Arquivos da seção ‘Crônicas’

Antes que o ano acabe

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E antes que o ano acabe eu tenho que dizer umas duas ou três palavrinhas.

Que, sim, continuo conseguindo aquilo que desejo.

Quando desejo muito, de verdade.

Por exemplo: nunca desejei, na vera, ganhar na loto, mega-sena, bicho, posto que nunca jogo e quando jogo não confiro a aposta.

Por exemplo: nunca desejei, de verdade, ser rico, porque – sei lá por quê – talvez por ter entendido cedo que as melhores coisas da vida o dinheiro não compra. (Embora, sim, ok, um attico na Piazza Navona ou no Campo de’ Fiori não se conquista somente com boas intenções e um saco de bondades de escoteiro-mirim.)

Mas, creia-me. Basta pouco, muito pouco pra ser feliz.

Por exemplo, outro exemplo: descobri, por esses dias, um apêzinho simpático, com varanda debruçada para o mar de Pipa, que a proprietária me aluga por míseros cem reais a diária. Tem uma cama de casal grande, ideal para fazer amor ao retorno da praia, os corpos ainda quentes do sol tropical e perfumados por um bom hidratante (que pode ser da Natura, da Avon, da Body Shop, ou de qualquer marca que custe os olhos da cara, quem se importa?). Encimando a cama, sugestivamente, um pôster de um filme do Russ Meyer, muito comic trip. E, logo adiante, um terraço com cadeirinhas confortáveis para, lado a lado, bebericar um vinho e respirar estrelas. Vinhos razoáveis se encontram até por cinqüenta contos, o suficiente para nos embriagar de verdades fantasiosas, senão as mais sinceras, com certeza as mais lúdicas e prazerosas. As estrelas, claro, são sempre grátis e aliviam os brônquios, bronquíolos e alvéolos pulmonares.

Depois, ou antes, tem o passeio de barco de Galego, também conhecido por Peixinho, nascido e criado na Pipa, que porta qualquer mortal até o Curral do Canto (vulgo “Baía dos Golfinhos”), daí para a Lagoa de Guaraíras e depois se enfurna pelo mangue de Georgino Avelino, onde a melhor refeição do mundo é servida, no próprio barco, que de nada luxuoso tem. A paisagem lembra O coração da trevas, de Conrad, sem horror algum, aliás. E custa bem menos que as milacrias de um Ferran Adrià: cento e vinte paus, salvo engano, na alta estação.

No mais, com um litoral tão imenso e águas sempre mornas, se deixar levar pelo balanço das ondas em abraços entre o fugidio e o eterno é infinitamente barato. Beijos molhados, também, podem ser trocados sem recorrer a nenhum cartão platinum, infinite ou cheque pré-datado.

Um expresso – entre os dois e três reais – pode colocar os olhares nos trilhos e dar início a toda essa viagem, por enquanto apenas desejo, mas, ah, crianças, o desejo é a ante-sala da vida real.

Feliz Ano-Novo para todos.

Renas, canários, ratos e duas moscas voando

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Leio no The Guardian – metido a besta que sou, mínimo – sobre uma nova instalação em museu alemão. Berlim, pra ser exato. Então, já viram né? Deve vir loucura mudernosa por aí.

Pois.

Um tal Carsten Höller instalou – pois não – no interior do Hamburger Bahnhof, uma antiga estação de trem, um cercadinho (em verdade, em verdade, não tão pequeninho assim), com areinha no chão e – atenção – 12 renas, 24 canários, oito ratos e duas moscas, espalhados aqui e ali, suponho aleatoriamente.

Curtiram isso? [Vocês, usuários do Facebook e financiadores do Zuckerberg?]

Mas, mas, mas, porém, contudo, todavia, entretanto, o melhor da festa não são as 12 renas, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas – isto é, se essas não tiverem escapado pelo tubo de ventilação.

O senhor Höller achou por bem instalar – também – uma geladeira.

E entupida de drogas psicodélicas.

Pronto, acabou?

Nein, senhores, senhorinhas – e esse nein é tentativa ridícula de soar um não em alemão –, o mister Höller está alimentando metade das renas com um tipo especial de cogumelo que, se não deixa as renas doidonas, deixa a sua urina alucinógena.

Ah, sacaram?

A geladeira não está ali como objeto nonsense: serve pra armazenar a urina dos bichos.

E pelo que eu entendi, os visitantes podem saciar sua sede por, digamos, loucuras.

Ou por, digamos, também, beber xixi.

E podem pernoitar no museu, pagando mil euros, em uma plataforma suspensa, equipada com cama, frigobar e, claro, 12 garrafinhas de urina, metade batizada, metade não, sendo que a batizada não lombra, se é que vocês me entendem, mas, numa boa, nem se apoquentem, tendo em vista a situação.

Além disso, assim como a geladeira, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas não estão ali de enfeite: a urina das renas é derramada sobre a ração dos animais, que estão separados em dois cercados.

E como existem dois tipos de urina, com cogumelo e sem cogumelo, fica difícil saber se os bichos estão doidões ou se o vôo dos canários e o saltitar das ratazanas é natural mesmo.

Exatamente o que o artista pretende: testar a hipótese – como em um experimento cientifico – de que a arte é capaz de, ãhnn, mudar as percepções ainda mais do que as drogas.

Ou seja: viagem.

Calmaria

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Erin Kennedy, s/d

Depois da tempestade, a bonança, reza o dito, tal.

Pois. Vez em quando, diante do tempo bom que grassa na meteorologia oficial, há de se externar tempestades interiores.

Tipo: chutar o pau da barraca – especialmente quando pau e barraca alheios.

Tipo: enfiar o dedo na venta, o pé na canela, o chute no saco – idem.

Tipo: regurgitar sapos – bulimia atávica e auto-imposta contra batráquios de qualquer subespécie.

Tipo: apertar o botão do F O D A – S E – em fast forward.

Feito isso, meninos, meninas, é gozar da placidez do céu azul e botar a alma no quarador.

Modo Secagem Rápida.

Imprevisão do tempo.

Quem foi, quem não foi

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Maria Antonieta, de Sophia Coppola, 2006

Estranho lugar, essa província do Ryo Grande, costados atlânticos do Brazil nordestino.

Por esses dias de dezembro, entre o calor e a candura, o que mais se ouviu foi quem foi convidado e quem não para o show de Roberto Carlos, O Rei.

Estar na lista dos mil e quinhentos (é esse o número?) convivas era sinal de prestígio, glamour, graça.

Estar fora, o contrário.

Uma terceira categoria inclui ainda aqueles que, não tendo sido chamados ontem, não se resignaram e desembolsaram, para hoje, de quatrocentos a seiscentos reais, estilo Yes, we can.

Ou Não me convidaram, pra essa festa pobre etc.

Houve ainda quem repetisse, quase à exaustão, que o empresário Nevaldo Rocha, do grupo Riachuelo, deu à cidade um verdadeiro presente. Como estamos no período natalino, claro que se abusou do joguinho de palavras presente de natal, presente para Natal.

Ora, vão se catar.

Presente seria se fosse de graça.

E a verdade é que, muito matreiramente, como convém a todo empresário bem-sucedido, aproveitaram essa mania típica do natalense, de querer fazer parte das very important person, para que os menos importantes pagassem a conta dos, supostamente, mais.

Pelo que apreendi dos ditos formadores de opinião, ninguém, ontem, foi de táxi, que, claro, não fica bem não exibir o carrão importado. Houve, também, fila, o que, convenhamos, não combina com quem de dinheiro o tem a rodo e tal.

Muito conveniente, também, a escolha do cantor – seria impossível, por exemplo, que o cara fizesse piadinha com a platéia, tipo Lennon quando, em show diante da rainha (a verdadeira, do Reino Unido), pilheriou: “As pessoas que estão nas cadeiras mais baratas podem aplaudir, o resto pode chacoalhar as jóias.”

Aliás, o próprio shopping – perdão, mall – onde se ubíqua o Teatro Riachuelo, tem suas diferenças socioeconômicas: à medida que se sobe de piso, ascende-se um degrau na escalada social. O primeiro andar, nível da rua e das paradas de ônibus, destina-se à classe operária. O segundo, onde os caminhos convergem para a enorme praça da alimentação, para aqueles com algum dinheirinho pra comer fora de casa. Já o terceiro, ah, o terceiro piso é pra gente de bem, de bem com a vida, de bem com a grana. De bem, acima de tudo, com as jóias, chacoalhando-as, na ausência de uma corte real, para os únicos palácio e Rei que o destino plebeu nos reservou.

Um filme chato

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma palavra resume A rede social: chato.

Mas, não confiem na palavra do sobrescrito.

Embora ninguém tenha batido palmas no final, meus companheiros de sessão das dez, noite, shopping, cinema lotado, gostaram.

Ou aparentemente gostaram.

Ou, nem se deram ao trabalho de refletir se gostaram ou não.

Mas, afinal, quem diabos vai perder tempo refletindo de que é ou como é feito um Big Mac?

A propósito, eu nunca como o Big Mac, mas peço o McNífico Bacon e o Cheddar mais do que vocês possam imaginar.

Eles são sempre os mesmos, sem nenhuma grande variação de sabor, textura ou tamanho.

Sem surpresas.

Como o cinemão hollywoodiano.

Nada contra.

Fast food, vez ou outra, é um prazer.

Pois, prazer foi o que mais me faltou ao assistir as aventuras de Mark Zuckerberg, um típico americano, nerd, tedioso e entediante. Aliás, eu falei “aventuras”? Pois, me desdigo. O rapaz não dá um sorriso, um murro, um soco, um pontapé, um tiro, não pula de trens em movimento, não salta de pára-quedas, não rouba nenhum banco ou cassino, não viaja ao Tibet ou à Casablanca, nem mesmo anda de lambreta pela Via Veneto, e – pecado maior de todos – não come ninguém.

Enfim, um chato.

Ah, sim. Ele é um bilionário. Pelo que eu entendi, o Facebook está avaliado em 25 bilhões de dólares. O que daria, imagino, pra comprar uns seis bilhões de Big Macs.

Mas só um idiota compraria seis bilhões de Big Macs, né não?

A árvore

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hoje, montei a árvore de natal com a minha filha caçula.

Não foi a primeira vez.

Mas.

Eu queria muito fazer isso.

Este ano.

Porque este ano foi diferente.

Este ano foi de perdas. Sempre tem alguns ganhos no meio das perdas, mas eu posso dizer que este ano foi um ano de danos.

A gente perde a inocência. A gente perde a verdade. A gente perde a crença no outro. Esta, a maior perda.

Querem saber? A gente perde todo dia. E todos os anos. Por que fui falar? O ano passado eu perdi tanta coisa, algumas definitivas e definidas só agora, neste ano. Outras, perdi há tanto tempo, sem saber.

A gente perde a paciência. A gente perde a ilusão. A gente perde o prazer de sonhar. Este, a gente sempre reencontra.

Então, montar a árvore com a minha filha é algo que nunca se perderá. A gente monta a árvore hoje, este ano, para que ela continue sempre na lembrança, ainda que outras árvores e outros natais possam vir (e virão) e ainda que outras árvores e outros natais passados permaneçam, esta árvore – como as outras – será sempre inesquecível.

Montamos, minha filha e eu. Ela está na sala, quatro tons de verde nas bolinhas, que, agora, ao contrário da minha infância, são de plástico e não se quebram, como uma vez. Quatro tons de verde nas bolinhas, balançando ao vento no meio da sala. A árvore. Minha filha, agora, não está na sala. Está na casa da mãe. Fazemos parte dessa maré de pais e filhos separados, bolinhas que não se quebram, mas também não se juntam mais.

Quando fui skatista

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Outro dia (mentira: foi agora há pouco, mesmo) sonhei que eu era um skatista em país estrangeiro procurando pegar uma balsa para não sei aonde e.

Ah, que maravilha são os sonhos!

E somente eles são capazes de inventar lógicas esdrúxulas como esta: a de que usuários de balsa costumam ser skatistas também. Pois, no meu sonho essa relação era uma verdade definitiva e implícita.

Em verdade, em verdade, vos digo, que mentiroso não sou: pouco antes de cruzar, veloz, impávido e sobre uma tábua e quatro rodinhas, as largas calçadas e vastas avenidas de uma grande e moderna cidade no estrangeiro, eu, eu era apenas eu mesmo, descendo de carro uma montanha íngreme, e estacionando irregularmente no acostamento, na encosta sinuosa. Como todo mundo, aliás – digo, todo mundo no sonho.

Então. Nessa primeira parte do sonho, estacionava eu, de ré, espertinho, pronto pra sair, porque íamos – eu e toda a turma que estava lá no sonho comigo – assistir a uma guerra entre monstros, no topo da montanha.

[Pigarro.]

E mais não conto porque senão vocês hão de querer me internar.

Ah, mas deixa eu contar uma parte, que é muito interessante e renderia ao velho e bom Freud boas explicações: é que, enquanto estacionava, tinha um conhecido ao lado, no banco do carona, acompanhado do filho bebê, todo enrolado em panos. O rapaz insistia em me pagar uma velha dívida com notas novas de cem reais. E, quando digo novas é no sentido que elas nem existem ainda.

Tá.

Daí, desse eu-mesmo-motorista-e-espectador-de-duelo-de-titãs para minha nova roupagem – de estrangeiro skatista –, era uma questão de, de, de – de nada: nos sonhos é assim, de repente você está num lugar e no mesmo repente em outro.

Splet. [Onomatopéia para um estalar de dedos.]

E nesse capítulo do sonho, chegava eu, sempre montado sobre quatro minúsculas rodinhas, em um cais de embarque. Eram dois destinos, duas ilhas com nomes espanhóis, mas nenhuma delas o lugar aonde eu deveria ir. Aí, era girar o skate e voltar, abrindo caminho entre as meninas viageiras.

No ponto do ônibus, ainda sobre quatro rodas, eu indagava a um cidadão onde pegar a tal da balsa – e ele, mui educadamente, além de me informar, confirmava com o motorista a certeza das coordenadas.

Eu estava pra descer as rampas encurvadas de um túnel, quando acordei.

Longa jornada tarde adentro

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Hopper, Road in Maine, 1914

Então, com a desculpa esfarrapada que a sua casa ficou entregue aos ratos, às baratas, às pulgas, piolhos e carrapatos, todos mortos ou prestes à, por ocasião da visita agendada do rapaz da dedetização, você se impacienta porque, não, não poderá dormir em casa, e toma, num impulso, num repente, num desatino, a estrada rumo ao sul, porque o sul é sempre uma rota incerta.

O sol em declínio – meio-dia já vai longe, despencou do arco do céu – em descida e ainda forte, espapaçando seus raios no pára-brisa, como se a própria Janis Joplin cantasse Summertime reclinada sobre o capô, mas, não, o que você ouve é o último de Eric Clapton e, nossa, como o último de Eric Clapton está bom.

E você deixa a cidade pra trás e encara toda uma estrada à frente, e tudo passa, e tudo fica pra trás, as plantações, os rios, pontes, os postos de gasolina, o tempo.

Não há um destino preciso, só a solidão por companhia. E esse é o experimento: viajar só, no mundo. Céu azul, verde à direita e à esquerda, asfalto moendo, longe é logo ali.

Na primeira possibilidade de destino, você desiste, vai além. E tudo se repete, a Janis reclinada sobre o capô, bebericando doses homéricas de Southern Comfort, a guitarra de Clapton afagando a paisagem, os carros em fila, película escura, abastecendo nas bombas de gasolina, um e outro desavisado cruzando a rodovia com um saco de mangas na mão, com um tabuleiro de alfenins ao ombro, com uma sacola de trapos arrastando pelo chão, e, acreditem, um casal, cada qual portando com dignidade um bolo de aniversário, cobertura de chocolate derretendo baixo sol.

Easy rider, sem destino.

Na próxima entrada, mantenha-se à direita, informa a placa. E vamos que vamos, rumo do mar, canaviais, oceanos, engenhos modernos e ninguém na estrada, a não ser aquele Mercedes cor de prata, veloz, sem dar tempo de enxergar se, sim, é ela ao volante. Oh lord won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Na chegada, em solitário, o mar, a baía, barquinhos ancorados. Contei quase cem, noventa e sete pra ser exato.

Todos balouçando.

Diário da rainha

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Entre maio de 2000 e dezembro de 2001, a senhora Elizabeth Alexandra Mary, então com 74 anos, desceu literalmente do trono para uma série de sessões com o senhor Lucian Freud, quatro anos mais velho.

As sessões, apresso-me em esclarecer, foram de pintura, muito embora, sim, o sobrenome do pintor não seja uma simples coincidência: Lucian é neto do velho Sigmund e quase tão famoso quanto o vovô. Se um é considerado o pai da psicanálise, o outro é tido, hoje, como o maior pintor britânico vivo.

Já Elizabeth Alexandra Mary não é uma senhorinha comum, rainha que é do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e de mais um monte de lugares exóticos, o que inclui a Papua-Nova Guiné e as Ilhas Salomão.

O encontro dos dois também carrega um quê de exotismo inusitado.

Pra começo de conversa, a pintura de Lucian Freud, é, para dizer o mínimo e respeitando o gosto banal, um tanto quanto indigesta.

A maior parte de sua obra são retratos de nus, mas Freud, neto, pinta a nudez como se flanasse num açougue e não – como seria mais óbvio de esperar – numa sexy shop ou nos bastidores de um filme pornô soft.

As mulheres de Freud são imperfeitas. Os seios flácidos, o abdômen volumoso, as coxas adiposas. Os homens de Freud têm pau. E saco escrotal. A raça humana, enfim, como retratada pelo artista, não passa daquilo que é: um amontoado de carne, músculos, gordura, ossos.

Os retratados quase sempre estão em pose de sono, largados sobre um leito desarrumado, as pregas dos lençóis confundindo-se com as rugas e imperfeições do corpo e alma humanos. Os quartos onde dormem são tão esquálidos quanto seus habitantes.

O mesmo despudor da nudez explícita se repete nos personagens vestidos. Lucian Freud não faz concessões. É cruel e seco com a natureza humana, seu tema principal. Sebastian Smee publicou um livrinho sobre o pintor com um subtítulo elucidativo: “Observar o animal”. Os homens e mulheres de Freud – as crianças também – são observados e capturados sem nenhum glamour ou sinais de superioridade de quem frequenta o topo da cadeia alimentar. Se há um quê de bicho no bicho-homem, esse quê é o centro da obra do pintor, que explora sem cerimônia ou piedade essa condição.

Daí a surpresa quando a Sua Majestade, a rainha por excelência, aceitou ser retratada pelo açougueiro.

Desconheço os detalhes da negociação, mas a foto de David Dawson, assistente e amigo de Freud, retratando uma das sessões, fala por si só.

*

O pintor aparece de costas e vê-se que ao menos está vestido formalmente para a ocasião.

Mas não olha para sua retratada, aliás, parece ignorá-la e mais preocupado com os pincéis, as tintas e, talvez, a paleta, enquanto a rainha busca o olhar e a aprovação do pintor e se mostra discretamente apreensiva, ansiosa e, ao mesmo tempo, paciente e disposta a colaborar.

Embora sua alteza tenha sido colocada sobre um plano ligeiramente elevado, aparece mais baixa do que o artista, ele em pé, ela sentada. Há um quê de humildade no modo como entrelaça as mãos, como se contasse os dedos. Uma das mulheres mais poderosas do mundo aguarda que um plebeu se apodere dela, sobre ela.

Pesa ainda o ambiente, um tanto esquálido e bastante improvisado. A parede é nua, branca, sem ornamentos. Uma rachadura ou um fio elétrico atravessa o fundo, as sombras parecem revelar, mais que esconder, um depósito de coisas velhas, trastes, parcimonioso e discreto até em sua desarrumação. Um olhar mais atento vai perceber a alça da bolsa real, apoiada no chão, esperando que o braço da sua dona seja livre para novamente e elegantemente nele se pendurar.

O mais surpreendente de todo o conjunto é o centro da foto, onde um terceiro elemento principal une e divide os outros dois, o pintor e sua rainha: é um enorme cavalete de madeira, onde se apóia a grande obra, motivo de toda essa encenação e teatro, uma tela de 23,5 por 15,2 centímetros.

E eu só posso imaginar que homem que ousa pintar nessas dimensões mínimas a rainha do Reino Unido e alhures é não apenas muito corajoso: Lucian Freud é acima de tudo poderoso.

Da natureza dos lobos | Condicionamentos

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A clockwork orange, 1971

Que coisa.

Leio na versão nativa da gringa Scientific American (“A ciência como você nunca viu”, seu slogan) que pesquisadores americanos estão provocando em lobos uma inédita aversão por ovelhas.

Detalhe: os lobos são mexicanos. Mas eu chego já, já, lá.

Pelo que entendi, o lance todo lembra a teoria de Pavlov sobre condicionamento. Não lembro onde aprendi – ou penso que aprendi – algo sobre o russo (não confundir com a vodka): se nos livros escolares ou numa revistinha em quadrinhos. Metade do que sei, aliás, vêm dos gibis, devorados com louvor e graça na infância, especialmente aqueles com a assinatura inconfundível do senhor Walter Disney (nas horas vagas, eu morava em Patópolis, sim). Mas, retomando o fio da meada: Pavlov tocava um sino antes de oferecer a refeição ao cão. Resultado, com ração ou não no prato, o bicho salivava sempre que ouvia o tilintar do bronze.

Uma maldade, penso eu: imagina o coitado em dia de festa episcopal, com os sinos badalando pra lá e pra cá (sem falar no perigo em, passando diante da missa dominical, o canino tentar devorar todos os fiéis, pois não).

De Pavlov, a mente vagueia – cambaleia, se arrasta – até Laranja mecânica, o filme de Kubrick. Todo mundo viu. Ano que vem completa 40 anos e continua atual: num futuro imaginário, o líder de uma gang barra-pesada passa por uma terapia experimental patrocinada pelo governo para diminuir a violência sem precisar aumentar o número de vagas nos presídios. Com os olhos espalancados, o rapazinho assiste a milhares de cenas de violência enquanto um soro é administrado e, bom, enfim, o rapaz não pode nem pensar em um sopro de maldade sem que lhe venha ânsias de vômito.

O filme chegou a ser proibido no Brasil dos militares e, reza a lenda, toda cena de nudez era acompanhada de uma ou mais bolinhas pretas, cobrindo um seio, um sexo, uma nádega.

De Kubrick, mais uma vez a mente – essa ensandecida vagante – vagabundeia até Brilho eterno de uma mente sem lembranças, filminho neocult de um diretor cujo nome, olha só, esqueci.

Pois bem, neste filme “inesquecível” [perdão, não resisti], o protagonista também se submete a uma terapia, só que desta vez espontaneamente e para apagar de vez e literalmente a mulher amada de suas recordações.

Uau.

Voltemos aos lobos: então, puta sacanagem essa dos americanos com os lobos mexicanos. Impedidos de comerem as ovelhas americanas, se transformam, eles próprios, em ovelhinhas. Mas, sempre mexicanos continuam [aqui, a tese fluida do imperialismo americano].

Então, imaginem a cena: o lobo bobo, de bobeira, saliva diante da ovelhinha, sem saber bem por quê. Fome eterna de uma mente sem lembranças.