Arquivos da seção ‘Crônicas’

Várias evacuações amolecidas por dia

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Acho que foi o remédio.

Começou com uma coceirinha no couro cabeludo.

Terrível, uma coceirinha no couro cabeludo.

Especialmente enquanto locus geographicus. “Couro cabeludo” é endereço suspeito. “Couro cabeludo, terceiro fio à esquerda, centro da cabeça…”

Então.

Logo, logo, estava se aninhando, enrodilhada ao pescoço, a coceirinha.

No começo toda coceirinha é prazerosa.

Depois, o negócio vai literalmente tomando corpo e quando você se dá conta as unhas não bastam para tanta pele.

Estava assim eu ontem – sem vírgulas, que o comichão não permite descanso.

Acho que foi o remédio. Já disse. Repito, só pra não pensarem em alguma sarna, tal.

Lepra, ui.

Câncer, minha nossa.

AIDS, sinal da cruz três vezes.

[Vocês são muito preconceituosos.]

Então.

Viciados sentem esse tipo de alucinação, especialmente quando em abstinência. Loucos, também, e aí não importa se chova ou faça sol. E, em algum ponto da minha memória desponta uma ou mais de uma cena de filme onde o sujeito chega a arrancar pele, carne, músculo, alucinado. Terrível. Antes melhor seria uma barata no quarto, como em Josef K, que sifudeu porque a barata era ele mesmo. Não. Que é que esse cara tá dizendo? Josef K é d’O processo. Samsa, Gregor, é a barata. Ambos acordam mal.

Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Conclusão: acordar é um problema e é pela manhã que o mundo despenca ou vira de cabeça pra baixo.

Menos mal que a minha coceira surgiu à noite. Depois do banho. Quando eu usei o xampu. Terá sido o xampu?

[Blocknote: emprestar o xampu a alguém que não gosto a fim de testar a hipótese.]

Bom, não sei; mais, não sei.

Serão os remédios, mesmo. Bula de remédio só não promete o inferno, enquanto “reação adversa”, em sua defesa prévia. Vejamos o que diz o meu:

… diarréia (várias evacuações amolecidas por dia)… indigestão… se sentir enjoado(a)… erupções cutâneas, prurido ou urticária na pele, inchaço da face, dos lábios, língua ou outras partes do corpo, falta de ar…

Já viram, né? Vamos pra frente:

… espinhas vermelhas que podem provocar coceira… As manchas podem formar bolhas… A pele/manchas/bolhas podem sangrar…

É claro que agora estou bem mais tranqüilo – embora um tanto decepcionado (ou seria preocupado?) porque as tais evacuações amolecidas não rolaram, nem uma vez, tampouco várias durante o dia.

E, enfim, tudo o que eu queria dizer, mesmo, confessar, vá lá, nesse lengalenga todo, é que as coceiras – coceirinhas – fizeram, assim, me sentir uma Natalie Portman coçando as asinhas que estavam por despontar e desplumar as nuas espáduas.

Uma besteira, sei, mas, de ganhar o Oscar, né?

Bullying, balé, bulir [SPOILER]

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Degas

Depois que inventaram a palavra spoiler fica difícil falar sobre cinema.

Tudo, tudo, tudo – aliás – tudo torna-se difícil diante do gênio norte-americano e sua inesgotável capacidade de catalogar o mundo, o universo, os anéis de Saturno e as ranhuras da alma humana e de resumi-los e encaixotá-los e acomodá-los em único termo, sem deixar rastros ou excessos e nenhuma sujeirinha no chão.

Por exemplo: o já citado spoiler.

Outro exemplo: bullying.

Qualquer tabareuzinho, pivete, grumete, boy, enfim, semi-analfabeto ou analfabeto total que seja, a essa altura do campeonato e da segunda linha do quinto parágrafo, sabe muito bem o que é bullying. E isso, lá em Jucurutu, como em Bodó, Rio do Fogo, Caiçara do Rio do Vento, Olho-d’Água do Borges ou Frutuoso Gomes – os nomes, claro, todos aleatórios, sim. E padece – o boy, o grumete, o pivete, o tabareuzinho da taba – de bullying, e sofre com o bullying, e pratica (os maus, os maus) o bullying, e são capazes, sim, de soletrar o termo anglo-saxão, de trás para diante, de frente pra trás, sem esquecer que depois do ípsilon vem o i, e o ele – ou lê – é duplo.

Sim. Pois. Tal.

Mas eu falava de spoiler porque estava para contar o meu encontro com o emplumado Cisne negro. E não dá pra comentar muita coisa sem que certas “surpresas” sejam reveladas.

Então. Umas poucas.

O Cisne negro nada mais é que a versão do velho e clássico O lago dos cisnes, balé que divide com O – e aqui estou chutando – quebra-nozes a euforia sem noção das mocinhas de 15 anos.

O Cisne negro, nestes dias que antecedem ao Oscar, divide com A rede social a euforia sem noção das torcidas, organizadas em torno de uma paixão que esquecerão e abandonarão antes que o ano finde, e, como toda paixão, alimentada sabe-se deus porquê.

O Cisne negro tem uma excelente atriz protagonista e uma razoável personagem protagonista.

O Cisne negro tem meia-dúzia de atores bons com interpretações ruins, em sintonia com o caráter de seus personagens – e o exemplo clássico e cerejinha do bolo é o Sr. Vincent Cassel, um bom ator em Inimigo público n˚ 1 e Irreversível, para ficarmos em apenas dois exemplos.

O Cisne negro é um emaranhado sem fim de estereótipos sobre sedução, sexo, obsessão, lesbianismo, contorcionismo, dor, mamãezinhas queridas e psicologia de pagode de fundo de quintal, especialmente quando ensaia um flerte borgiano através de um jogo malajambrado de espelhos e a sombra estéril do duplo – o diretor fica nos devendo uma missa negra, pois.

O Cisne negro tem duas ou três sutilezas, de uma poesia singular, e centenas de excessos grotescos que ultrapassam o ridículo em faixa contínua, e arrastam-no do drama para o terror, do terror para o dramalhão, do dramalhão para o fim, quando, graças ao bom deus, a protagonista [SPOILER! SPOILER! SPOILER!] morre. Depois de autoflagelar-se, autobulir-se, autobulinar-se, sem dó, sem piedade, principalmente de nós, espectadores.

*

PS Vou dizer. Desconfio que a intimidade com o termo que define a velha pratica de perturbar (mas que inferno!) o paraíso dos outros, venha da mesma raiz latina. “Mãe, Fulano tá bulindo com eu” – isso era comum ouvir na infância. Ou, “Bula aí, não, menino”. Ainda: “Buliu com a moça? Vai ter que casar”.

Baseball

domingo, 13 de fevereiro de 2011

E aí minha amiga chegou da Itália e marcamos um encontro e conversa vai conversa vem lá pras tantas antes de se despedir ela confessa segredando o motivo de sua vinda:

Estava apaixonada por um rapaz “infinitamente mais novo” que esperou que ela chegasse para só então dizer da nova namorada.

Eu não sei calcular o “infinitamente mais novo” mas a ênfase foi tamanha que eu preferi nem perguntar.

Parêntesis: não sei se vocês repararam mas até agora nenhuma vírgula foi usada nesse texto, (olha uma aí), também nenhum animal foi maltratado, mas isso é outra história, voltemos à vírgula, às vírgulas, pois, talvez, porque os italianos e as italianas gostam de falar pelos cotovelos e todo mundo sabe que cotovelo não usa vírgula, tal.

Enfim, minha amiga.

Coitadinha.

Coração despedaçado.

Em frangalhos.

É a única pessoa no mundo que eu conheça que já foi jogadora de beisebol, ainda mais exótica porque italiana.

Enfim, minha amiga. Que o texto se alonga. E a vida, muito curta. E esse amor, imenso. E o juventude do rapaz, infinita.

Nem um tico melosa, muito mais resolvida que desesperançada, muito mais hard do que soft, enfim, minha amiga.

Era a mesma ali, na calçada, quase irreconhecível aos meus olhos, quase a debulhar-se em lágrimas porque o rapaz, “infinitamente mais jovem”, não queria mais nada com o basquete, o beisebol, as partidas de sinuca.

“O povo diz que sou quem dá o chute na bunda dos caras” – falou – “mas não é verdade. No início, nós, mulheres, somos racionais, evitamos nos envolver, e os caras, não: se dizem logo apaixonados, mas só querem nos comer”.

“A gente só se fode” – resumiu.

Bom, foi por aí que ela falou. E continuou, que eu estava ali pra ouvir, mesmo:

“Aí quando nós, depois de uma longa resistência, nos deixamos e já estamos totalmente indefesas e presas na armadilha, eles preferem ir embora, em busca de uma mulher mais jovem, mais normal, uma que possa ser apresentada à família sem causar constrangimento.”

O papo era muito homens-são-de-Marte-mulheres-são-de-Vênus e eu não tinha, em verdade, muitos motivos pra discordar.

Apenas que, vez em quando, os papéis se invertem e subvertem o curso clássico da História, com agá maiúsculo.

Já a história, com agá minúsculo, da minha amiga, e de tantas outras e outros, essas histórias de amor, de tão banais, nada têm novo. São como agulha no palheiro. Como bolas de beisebol que alçam vôo e se perdem no gramado. Despedaçadas, sem serventia, até que uma outra venha de encontro ao taco.

Mas aí é uma outra. Bem parecida com a anterior.

Do bom e do mau atendimento

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Conversa vai, conversa vem, falavámos sobre atendimento: eu precisava de novos exames de sangue, fezes, urina, e meu irmão perguntou em qual laboratório.

“O de sempre”, respondi. E era o mesmo aonde ele costumava ir.

Perto de casa, cinco minutos a pé, recomendado pelos médicos, tal.

“Não vou mais lá”, me disse. E explicou: um dia, pra ser simpático, quebrar o gelo, puxou conversa com a atendente, seringa na mão, o braço no garrote, a veia já saltando: “Vai doer não, né?!” E a moça, olhar seco, gélido, fuzilador: “Claro que vai, toda picada dói”.

Massa, como dizem por aí.

Beleza.

E continuou: precisavam ainda calcular umas taxas e queriam saber seu peso. “Infelizmente, não sei”, explicou, todo educado. “Ah, então tem que pesar”. E nada de encontrar uma balança. Terminou, meu irmão, em uma imensa sala, quase vazia se não fosse pelo corpo estendido de outra atendente, sono profundo. “Fulana, essa balança não funciona, não?” E Fulana, se revirando enfastiada no leito: “Tá quebrada, pegue aquela outra ali”. E vai então meu irmão, desanimado, subir na balança, quando lê o aviso: “ATENÇÃO! Balança infantil”.

“Moça, aqui está escrito, que é só para crianças”.

“Tem nada não, pode subir”.

“E assim, por essas e outras, desisti”, explicou, “agora vou em tal lugar, tudo muito moderno, limpo, eficiente, as atendentes todas educadas”.

Pois, assim, fui, confiante na recomendação. Cheguei todo, não vou dizer animado, mas preparado, potinhos de urina, um, de fezes, outro, ambos dentro de uma sacolinha para preservar aos olhos alheios o desagradável espetáculo.

O prédio era, sim, uma maravilha por fora, a fachada toda no granito e no blindex, mas, por dentro, era o caos, clima assim, rodoviária. Pior: o ar condicionado, mesmo enorme, não dava conta do espaço empanturrado de idosos, adultos, crianças, bebês chorando – porque se são bebês, claro, têm de chorar.

Mais: nenhuma cadeira desocupada, o único lugar vago junto ao blindex da porta, onde o sol, impiedoso, disparava seus raios sem descanso. “Ih, vai dar em merda”, pensei, não com meus botões mas com os dois potinhos escondidos no fundo da sacola, “isso aqui vai começar a feder”.

Não sei se começou – estava resfriado, nariz entupido e tal – mas pra resumir a história, saí de lá uma hora depois que entrei, antes tendo tido o cuidado de ensaiar um sorrisinho com a recepcionista diante da pergunta sobre o horário da última alimentação (“estou quase desmaiando de fome”), que me devolveu uma expressão genuinamente indiferente, e a moça da agulha, essa sim, teve o cuidado de perguntar “tá doendo?”

Àquela hora, só me veio de dizer: “Não”.

Antes, o verão acabava em chuva

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Roy Lichtenstein, Kiss V

Antes, o verão acabava em chuva. E chovia na última caminhada do veraneio. Porque todos nós. Porque todos nós sentíamos a necessidade premente de se despedir da praia, se despedir do mar, se despedir dos rochedos escuros talhados pela maresia e pelo vento, sentinelas do horizonte. Sem fim. E chovia. E não vou falar que a chuva apagava nossas pegadas na areia porque senão isso aqui descamba pra pieguice desavergonhada. Mas. Findar o verão era ainda mais ameaçador quando se sabia o inevitável voltar às aulas, ali, nos calcanhares. Premente. Os livros novos, os cadernos imaculados, alento e maldição. Ao mesmo tempo. De uma só vez. Findar o verão era ainda mais desestimulante porque nunca, nunca, vou dizer o quê? tínhamos conseguido beijar a garota. A cada verão era uma nova garota, com os mesmos cabelos loiros da anterior, com a mesma pele bronzeada do verão passado, com os mesmos olhos verdes daquela que nos tirou o sono no último luau, com a mesma cabeleira cor de ébano – ai, meu deus, isso sim é piegas – daquela de quem nem chegamos perto, porque. Porque. Porque era sempre outro cara quem chegava perto. E nós, nós éramos aqueles que ficavam de lado, os que bebiam mais, os que davam vexame, os que se embriagavam contando estrelas e paixões feitas de poeira de estrelas. Os que amavam mais. E os que ouviam música. Os que ouviam, então, falo dos anos setenta, Supertramp e coisas do gênero, número, grau. Os que prometiam, ao som de Hide In Your Shell, que, sim, no próximo verão seria diferente, porque o ano todo passaria até que víssemos, novamente, garotas como aquelas, aquelas que não nos viam, que não tocavam nossa mão, que não dançavam coladinho, que não sorririam para nós, porque os outros, ah, os outros, filhos da puta, os outros sempre beijavam a garota que não conseguimos beijar. Então, antes, o verão acabava em chuva. E chovia na última caminhada do veraneio. E de repente estávamos em sala de aula. E na sala de aula, de repente, porque o ano era novo, realmente novo e tal, despontava numa das carteiras uma moça como a do verão passado. Com os cabelos loiros e os olhos azuis, com os cabelos castanhos e os olhos idem, com os cabelos negros e os cílios tímidos, e todas elas com aquele jeito inconfundível e sensual de segurar o caderno de encontro ao peito, e sim, e de repente, elas também voltavam a pé pra casa e tínhamos então uma chance a mais de prolongar a aula, e esse era o momento mais delicioso do dia, porque as perspectivas eram imensas, as possibilidades infinitas, o verão não mais importava. E então continuamos a beber mais que os outros, a dar mais vexame que os outros, a se embriagar de céus e constelações, a ouvir música, tanto quanto os outros, mas quem se importava? porque aprendemos também a nos fazer enxergar pelas melhores garotas, a pegar na mão das melhores garotas, a dançar coladinho, a traficar sorrisos, e sim, até, filhos da puta, falo dos outros, me desculpem, a beijar a garota, que eles agora, nem. Então, antes, o verão continuava findando em chuva, mas quem se importava agora com a chuva? Quem se importava com as estações? As garotas estavam ali, debaixo da chuva e elas precisavam de alguém, como nós, os que amavam mais, os que bebiam mais, os que traficavam mais, os que podiam até nem dançar mas sabiam ficar ali, agarradinhos, então, essas meninas, pobres meninas, de cabelos ora curtos e cintura fina e sexo úmido, elas precisavam de alguém que as protegessem da chuva, alguém que, num abraço, as tirassem da chuva. As abrigassem, as ninassem, as beijassem. Ah, mas então, vieram novos verões, sempre acabando em chuva, e chegou a nossa vez, então, de ficar na chuva. Porque as meninas, sim, elas nos tinham beijado, sim, ela nos tinham tocado os cabelos, sim, elas nos tinham secado as lágrimas, sim. E elas começaram, então, a nos ensinar. Que, por mais estranho que parecesse, por mais paradoxal que fosse, o amor podia acabar,  também, como o verão, como a chuva, num beijo.

Portas

terça-feira, 25 de janeiro de 2011


“Estamos ficando velhos. As únicas coisas que nos restam são nossas lembranças. Se sair por aquela porta, nem elas restarão.”

A fala não chega a ser um clássico.

Não é um Play it again, Sam.

Não é um Durante muito tempo em minha vida eu fui dormir cedo.

Não é.

A não ser que você, como eu, seja um devoto de C’era una volta in America, o clássico, canto de cisne de Sergio Leone.

E saiba que a fala no alto desta página é da personagem de Elizabeth McGovern. Que reencontra o amor adolescente, vivido por Robert De Niro.

Trinta anos depois.

“Olá, Deborah. Não vai dizer nada?”

“O que deveria dizer depois de mais de trinta anos?”

“Ao menos me reconheceu” – conclui De Niro, um gângster aposentado. Envelhecido, à base de sangue, ópio e um amor não resolvido.

“Atrizes têm boa memória” – rebate Deborah, enquanto retira, não de todo, camadas e mais camadas de maquiagem diante do espelho do camarim.

Deborah, Cleópatra. O palco resta vazio. As cortinas fechadas. A ação, drama, tragédia, corre agora nos bastidores.

Trinta anos depois.

“Tem uma saída por aqui. Noodles, saia por ela. Caminhe e não olhe para trás. Por favor, Noodles, estou implorando.”

Em inglês fica mais sonoro: “Keep walking and don’t turn around.”

Noodles, Deborah. Na adolescência, ela, judia, lia trechos dos Cantares de Salomão para ele, judeu não praticante.

“O meu amado.” Etc.

Daí a referência bíblica, na contrapartida de Noodles: “Receia que eu me transforme numa estátua de sal?”

“Se sair por aquela porta, sim.”

Sim.

Quando eu me apeguei a você, meu coração,

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Robert M.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, os dias eram turbilhão. Cinzas, ferrugem, nublagem.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, o amor restava dúvidas, como o pão deixa farelos sobre a mesa quando cortado.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, a Paixão contraía dívidas e medos. Medo de saber se o interesse era recíproco, se as atenções seriam retribuídas, se os signos foram corretamente desvendados, e se – acima de tudo – tudo aquilo que fantasiei não ruiria como num castelo de cartas frágil porque sem alicerce concreto algum.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu recusava limites. Eu achava o impossível, possível, o desencontro, encontro, e o fugaz, duradouro.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu vivia de esperas ativas. Como quem antecipa conquistas, como quem tem um exército pronto a superar as muralhas à beira-mar.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu estava disposto a tudo, até a colher estrelas com o laço estreito do meu abraço.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu desconhecia os limites entre a paixão e a vingança. Eu misturava alhos com bugalhos, trocava os pés pelas mãos, e daria tudo, tudo, por um pouco de sua boca.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, a gente me dizia: “É só isso, então, apenas fantasia”, como se fosse muito pouco essa fantasia – esse arremedo de realidade – que construí sobre você, sobre nós, meu coração.

Quando eu me apeguei a você, eu não entendia que a vida nos oferece escolhas, que mesmo o amor desfeito tendo sido mera ilusão, simulacro, desdém, ele era real porque eu o senti assim, verdadeiro.

Então, meu coração, eu entendi que mesmo não amando mais aquele amor, eu nunca o renegaria, porque ele era meu e verdadeiro, mesmo sendo uma mera miragem do meu coração.

Hoje, meu coração, seria injusto dizer que substituí aquele amor por essa paixão, que você agora protagoniza, sem querer, sem saber o real tamanho do meu delírio – porque, não, meu coração, o passado nunca será substituído pelo presente, e as camadas que ora sobreponho são independentes umas das outras, embora, sim, não será à toa que ontem perdi novamente meu óculo, à distância de um ano, porque todo cego é de paixão etc.

Etc.

Mas hoje, meu coração, eu não sei mais se lutarei por você com todas as forças e anseios, se te darei o presente que, num impulso duradouro, adquiri, como quem contrai febre tropical, ardor de chuva, água nos pulmões.

Porque hoje, meu coração, aprendi a controlar essa taquicardia que ecoa em meu peito, porque me recuso a manter esse objeto de desejo na sombra e na escuridade, e porque continuamos separados, mesmo que eu insista em nos juntar, nesses sonhos, nessas insônias, nesses vãos de fantasia, onde eu, invés de me contentar com um pedaço da sua boca, a tomo por inteiro.

A casa, no presente

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

G. H. por Flávio Freitas, 2010

Meu irmão construiu uma casa.

Meu irmão construiu a casa do meu irmão.

Eu tenho dois irmãos.

A casa é de um e o projeto arquitetônico é do outro.

Antes que ela me mate, deixo claro: eu também tenho uma irmã.

Mas ela não construiu casa alguma, ao menos recentemente.

Ela diz que prefere viajar a construir casas.

Meus irmãos, que constroem casas, também gostam de viajar.

E viajam, construindo casas, projetando casas.

Meus irmãos – e aqui incluo minha irmã no plural – viajam: planejando casas, defendendo causas, contando causos, criando coisas, poetando cantos, bebendo mundos.

Meus irmãos são três, mas são múltiplos do infinito: são advogados, engenheiros, arquitetos, músicos, poetas, escritores, boêmios, artistas e, acima de tudo, loucos.

Eu adoro meus irmãos porque eles são loucos.

Eu, o caçula, sou o mais normal dos quatro. A responsabilidade é grande porque tenho que administrar a loucura dos três.

Talvez eu seja o mais louco dos quatro e por isso mesmo acredito ser o mais normal.

Noves fora os diversos graus de insanidade, por ter eu o coeficiente mais baixo – creio –, preciso cuidar deles: alguém precisa vigiar a loucura para que não escape pelas ruas, dobre esquinas, deixe pegadas na areia da praia, alcance o horizonte e se perca por aí.

Meus irmãos vão rir quando lerem isso. Porque, em verdade, em verdade, cada um cuida do outro.

E descuida, também. Porque somos uma família normal e não uma família perfeita como nos comerciais de margarina boa para o coração.

Se a nossa felicidade é autêntica é porque a nossa tristeza também é.

Mas, deixa eu falar, eu falava da casa do meu irmão construída pelo meu irmão e que a minha irmã ainda não viu porque – adivinhem – estava viajando. Longe das casas e construções.

É uma casa muito bonita, encravada em terreno à beira-mar.

A gente olha para o mar, e pensa: esse é o mesmo mar do tempo das caravelas. Dos portugueses, espanhóis, franceses, colonizadores e bucaneiros. Esse é o mar dos sonhos. Latada, pesca, arpão. A gente olha para o mar e vê o mar da sala da casa. A gente olha para o mar e vê o mar do corredor da casa. A gente olha para o mar e vê o mar dos terraços dos quartos da casa. A gente olha para o mar e vê o mar. A gente olha para a casa e vê o mar.

Aí, surpresa, a gente olha para a sala e vê um enorme retrato de George Harrison na parede da sala.

Pintado.

O que estaria fazendo um enorme retrato de George Harrison na parede da sala?

Pintado.

Isso: escapando da obviedade de um Lennon-McCartney.

Daí que me contaram que uma vizinha apareceu e perguntou se não era meu irmão no retrato, na época em que era doidão.

Eu logo pensei: que época? Que passado? Ele ainda é doidão.

Desde o tempo em que morávamos todos juntos numa mesma casa, também ela de traços inconfundíveis.

É muito importante uma casa para a vida de uma família.

Nós tivemos sorte, meus irmãos, minha irmã e eu, de morarmos numa casa especial. No seio – por que não dizer? – de uma família especial. Todos loucos.

Fica difícil explicar aqui o que aquela casa tinha de tão especial.

Fico nos detalhes:

-       tinha um quarto, que a gente chamava azul.

-       tinha um móvel, que a gente chamava preto.

-       tinha um banheiro quase oval, com portas quase ovais, com paredes de fórmica azul e verde (mas a gente nunca chamou de banheiro azul & verde, era só banheiro, mesmo).

-       tinha um balanço enorme, todo o quarto do casal era em balanço, e era enorme.

-       tinha um porta-lápis verde, no escritório do meu pai, com o nome de todos nós seis.

-       tinha um forro onde a gente andava, de cócoras, quando queria fugir do mundo.

Tinha mais coisas, eu sei, mas não vou falar porque eu estava falando dessa outra casa que acabou de ser construída e ainda não tem, coitadinha, muitas histórias a contar.

A não ser a história de nós quatro, retalhos da história de nós quatro, fragmentos da história de nós quatro, cacos de vida de nós quatro.

Que, de casas à beira-mar também temos algumas histórias pra contar.

No singular. Uma só. Casa. Única: os veraneios de muitos anos foram passados numa casa de telha vã. Onde a gente lavava o rosto numa bacia no terraço. Que naquele tempo se dizia alpendre. E o jardim era uma duna. E o mar era quente, o vento atlântico e o suco, de mangaba. Porque era verão e as mangabeiras.

Ah, as mangabas eram vendidas usando uma lata de óleo como medida.

E o coco partido para comer a laminha, usando uma fatia da casca como colher.

A Kombi do pão chegava às quatro da tarde.

E se andava descalços.

E se pegava bichos-de-pé, que davam uma coceirinha gostosa.

Os anos se passaram, algumas casas foram reformadas, outras morreram, foram vendidas, mudaram-se em apartamentos, e novas foram construídas.

Os verões passaram, se dispersaram, andaram além-Atlântico. Se perderam e se acharam.

Meu pai não teve tempo de ver a casa dos meus irmãos.

Mas ele ficaria feliz na casa dos meus irmãos.

Porque é uma casa construída à sua maneira. Uma casa para agregar e se unir. Uma casa para sonhar e realizar. Uma casa para se cultivar essa loucura sã que nos une – e que às vezes nos separa, também (já falei: abaixo a margarina).

Minha mãe teve tempo de ver a casa dos meus irmãos.

E ficou feliz na casa dos meus irmãos.

Porque, com tantas histórias para contar, ela emprestou à casa, ainda sem passado, um pouco do seu, do nosso.

Do nosso passado.

Do nosso futuro.

Antes que o ano acabe

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E antes que o ano acabe eu tenho que dizer umas duas ou três palavrinhas.

Que, sim, continuo conseguindo aquilo que desejo.

Quando desejo muito, de verdade.

Por exemplo: nunca desejei, na vera, ganhar na loto, mega-sena, bicho, posto que nunca jogo e quando jogo não confiro a aposta.

Por exemplo: nunca desejei, de verdade, ser rico, porque – sei lá por quê – talvez por ter entendido cedo que as melhores coisas da vida o dinheiro não compra. (Embora, sim, ok, um attico na Piazza Navona ou no Campo de’ Fiori não se conquista somente com boas intenções e um saco de bondades de escoteiro-mirim.)

Mas, creia-me. Basta pouco, muito pouco pra ser feliz.

Por exemplo, outro exemplo: descobri, por esses dias, um apêzinho simpático, com varanda debruçada para o mar de Pipa, que a proprietária me aluga por míseros cem reais a diária. Tem uma cama de casal grande, ideal para fazer amor ao retorno da praia, os corpos ainda quentes do sol tropical e perfumados por um bom hidratante (que pode ser da Natura, da Avon, da Body Shop, ou de qualquer marca que custe os olhos da cara, quem se importa?). Encimando a cama, sugestivamente, um pôster de um filme do Russ Meyer, muito comic trip. E, logo adiante, um terraço com cadeirinhas confortáveis para, lado a lado, bebericar um vinho e respirar estrelas. Vinhos razoáveis se encontram até por cinqüenta contos, o suficiente para nos embriagar de verdades fantasiosas, senão as mais sinceras, com certeza as mais lúdicas e prazerosas. As estrelas, claro, são sempre grátis e aliviam os brônquios, bronquíolos e alvéolos pulmonares.

Depois, ou antes, tem o passeio de barco de Galego, também conhecido por Peixinho, nascido e criado na Pipa, que porta qualquer mortal até o Curral do Canto (vulgo “Baía dos Golfinhos”), daí para a Lagoa de Guaraíras e depois se enfurna pelo mangue de Georgino Avelino, onde a melhor refeição do mundo é servida, no próprio barco, que de nada luxuoso tem. A paisagem lembra O coração da trevas, de Conrad, sem horror algum, aliás. E custa bem menos que as milacrias de um Ferran Adrià: cento e vinte paus, salvo engano, na alta estação.

No mais, com um litoral tão imenso e águas sempre mornas, se deixar levar pelo balanço das ondas em abraços entre o fugidio e o eterno é infinitamente barato. Beijos molhados, também, podem ser trocados sem recorrer a nenhum cartão platinum, infinite ou cheque pré-datado.

Um expresso – entre os dois e três reais – pode colocar os olhares nos trilhos e dar início a toda essa viagem, por enquanto apenas desejo, mas, ah, crianças, o desejo é a ante-sala da vida real.

Feliz Ano-Novo para todos.

Renas, canários, ratos e duas moscas voando

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Leio no The Guardian – metido a besta que sou, mínimo – sobre uma nova instalação em museu alemão. Berlim, pra ser exato. Então, já viram né? Deve vir loucura mudernosa por aí.

Pois.

Um tal Carsten Höller instalou – pois não – no interior do Hamburger Bahnhof, uma antiga estação de trem, um cercadinho (em verdade, em verdade, não tão pequeninho assim), com areinha no chão e – atenção – 12 renas, 24 canários, oito ratos e duas moscas, espalhados aqui e ali, suponho aleatoriamente.

Curtiram isso? [Vocês, usuários do Facebook e financiadores do Zuckerberg?]

Mas, mas, mas, porém, contudo, todavia, entretanto, o melhor da festa não são as 12 renas, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas – isto é, se essas não tiverem escapado pelo tubo de ventilação.

O senhor Höller achou por bem instalar – também – uma geladeira.

E entupida de drogas psicodélicas.

Pronto, acabou?

Nein, senhores, senhorinhas – e esse nein é tentativa ridícula de soar um não em alemão –, o mister Höller está alimentando metade das renas com um tipo especial de cogumelo que, se não deixa as renas doidonas, deixa a sua urina alucinógena.

Ah, sacaram?

A geladeira não está ali como objeto nonsense: serve pra armazenar a urina dos bichos.

E pelo que eu entendi, os visitantes podem saciar sua sede por, digamos, loucuras.

Ou por, digamos, também, beber xixi.

E podem pernoitar no museu, pagando mil euros, em uma plataforma suspensa, equipada com cama, frigobar e, claro, 12 garrafinhas de urina, metade batizada, metade não, sendo que a batizada não lombra, se é que vocês me entendem, mas, numa boa, nem se apoquentem, tendo em vista a situação.

Além disso, assim como a geladeira, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas não estão ali de enfeite: a urina das renas é derramada sobre a ração dos animais, que estão separados em dois cercados.

E como existem dois tipos de urina, com cogumelo e sem cogumelo, fica difícil saber se os bichos estão doidões ou se o vôo dos canários e o saltitar das ratazanas é natural mesmo.

Exatamente o que o artista pretende: testar a hipótese – como em um experimento cientifico – de que a arte é capaz de, ãhnn, mudar as percepções ainda mais do que as drogas.

Ou seja: viagem.