E antes que o ano acabe eu tenho que dizer umas duas ou três palavrinhas.
Que, sim, continuo conseguindo aquilo que desejo.
Quando desejo muito, de verdade.
Por exemplo: nunca desejei, na vera, ganhar na loto, mega-sena, bicho, posto que nunca jogo e quando jogo não confiro a aposta.
Por exemplo: nunca desejei, de verdade, ser rico, porque – sei lá por quê – talvez por ter entendido cedo que as melhores coisas da vida o dinheiro não compra. (Embora, sim, ok, um attico na Piazza Navona ou no Campo de’ Fiori não se conquista somente com boas intenções e um saco de bondades de escoteiro-mirim.)
Mas, creia-me. Basta pouco, muito pouco pra ser feliz.
Por exemplo, outro exemplo: descobri, por esses dias, um apêzinho simpático, com varanda debruçada para o mar de Pipa, que a proprietária me aluga por míseros cem reais a diária. Tem uma cama de casal grande, ideal para fazer amor ao retorno da praia, os corpos ainda quentes do sol tropical e perfumados por um bom hidratante (que pode ser da Natura, da Avon, da Body Shop, ou de qualquer marca que custe os olhos da cara, quem se importa?). Encimando a cama, sugestivamente, um pôster de um filme do Russ Meyer, muito comic trip. E, logo adiante, um terraço com cadeirinhas confortáveis para, lado a lado, bebericar um vinho e respirar estrelas. Vinhos razoáveis se encontram até por cinqüenta contos, o suficiente para nos embriagar de verdades fantasiosas, senão as mais sinceras, com certeza as mais lúdicas e prazerosas. As estrelas, claro, são sempre grátis e aliviam os brônquios, bronquíolos e alvéolos pulmonares.
Depois, ou antes, tem o passeio de barco de Galego, também conhecido por Peixinho, nascido e criado na Pipa, que porta qualquer mortal até o Curral do Canto (vulgo “Baía dos Golfinhos”), daí para a Lagoa de Guaraíras e depois se enfurna pelo mangue de Georgino Avelino, onde a melhor refeição do mundo é servida, no próprio barco, que de nada luxuoso tem. A paisagem lembra O coração da trevas, de Conrad, sem horror algum, aliás. E custa bem menos que as milacrias de um Ferran Adrià: cento e vinte paus, salvo engano, na alta estação.
No mais, com um litoral tão imenso e águas sempre mornas, se deixar levar pelo balanço das ondas em abraços entre o fugidio e o eterno é infinitamente barato. Beijos molhados, também, podem ser trocados sem recorrer a nenhum cartão platinum, infinite ou cheque pré-datado.
Um expresso – entre os dois e três reais – pode colocar os olhares nos trilhos e dar início a toda essa viagem, por enquanto apenas desejo, mas, ah, crianças, o desejo é a ante-sala da vida real.
Feliz Ano-Novo para todos.










