. Edu é Edu Gomez. Os caras são CBI, Moisés, Samir. Talvez um deles seja o Eu. E os Caras, os outros. Os outros Eus, final das contas. Talvez não. Rola um conflito de identidade, aqui. Uma confusão. Redemoinho. Todo mundo é Eu, Eu sou os Outros. Etc. etc. Questão de Ego. Ego sum qui sum – foi a resposta do deus cristão a Moisés, que, sabe-se lá por que, falava latim. Eu sou o que sou. Em verdade, em verdade, Moisés (o do antigo testamento, não o baixista, esclareça-se) estava falando com uma sarça ardente no meio do deserto. Sarça ardente, esclareça-se também, não é nome de banda de metal ou de forró escroto tipo Garota Safada e tal. Sarça é o modo poético de chamar espinheiro, arbusto, mato. Pois. A tal da sarça estava pegando fogo mas não queimava. Tipo assim: vou apertar mas não vou acender agora. Noves fora, cabeça feita ou não, Moisés achou que o pé de mato falava. E mandava recado. Aos filhos de Israel (nada a ver com banda de reggae), que comiam o pão que o egípcio amassou, no Egito, pois. Que nem os palestinos na faixa de Gaza. Ontem, hoje, sempre. Daí perguntou:

Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?

Deus não contou conversa:

EU SOU O QUE SOU. Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

Então, se liguem: que importa saber quem porra é o Eu de Eu, Edu e os Caras? Todos eles mandam ver. Rock. Nada de reggae nem eletrônico nem dance music nem baião. E poucos sucessos (leia-se, sem muita concessão aos pruridos da moda). Algumas músicas você sabe que já escutou mas não sabe onde nem quem.

Eu podia até perguntar pros caras e tirar todas essas dúvidas.

Eu? Eu não. Eu, Edu e os Caras.

Pós-bloomsday: William Burroughs

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dois monstros: Francis Bacon e William Burroughs, retratados por John Minihan

Lá se vai mais um dia de Bloom, Leopoldo, como naquela fábula da menina tatibitate – “lá se vai a quartinha de mamãe”. Em verdade, em verdade, eram quatro irmãs que, pelo dificuldade da fala, encontravam dificuldade maior: encontrar um marido. Na expectativa da visita de mais um pretendente, a mãe ameaçou:

-       Fiquem caladinhas, senão não casam.

Mas o jovem mancebo (acho que era jovem e mancebo, que o lance aqui é fábula e não livro de Joyce) chegou com sede e, claro, pediu água.

A mais velha foi buscar a quartinha e, de tão aperreada, deixou escorregar.

-       Lá si quêbou a tatinha de mamãe – não se conteve.

-       Que si quêbou, que si quêbásse – emendou a segunda.

-       Mamãe nun dissi que a genti nun fáiásse? – repreendeu a terceira

-       Eu cumu nun faiêi, cazaêi! – festejou a quarta, que, claro, deve ter ficado pra titia-avó como as outras três.

Copiei o modo de falar das tartamudas que nem Cascudo anotou em seu Contos tradicionais do Brasil – esse eu li, o Ulysses, não. Noves fora a intervenção esdrúxula (nem tanto, reparem: o diálogo é um Joyce sotto ácido ou chá de zabumba) , sempre cabe mais uma: não sei de onde nem por qual associação ilógica, me lembrei de um velho disco do Material, banda de Bill Laswell, todo em cima de The western lands, do velho beat William Seward Burroughs. O vídeo não vale nada – ouçam apenas a voz inconfundível do poeta americano que conseguiu, apesar de todas as drogas, morrer aos 80 e qualquer coisa. Coisa pra quem tinha mais de sete vidas. Ou almas. E nenhum Burroughs’s Day.

Seven Souls

by William S. Burroughs

The ancient Egyptians postulated seven souls.

Top soul, and the first to leave at the moment of death, is Ren, the Secret Name. This corresponds to my Director. He directs the film of your life from conception to death. The Secret Name is the title of your film. When you die, that’s where Ren came in.

Second soul, and second one off the sinking ship, is Sekem: Energy, Power, Light. The Director gives the orders, Sekem presses the right buttons.

Number three is Khu, the Guardian Angel. He, she, or it is third man out … depicted as flying away across a full moon, a bird with luminous wings and head of light. Sort of thing you might see on a screen in an Indian restaurant in Panama. The Khu is responsible for the subject and can be injured in his defense-but not permanently, since the first three souls are eternal. They go back to Heaven for another vessel. The four remaining souls must take their chances with the subject in the Land of the Dead.

Number four is Ba, the Heart, often treacherous. This is a hawk’s body with your face on it, shrunk down to the size of a fist. Many a hero has been brought down, like Samson, by a perfidious Ba.

Number five is Ka, the Double, most closely associated with the subject. The Ka, which usually reaches adolescence at the time of bodily death, is the only reliable guide through the Land of the Dead to the Western Lands.

Number six is Khaibit, the Shadow, Memory, your whole past conditioning from this and other lives.

Number seven is Sekhu, the Remains.

[Extraído de The western lands – a book of the dead for the nuclear age.]

Mr. Bloom

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Não se brinca com professores doutores muito menos com os Franciscos Ivans da vida, inda mais quando, muito além da vida e do jardim, são da universidade federal do Ryo Grande. Derna que eu me entendo de gente – não, não, muito antes, derna que eu era animal, bicho, planta, fóssil – a Capitania de João de Barros comemora o dia em que o seu Leopoldo flana, passeia, flaneia, pela capital da Ireland, sem sombra de Sinéad nem Bono, sem goles de Guinness, o que, convenhamos, é o maior pecado. Como eu nem me aventurei a ler o calhamaço do senhor Joyce, vamos deixar a palavra a quem entende do assunto e do riscado: o profdoc Chico Ivan [mais abaixo] e algumas publicidades da cerveja irlandesa, citações-homenagens ao mágico de Oz e Dante, Inferno, tal.



BLOOMSDAY 2010

Apresenta

EXILES

James Joyce, mais uma vez, Joyce; mais, ainda, James Joyce (1882- 1941). E, por que James Joyce? Como é sabido, que este ano, a cidade de Natal, celebra mais um Bloomsday, o inesquecível dia 16 de junho de 1904, um dia de celebração dedicado a Joyce, o autor de Ulysses, o mais trágico, cômico, dramático, derrotado e glorioso romance moderno/contemporâneo. Romance que conta a solitária “aventura” de Bloom durante esse dia de verão, em Dublin, na Irlanda. O gênero encontrou em Joyce a sua definição mais artisticamente moderna. James Joyce inaugura a posição do romancista moderno frente ao gênero do romance, que depois muitos escritores contemporâneos irão absorver, direta e indiretamente, suas inevitáveis e essenciais influências. Ulysses é, na minha opinião, razão e coração da modernidade. E assim o encontraremos no centro da modernidade, em suas excentricidades, de que dentro de uma linguagem barroca, de formas fechadas e abertas em si mesma, formas modernas que soltam em espirais conteúdos antigos/escolásticos, esse personagem aparece. Imediatamente, de repente, encontraremos Leopold Bloom, o Ulisses antigo e moderno, personagem que se abre para o universo da literatura universal. Abrindo-se para o universo, se abre ao mundo de hoje e afirma, mais ainda, a eterna angústia — essa angústia que é a nossa angústia, sempre a nossa; ou de qualquer modo, a nossa angústia.

Desde sua publicação, em 1922, em Paris, os críticos e grandes escritores tiveram clara consciência da posição peculiar que esse personagem, Ulysses, chamado Bloom, iria tomar dentro do mundo das artes e da literatura. Digo, mundo das artes, porque Ulysses não se limitou apenas ao espaço da arte literária. Ulysses de Joyce penetrou em todos os campos: o cinema, a dança, a música, o canto, a mídia, o teatro e, de certo modo, Ulysses invadiu a vida humana; penetrou em nossa consciência, penetrou em nosso interior e exterior e definiu nosso papel no espetáculo teatral da vida. Ulysses de Joyce está animado por um plurissignificante papel: os signos verbais, isto é, as palavras tendem a se converter em imagens, imagens sonoras, emblemas, imagens que evocam outras realidades, realidades que viram signos: uma linguagem que traça um périplo, uma passagem entre a realidade vista e o pensado pela mente de Bloom, a imagem da escritura, que cria um personagem novo, um verdadeiro monstro, lembro aqui, o Finnegans Wake, um verdadeiro monstro da palavra: algo que rompe a ordem natural e que nos maravilha e seduz.

Este ano, a apresentação da peça, Exilados ( EXILES ), no Teatro Alberto Maranhão, para celebrar o Bloomsday,  basta para mostrar que a Obra de James Joyce tem grande recepção na cidade do Natal. Exiles foi a única peça teatral que James Joyce escreveu. Escrita em 1916, depois de A Portrait of the Artist as a Young Man e antes de Ulysses, foi vista como linha divisória, watershed, entre Um Retrato… e o grande romance que estaria por vir, o Ulysses. Sob direção de W. B. Yeats foi apresentada no Abbey Theatre, em Dublin. Em 1970 teve sua maior apresentação em Londres, sob a direção de Harold Pinter, no Mermaid Theatre. A peça que é a história de um renomado escritor retornando para Dublin, depois de nove anos de exílio, revela muito da própria experiência de Joyce.

As cenas transcorrem no subúrbio de Dublin, na Irlanda; é o verão do ano de 1912. Estamos nós, aqui, no começo do Século XXI; antes de tudo temos que sublinhar, e isto é muito importante, que vista a uma distância de tempo-espaço muito grande, e que dificulta a compreensão do tema apresentado, Exiles produz no expectador uma rica expectativa, uma complexa impressão de incerteza, de dúvida e melancolia… Parece que seus personagens pedem perdão por seus subterfúgios, por suas suspeitas, por se expressarem através de uma linguagem tão ambígua, mas deixando entrever suas idéias com extremada delicadeza. Certo. É sob a direção de Alex Beigui, artista e professor do Departamento de Artes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que vamos assistir a esse espetáculo, no palco do teatro Alberto Maranhão. E não tenhamos dúvida, cada um dos espetáculos montados do texto joyceano transforma-se em outra obra, em outro texto, em uma metáfora do texto original.

Minha expectativa para ver o Joyce em cena, no palco do Alberto Maranhão, começa, exatamente, com esta minha afirmação neste texto. [Francisco Ivan da Silva, Prof. Dr. da UFRN]

PROGRAMAÇÃO

Data: 16 de junho (4ª feira)

9:30 h – Leitura dramática do original: Exiles, de James Joyce. Coordenação: Profª Dª Ana Graça Canan. Local: Teatro Dep. Artes/UFRN

14:00 h – Mostra de vídeos sobre a Irlanda e a obra de James Joyce.

15:30 h – Palestra: Mortos, vivos e exilados, o sublime em James Joyce. Profª Dª Sandra Erickson. Mediadora: Profª Dª Maria Helena Vaz Costa. Local: Teatro Dep. Artes/UFRN

20:00h – Apresentação da peça: Exilados, de James Joyce. Local: Teatro Alberto Maranhão. Direção e adaptação: Prof. Dr. Alex Beigui

PROMOÇÃO: UFRN – Dep. Letras, PpArtes – CCHLA, Pró – Reitoria de Pesquisa

COORDENAÇÃO GERAL: Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva

Carros de luxo e hospital de referência

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Os tais press releases continuam a me encantar.

Agora mesmo chegou um que começa assim:

Os profissionais de saúde do Hospital Infantil Sandra Celeste estão surpresos com a quantidade de usuários que vem buscando os serviços pediátricos nos últimos dias.

¿Que pasa por la calle, niños? Alguma epidemia? Terremoto, maremoto, acidente de moto?

Nada, nada, nada.

Simplesmente o atendimento “praticamente quadriplicou” porque o trabalho está sendo realizado como se deve, explicou a diretora, Telma Pereira.

Que acrescenta uma observação importantíssima como prova de que o trabalho “é referência e está sendo eficiente”:

À noite, principalmente, chegam pais em carros de luxo trazendo os filhos para consultas, pois já souberam que aqui o atendimento é 24 horas, com equipe treinada e especializada, contando com três pediatras por plantão, com toda estrutura de exames de sangue, raio x, e ainda tem o retorno ambulatorial.

Ou seja, coisa de primeiro mundo mesmo, hein? E o cenário fica ainda mais exuberante com tantos importados no estacionamento.

Maravilha.

O danado é que, como aumentou – “inesperadamente” – a demanda, o tempo de espera também cresceu. O atendimento não é por ordem de chegada, explicou a diretora através do release, mas pela gravidade do caso.

Ou seja, contrariando a lógica, alegria de rico dura pouco: vão ter que estacionar seus importados noutra freguesia.