Arquivos da seção ‘Crônicas’

Tudo sobre Verônica

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Verônica morreu.

Me avisam por email.

Um email que eu preferia não ter lido.

Ou que não precisasse ter sido escrito.

Mas eu li o email.

E alguém escreveu o email.

Onde a morte de Verônica aparece. Não em letras garrafais. Não em negrito, sublinhado, marcado de vermelho.

Verônica morreu e nem mereceu um itálico. Ou aspas. Ou colchetes.

Ou neon. Ou fogos de artifício. Ou caracteres góticos.

Sua morte aparece no meio de uma frase da qual não me lembro, mas sei que li. Em algum lugar, em algum dos emails que abarrotaram minha caixa de mensagens no último fim de semana. Talvez entre o release de um órgão público qualquer e o de um restaurante da moda. Qualquer.

Morta Verônica, morro um pouco também eu.

Mas dura apenas alguns minutos, essa falsa morte minha. O tempo de quase chorar, de travar a garganta, de palpitar o coração, de esquentar o córtex e recordar sua presença em minha casa, manhãs de segunda, onde fazia a faxina semanal e onde apareceram os primeiros sinais do tumor que lhe tiraria a vida e obrigaria alguém a me noticiar sua morte num email que preferia não ter lido.

Verônica cuidava de mim, entre uma varrida e outra, entre um pano de chão e outro, entre um banheiro lavado e outro.

Cuidava de um modo que só ela poderia cuidar. Essa namorada ainda não é quem o senhor merece, seu Mário, me dizia. E eu – que nunca gostei que me tratassem de senhor – gostava ainda mais de Verônica porque seu tratamento formal era uma prova de amor mais que fraterno. Ou quase maternal. Ou de tia.

Tinha uma voz quente, Verônica. Uma voz que mal se alterava quando eu – que tinha pedido, rogado, implorado, pra que ela não mudasse as coisas do lugar (e Verônica sempre mudava as coisas do lugar) – ligava pra ela e perguntava, meio puto, Verônica, cadê aquele papel assim, assado, que estava em cima dos discos na sala? Ou, Verônica, um livro tal, capa vermelho e azul, onde foi parar, Verônica? Aí ela se enrolava toda e dizia que ia pensar e que ligaria quando lembrasse.

Quase nunca Verônica lembrava, ou era eu quem quase sempre achava o perdido antes da sua ligação, descobrindo na verdade que o papel, o livro, não estava onde eu pensei que tivesse deixado.

Um injusto, eu, com as vagas lembranças de Verônica.

Foi para o hospital e eu nem me abalei em visitá-la, porque achava que ela voltaria logo e tudo correria bem e não havia motivos pra preocupação. Depois, quando percebi que meu otimismo era irreal, não tive tempo, mesmo, de ir lá, e pensei, não, ela não precisa de mim, outros amigos podem acudi-la.

Que filho-da-puta, hein, seu Mário?

Não. Verônica nunca falaria assim. Tinha um calor em sua voz e nenhuma palavra negativa. Eu gostava de conversar com Verônica, de me abrir com Verônica, de ouvir suas histórias de vida, seus conselhos. Verônica me alimentava de conselhos – quase todos bons, porque simplesmente desinteressados, simplesmente simples. Vez ou outra trazia goma e me fazia tapiocas. Um cafezinho, seu Mário? Aparecia na porta do escritório no exato instante que, sim, eu queria um cafezinho. E dizia, o senhor precisa comer – e me cortava frutas. O senhor devia fumar menos – e ela mesma acendia um cigarro. Porque Verônica era assim: imperfeita – e mais perfeita do que eu; contraditória, mas bem mais coerente do que eu. Amiga – e muito mais amiga do que eu fui.

Agora, morta Verônica, fico eu aqui, pretenso vivo, suposto sobrevivente, suspeito de sempre, procurando sanar de algum modo minhas falhas com Verônica. Minha lacunas com Verônica. Eu poderia encher páginas e mais páginas com tudo que sei sobre Verônica, mas a verdade é que Verônica era muito maior do que tudo que eu sei sobre ela.

De chuvas e temporais

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Saint, Brando, On the waterfront, 1954

Não choveu por seis dias, na canção de Lloyd Cole and The Commotions. Jodie usou um chapéu, então. Parecia Eva Marie Saint em On the waterfront, Sindicato de ladrões, Elia Kazan, 1954. Lá pras tantas, Edie Doyle, ou seja Marie Saint, diz pra Marlon Brando, isto é, Terry Malloy: “Stay away from me.” Na verdade ela diz: “I want you to stay away from me.” E o moço: “I want you to stay it to me.” E ela – não Jodie, mas alguém a quem Jodie parece –, enfática: “Eu não disse que não te amo, mas que stay away from me.”

Eu misturo, não à toa, as línguas.

Há diferenças no que se diz numa língua, e o que se diz noutra língua.

Há diferenças no que se escreve, e no que se diz.

Há diferenças, acreditem, no que se fala, com a voz, e o que se anuncia, com o corpo.

Um beijo, um olhar, uma carícia de pele, o toque do meu dedo em teu antebraço, o modo como minha coxa cruza a tua coxa e nos recolhe num novo ser, sem começo, meio, fim.

Há diferenças, e eu aposto todas fichas nessa roleta, entre desejar e não desejar. Ou, entre desejar ardentemente e apenas querer.

Ou, entre dizer Não te amo e Fique longe de mim.

Se não for pra atravessar o deserto por que diabos eu desejaria ficar com você? Se não sou capaz, se não me permito cruzar vales e desfiladeiros, pontes queimadas e mares tempestuosos, infernos ardentes, paraísos medonhos, de que vale o meu desejo de atravessar a minha coxa sobre a tua coxa e nos perder nesse começo, meio, fim, não necessariamente nessa ordem?

Há diferenças entre apostar todas as fichas e arriscar uma merreca qualquer. Há diferenças entre debruçar todo o corpo sobre o abismo por cima da murada ou apenas espiar, sobrolho pensativo.

À distância, não alcanço teu corpo, tua coxa se perde em meio ao temporal, náufragos distantes, nos perdemos, nos distanciamos.

E a estrada se bifurca, em uma, duas, que se bifurcarão em mais duas, quatro, seis, mil, até que o mundo se torna tão grande como quando não nos conhecíamos. Como quando não chovia por seis longos, infinitos dias.

– Meu irmão

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Interior da Discomania, centro de Natal, por mim mesmo, tempo em que fazia fotos, batia retratos

Ontem. Ontem foi aniversário do meu irmão. Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Mas quando me refiro a algum deles, a qualquer um dos dois, os com cromossomas X e Y, eu digo apenas assim:

– Meu irmão.

Sei lá, deve ser porque cada um deles é único e dispensa explicações, e porque, mesmo tendo eu nascido depois de todos, antes de mais nada – antes de cada um ser filho, pai, marido, profissional etc. – antes de tudo cada um deles é meu irmão.

Por isso eu digo, assim, sem citar nomes:

– Meu irmão.

Porque quando eu falo de um eu falo de todos. Porque existe em nós essa herança que vai além da genética e nos acomuna e nos comunga.

Ter e ser irmãos é tudo na vida e algo mais. Quem tem, sabe. É como ter pais da mesma idade. Ou quase da mesma idade.

Esse meu irmão nasceu dois anos antes de mim.

Reza a lenda que ele me expulsava do colo materno, ainda não acostumado a dividir carinhos.

Sem traumas. Quando crescemos, ele soube muito bem dividir carinhos, com os outros irmãos, com os “irmãos de rua” (que era como um vizinho nos definia, várias turmas de irmãos de idades diferentes, dividindo, compartilhando a rua, porque, naquele tempo, lugar de criança era na rua), com os amigos em comum, com as namoradas, amores, simpatias.

Esse meu irmão é um dos melhores contadores de piada que conheço. Saca aquele tipo de piada que nos desperta um sentimento muito mais de alegria e felicidade suprema do que apenas de puro e simples riso?

Pois.

Mas trauma mesmo eu tive quando – por esses mistérios que separam garotos quase da mesma idade em grupos diferentes – voltando a pé pra casa dei de cara com meu irmão numa nova turma: era a época dos blocos de carnaval e ele estava entrando em um. Eu não tinha idade pra isso, e fiquei de fora. Tão triste quedei que cruzei a rua pra não encarar de frente o que enxerguei como uma brutal separação. Estávamos em grupos diferentes. Eu era criança, ele adolescente. Ele começaria a sair à noite. Sem mim. Ele começaria, discretamente, a beber. Sem mim. Ele começaria a conhecer novas pessoas. Sem mim. E eu no máximo seria “o irmão de fulano” – mas sem a importância e a realeza que tem o parentesco quando antecedido pelo pronome possessivo.

– Meu irmão.

O tempo, senhor da razão etc. apararia essas arestas e logo estaríamos juntos, dividindo noites, bares e ruas. Comigo. Porque, no quesito livros & discos, sempre compartilhamos os mesmos gostos. Desde sempre. Comigo.

Então, um dia antes do seu aniversário, ontem, antontem, sei lá, ele me enviou um email, intitulado “lembrança-luz”. Falava de um disco que dei de presente pra ele, Long distance voyager, do Moody Blues. A capa, uma ilustração representando um teatro de bonecos inglês ao ar livre, toda em tons azuis. Era um disco azul. E, lá em casa, na nossa casa da infância e adolescência, havia um quarto “de som”: um quarto usado apenas pra ouvir música. Um tocadiscos Gradiente. Um amplificador CCE. Tape deck Akai. Caixas Polyvox. Pilhas de revista Pop e Somtrês e algumas americanas de surf. Almofadas. Colagens espalhadas. E o piso do quarto todo azul.

Como era mágico esse azul em nossa casa.

Ele escreveu sobre esses azuis e concluiu:

– Gosto de me lembrar disso…

– Meu irmão.

Também eu gosto de me lembrar disso, de recordar tudo isso, de ter certezas na vida. De ter irmãos.

E se escrevo tudo isso, às vezes um pouco confuso, às vezes um pouco certeiro, não é apenas porque quero me desculpar por ter faltado ao seu aniversário estando tão próximo e sem desculpas de viagem, voyagers, distâncias etc. É porque gosto de me lembrar disso.

Gosto de lembrar quando, mais de uma década atrás, eu fui fazer uma importante e simbólica mudança, para mim, deixar o apartamento-casa em San Lorenzo, Roma, para o Viale di Donna Olimpia, Monteverde, Roma, e fui até uma loja de discos, a Disfunzioni musicali, e comprei, pra ele, o Watch, da Manfred Mann’s Earth Band.

Gosto de lembrar quando ele comprou o disco de O Peso. E o dos Novos Baianos. Ou quando eu trouxe de uma viagem o My life in the bush of ghosts. Ou como foi importante, num verão, ouvirmos juntos o Breakfast in America. Ou “School” no toca-fitas do carro do nosso tio, com o nosso primo, uma tarde. Uma única tarde.

Ou como uma vez, eu – ou ele, que tanto faz – escrevemos – ou citamos, que tanto faz – que sempre haverá em nós esse dito, não-dito. Esses silêncios íntimos.

Gosto de lembrar quando, em Natal, noutro ano e ocasião, propositadamente, por razões que só interessam a nós dois, comprei um livro de poesia russa, porque não queria, naquele aniversário, dar discos.

Gosto de lembrar de algumas fotos: eu e ele jogando futebol na praia; eu e ele no jardim de casa com um barquinho a vela.

Gosto de lembrar quando, miraculosamente, fizemos o trajeto Pirangi-Ponta Negra-Pirangi num barquinho a vela, de verdade, maior do que aquele da foto.

Ou como, uma vez, no metrô de Nova York, uma solidão dos diabos, enxerguei entre os bancos vazios alguém incrível e magicamente parecido com esse meu irmão como era quando adolescente: cabelos revoltos, de uma brancura e uma magreza poética, um certo ar de desajeitamento e alheamento, um olhar de poeta que ele sempre foi.

Um olhar de irmão que ele sempre é.

“Asterio Polyp, thanx”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

David Mazzucchelli

Você sabe que já conheceu dias melhores – em verdade noites melhores, em verdade madrugadas melhores – quando o garção, ou seu preposto, um tipo gordinho e suado, deposita sobre a mesa três copos tipo geléia-de-mocotó-Colombo cheios de um vinho escuro e licoroso (e que depois descobrirá dulcífico demais).

Você sabe que chegou ao fundo do poço – em verdade fim do mundo, em verdade fim da estrada – quando vislumbra, em cada um deles, flutuando, boiando, galeando, uma pedrinha de gelo médio formato, única coisa semitransparente a brilhar, a tilintar, a contar carneirinhos no breu da noite, madrugada, fim do mundo, fim do poço, beira de estrada.

Você sabe que nem tudo está perdido quando, de um automóvel, lá longe, desce moça, impávida, sem reticências o seu andar atento e forte no rumo do braseiro onde os churrascos tipo felidae ardem em brasa, mora. Pergunta de cigarros. A churrasqueira, uma tipa gordinha e suada, indica com o dedo lugar possível, o braço voleando no ar, exibindo sovaco por fazer, e a moça, impávida, sem reticências retorna seu andar forte e atento no rumo do automóvel onde olhos brilhantes e curiosos a esperam.

Você sabe que tudo está perdido quando da mesa vizinha sopra que nem odor nauseabundo ao vento uma conversa inspiradora de medos. E Fulano de Tal? Preso. Pausa pra bebericar a cerveja aparentemente gelada. Matou dois na Zona Norte, polícia parou numa blitz, deu flagrante. Pausa pra acender cigarro do maço amassado. Brincadeira. Fulano não é capaz de matar uma mosca. Mas a imagem de Fulano, assassino serial a soldo e cano quentes, já se formou na noite, digo, madrugada escura, ajudando a derreter um pouco mais o cubinho de gelo do copo da esquerda, depois o da direita, por fim o do meio, numa sinfonia visual de detalhes.

Você sabe que tudo está, sim, definitivamente perdido, irremediavelmente perdido, quando novos copos chegam à mesa – ainda no geléia-Colombo-style – acompanhados de O inconfundível cheiro de baratas. Assim. No singular-plural. Boca da garrafa, pois. E muita reza e dar de ombros, porque a noite, porque a beira de estrada, porque o posto de gasolina mergulhado em sombras temerosas, porque as nuvens no céu aberto, porque o canteiro de obras abandonado, porque o fundo do poço e a pouca luz no fim do túnel, por quê.

É muito dezembro pra pouco dezembro, pensou.

Refresh, uma porra, pensou.

A arte de não escrever, pensou.

Três dias antes, três dias depois, cavalo alado branco, pensou, relembrando as moedas do I Ching.

Conta-gotas. Surrupiando isqueiros. Dois, três, no fundo do bolso. Um verde, um amarelo, um grená, numa sinfonia de cores e plástico.

Você sabe que – não, você não sabe nada, mas se dá conta que os porres são homéricos porque voltar pra casa é uma odisséia eterna e a cegueira a única forma de visão possível.

Riot days

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Kerajaan Rakyat Photos

Vamulá, sem essa de inspiração e ou transpiração. Vou me obrigar a escrever algo. Dispenso a seqüência natural “que preste”. Vou escrever porque senão né? a gente entra num marasmo, espiral do desencanto e é preciso reagir. Também deixemos de lado os diários de adolescente tardio e o rosa-bebê dos consultórios sentimentais. Nada de autobiografias em pílulas. Nem tatibitates. Há de se proceder mais ou menos como os londrinos nos últimos três dias que abalaram as jóias das coroas – mais aquelas das vitrines chiques: pegar com a mão nua uma pedra, seixo rolado, paralelepípedo, e tascar na primeira vidraça que encontrar pela frente, de preferência com algo de valia ou serventia pra enfiar no bolso, com a outra das mãos, que por enquanto são sempre no máximo duas, e sebo nas canelas, porque, sim, sou antigo, de quando pra correr muito se ensebava os cambitos. Pique.

Ponto.

Pronto.

Isso eu escrevi outro dia. Acho que no início da semana. Que, em se tratando desta, passou como uma nuvem em formato de gafanhoto, carneirinho ou elefantinho pelos céus plúmbeos. O gafanhoto, o carneirinho, o elefantinho entraram aqui tão gratuitamente quanto o plúmbeo pintando o céu. Quer dizer, tava no plural, mas tudo bem.

Tudo bem.

Escrever é um troço complicado. A gente passa o tempo escrevendo para os outros, a pagamento, que esquece – ou cansa – de escrever pra nós mesmos. Casa de ferreiro, espeto de pau, reza o dito. Tarde dessas estive com Dom Augusto Lula e Walter Carvalho num hotelzinho à beira-mar, Via Costeira. O céu, tarde, também estava pra lá de plúmbeo e o Imperador Augusto queria ouvir de Carvalho suas histórias quando da filmagem de Boi de prata, o único, talvez, clássico potyguar. De um cinema que não houve e nunca será e tal. Walter tinha esquecido quase tudo do filme – mas não das filmagens. Queria revê-lo. Não existem cópias disponíveis. Não gravamos e ele danou-se a falar. O bom de Walter Carvalho é que ele fala muito mais dos diretores que admira do que de si próprio. Não vou me alongar sobre a conversa, que rendeu horas, enquanto o Brasil apanhava da Alemanha no LCD do restaurante. Carvalho esteve em Budapeste, pra filmar o homônimo de Chico Buarque. A história de um ghost writer que tem duas histórias, dois países, duas vidas, duas mulheres. Aquele papo do doppelgänger. E contou sobre as locações, de como encontrou na cidade a estátua ao escritor anônimo, o que, imagino, resume um país de leitores.

E mais não falo porque não tô a fim.

Invés, vou pegando umas anotações que fiz no celular – coisas assim:

Que mundo é esse que você inventou para que eu me perdesse?

A fala, penso, deve ser de Nicole K em Moulin Rouge. O filme não é lá esses baratos todos, mas tem umas frasezinhas, umas sacadinhas, umas coisinhas, enfim, geniais. Tipo:

The greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return.

Tá.

Acho justo.

Hoje. Hoje recebi uma carta da minha caçula. Começava assim (no cabeçalho, “meu querido papai”, em letra caprichada e tinta azul):

Pai, tem amo do fundo do meu coração.

E terminava assim:

Beijos, te amo, tanto, tanto, mil tantos.

Mil tantos.

Fundo do meu coração.

Querem que eu comente? Não, não vou comentar.

Outro dia (estamos no terreno da tal escrita espontânea, o que vier na cabeça), o senhor me apontou a porta aberta no fundo do corredor. No fundo do túnel tem uma luz, disse, sorrindo. No fundo do poço, também, devolvi o sorriso.

Isso foi outro dia. Hoje, depois da festinha do papai, fomos ao velho e clássico McDonald’s. A mocinha do drive thru tomou um susto quando me viu. Parece aquele cantor, e cortou a frase ao meio – ou no começo ou no fim, sei lá. Que cantor? (eu, curioso). Aquele, que canta em Recife – e citou título de música de gosto na mira certeira do duvidoso e ambíguo. Isso é bom ou ruim? (eu, no jogo). Ele é presença. Falou. É bom, é bom. Concluiu. E me devolveu o cartão e o comprovante.

A conta deu quarenta e sete e alguma coisa.

A comida foi entregue no guichê seguinte.

O bonequinho azul do Smurf, também.

Agradecemos a gentileza

sábado, 6 de agosto de 2011

O melhor café-da-manhã de Natal, já disse – e se não, pouco importa, digo agora, amanhã, não sei – está na City Pão, Rua João Pessoa, Centro. Nem tanto pela excelência da culinária, apresso-me em esclarecer, mas pelo ambiente. E pelas pessoas. Os habitués do lugar. As meninas da Riachuelo estão sempre lá. As de outras lojas menos famosas, também. O melhor horário é antes das oito, nos dias da semana. Hoje, como em todo sábado, pode-se chegar mais tarde que sempre gente diferente há de se ver. Hoje, por exemplo – ou nem tão exemplo assim – tinha um grupinho de quatro, todas da Riachuelo. Uma irmandade. Estilo. Nem feias, nem bonitas, nem falantes, nem silenciosas. Nem descrentes, nem crentes. Estavam ali porque dali a pouco iam trabalhar e pegar no pesado requer uma dose de cafeína, uma torrada com queijo ou pão assado com ovo e queijo de coalho. Uma delas tinha um relógio masculino dourado no pulso. As meninas acreditavam no amanhã, talvez. Porque amanhã, domingo, quem sabe praia, urbana, suburbana, um namoro, um paquera, acenos do futuro melhor.

Hoje, sábado, lá estava eu. Minha terapia própria. Na parede de cerâmicas mais ou menos brancas, o cartaz: “Atenção. Comunicamos que atendimento só no balcão. Agradecemos a gentileza.” O rapaz entroncado, célere nos demais dias quando lá aporto antes das oito, hoje estava… quase zen. Esfregava um paninho miúdo nos vidros das gôndolas, borrifava um líquido qualquer, antes, e toque a esfregar, a esfregar, depois. Outro, diligente, sem ser chamado, surgia vez em quando por entre as mesas e também tascava seu paninho. Conheço poucos restaurantes que fazem o mesmo.

Também conheço poucos restaurantes tão caóticos, nem tanto pela disposição das mesas, todas fincadas no chão, mas por esse excesso de cerâmicas e rejuntes cinzas espalhados por toda a parte. Um vão só, profundo, sentando nas últimas mesas o cliente há de contemplar um pedaço da rua emoldurado por um quadrado imperfeito e as pessoas mais próximas à entrada todas em contraluz. Surreal. Tanto, quanto a gentileza das mocinhas que atendem. Um terço de educação, um terço de rispidez, mais um terço de loteria: a de hoje, por exemplo (que saco, esses exemplos), foi antipática, seca e dura, até o momento em que acenei um cafezinho e me perguntou toda – ou quase toda – derretida se poderia anotar na comanda a despesa extra.

É claro, meu bem. Não, não falei. Estava mais entretido em desvendar como o casal da mesa ao lado conseguia superar o italiano do Veneto, dele, com o português – irreconhecível enquanto origem geográfica – dela. Cada qual montado em sua própria língua, no entanto, pareciam se dar bem. Ah, o amor sem fronteiras.

Sei que ela perguntou como ele conseguia ter ombros tão largos, costas tão fortes, mas não ouvi a resposta porque outro rapaz entrou desviando atenção. Seria politicamente incorreto descrevê-lo como uma “bichinha marombada”? Pois, já disse. Óculos dourados, camiseta apertadinha, cabelo de corte… sei lá… diferente. Afetada. Entediada. Deve ter tomado todas na noite anterior e, claro, como as mocinhas da Riachuelo, precisava reforços alimentares. Eu também. Além dos reforços alimentares, precisava dessa autoterapia, auto-ajuda que só o City Pão me oferece nas manhãs insones.

O mais surreal é que, enquanto tudo isso sucedia, ecoava na minha cabeça os acordes da Patife Band: “Você faz tudo pro teu bem, meu bem.”

Quadrilha

terça-feira, 26 de abril de 2011

Escher, Spiralen, 1953

Monteiro Lobato era racista.

Tá.

Céline era um escroto.

Ok.

Polanski estuprou mesmo a boyzinha.

Beleza.

Bukowski era um bêbado, Pasolini queimava a rosca, Burroughs deu um tiro na cabeça da mulher, Saramago não acreditava em deus, Vargas Llosa é de direita, Cascudo foi integralista, Pavese e Mishima se mataram, Bishop e Stein (e Sontag) curtiam uma xereca, Hitchcock e Ed Wood se vestiam de mulher, Laerte ainda se veste de mulher, Mattoso é tarado por pés e tem glaucoma, Borges calou diante dos generais argentinos, Gainsbourg fumava Gitanes, Fellini traía Masina, Crumb desenha a si mesmo enrabando mulheres gordas, Lee Lewis casou com uma menina de 13, Mapplethorpe morreu de aids, Nava era enrustido (e se matou), Barreto escreveu o Diário do hospício no hospício, Wagner nem te digo, Riefenstahl era assim com Goebbels, Sabino escreveu a biografia da ministra, Gandhi abandonou a esposa, Hilst anotou: “Deus é porco.”

Bom.

Falta só dizer que Paulo Coelho estaciona em fila dupla.

E na Suíça.

Então, tá.

O casamento do século

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aproveito a deixa de mais um casamento do século (aspas) para retomar este blog das mãos, digo, patas, das moscas a quem estava entregue. O casamento, sabeis, é do príncipe – bom, esqueci o nome do moço – com a plebéia Kate Middleton. Confesso que errei por pouco o nome da menina: faltou um dê. De dado. De dama. Do rapaz, pouco me importa: terá tempo ainda para se fazer famoso. Por enquanto, ao que tudo indica ou assim captei, seguirá mais ou menos os traços e pegadas do pai: sua esposa tem tudo para ser uma nova Lady Di. Nem tanto por tendências inatas, mas porque assim o quer a plebe – da qual, aliás, faz parte Lady K, isto é, até a próxima sexta, quando, dizem, dois bilhões de pessoas [sic] acompanharão a cerimônia real. Do século.

E se me lembrei do casamento do príncipe X com a futura princesa K foi porque os jornais hoje me informaram que Tony Blair e Gordon Brown não foram convidados para, pois, o casamento do século. A esta altura, já sem aspas.

Tony Blair e Gordon Brown, se vocês já esqueceram, foram os dois últimos primeiros-ministros da Grã-Bretanha. Ou Reino Unido, sei lá eu. Governaram – ou administraram ou conduziram – o país de 1997 a 2007. Pelo andar da carruagem verdamarela, o partido dos trabalhadores de Lula-Dilma vai superar, fácil fácil, a carroça vermelhazul.

Mas isso é outro papo.

Pois bem: o povo ficou meio chocadinho com a falta de convite para os máximos representantes do PT britânico. Dizem que Blair (nada a ver com a bruxa do filme) foi responsável pela salvação recente da rainha da Inglaterra (ou do Reino Unido ou) e seus pares na corte quando da morte da princesinha de Gales, Lady Di, mãe do principezinho de quem não lembro o nome. Dona Elisabete (ou Elizabeth II) não queria falar à nação nem botar a bandeira do Palácio de Buckingham a meio-pau. (E, em memória de Diana e de Elton John, peço que contenham qualquer comentário maldoso com o meio-pau da frase anterior.) Pois, bem: foi Tony quem mudou a cabeça coroada da rainha e salvou a monarquia. Stephen Frears contou a história tintim por tintim em seu A rainha (2006) com Helen Mirren fazendo melhor o papel da monarca do que, dizem, a própria.

E agora, essa. Que safadinha essa família real. Convidaram o barman preferido da família Middleton (com dois dês) na ilha de Mustique, Caribe, onde passam as férias; convidaram o carteiro e o açougueiro do condado de Berkshire, onde os Middleton (com dois dês) têm residência. Sem falar em David e Victoria Beckham, Joss Stone e Elton John e até o Mister Bean, com aquele ar de pateta bretão (ou inglês ou).

Se bem que, é verdade, Dona Elisabete nunca engoliu a esposa do Blair, Cherie, que, não contente em ser plebéia, inventou também de ser advogada militante e feminista igualmente. A tal da Cherie, pasmem, recusava-se a se ajoelhar diante da soberana. E ainda contou em suas memórias que o quarto filho do casal foi concebido no castelo de Balmoral, Escócia, porque fazia um frio danado e tinham esquecido as camisinhas.

Sendo assim.

Hoje eu acordei morto

quinta-feira, 24 de março de 2011

Edward Weston, Dead man, Colorado desert, 1937

Hoje eu acordei morto. Liguei pra minha dentista e desmarquei pela segunda vez consecutiva a sessão. Na primeira eu não estava morto, não – na primeira eu ainda não estava morto, porque, enfim, para estar morto basta ter estado vivo. Um minuto, um segundo antes. Vai saber dessas intercorrências da morte, mas isso é título de Saramago ou não?

Hoje eu acordei morto. Não atendi dois ou três telefonemas, um do banco, outro de uma poeta, o terceiro não lembro nem sei se existiu. Quando se está morto, os telefones não param de tocar, é certo e sabido. Aliás. Os telefones sempre tocam quando se morre. Os nossos, os deles, os dos outros. São os sinos hodiernos. As campanas. Dobrando, versejando, festejando, fulano morreu, viva fulano, agora é a vez de sicrano pegar beltrana, mas isso é raciocínio de Nelson Rodrigues ou não?

Hoje eu acordei morto. Preparei um café, porque os mortos podem até descuidar dos dentes e recusar chamadas, mas como precisam de um cafezinho quente, capaz de levantar defunto, se é que me entendem. O café, quando se está morto, acreditem, é um negócio do Paraíso. Aliás. Ainda não me foi dado o direito de ser servido por um anjo de asas fenomenais, mas é porque sou apenas um recém-morto, esperem eu ter mais um tempo de sepultamento. E isso poderia ser uma narração de García Marquez ou não.

Mais provável que não.

Hoje eu acordei morto. Sob as cobertas. Liguei o ar condicionado e chovia lá fora. Como morto, eu ainda identificava a chuva caindo. O som da chuva não muda, creiam-me, para os mortos ou para os vivos. Meu cadáver ainda não fedia, claro, olhei para o dedão do meu pé e ele até parecia vivo, tanto, que se mexeu. As cobertas restaram no chão, não se exige de um morto a casa arrumada. Dei uma olhada no tempo, ao menos os passarinhos pararam de cantar. Não me dou com passarinhos, não me dava, vivo, imagine agora, morto.

Provável. Que sim.

Hoje eu acordei morto. E zanzei pela casa, como se morto estivesse. Tudo no lugar, o unicórnio na sala, o urso polar na geladeira, o elefante de plástico flutuando pela janela entreaberta. Nenhum cachorro me sorriu latindo. Afinal, isso não é uma música de Carlos, Roberto. (Ou sim.) Nem eu voltei de lugar algum, a não ser pelo fato de que adormeci vivo e.

Hoje eu acordei morto.

Comércio

sábado, 12 de março de 2011

Não sei se aos sábados ou aos domingos, meu pai descia a ladeira de Marpas e nos levava pra comprar carne no açougue da Ribeira. Pela curta distância entre o alto e o baixo, entre o céu e o chão, pelo ângulo acentuado de inclinação, a ladeira nos deixava um frio-vácuo na barriga.

Ríamos.

Mas em segundos já estávamos lá embaixo e ninguém pedia pra repetir a sensação.

Nesse lá-embaixo não se via o rio. A Ribeira era um pouco de Rio de Janeiro. Um pouco de Paris.

E não conhecíamos nem a Guanabara nem o Quartier Latin.

Aos sábados, domingos, não havia carros, não havia gente nas ruas.

Não fazia frio, nem fazia calor.

Sei que era um açougue, porque se vendia carne. Não lembro de placa, tábua de preços. Não lembro de ganchos, facas, aventais sujos de sangue. Não lembro da cara do açougueiro. Se gordo, bigodudo, tatuagem no encontro disfarçado de bíceps e tríceps.

Eu não sabia o nome que se dá ao corte da carne.

O nome que se dá ao Homem que vai ao Matadouro.

Eu não sabia bem, se aos sábados ou domingos, mas era quando meu pai descia a ladeira de Marpas e nos levava pra comprar carne no açougue da Ribeira. Ao descer a ladeira, no banco de trás, ríamos. Porque em breves instantes o carro perdia sua gravidade e nos gelava as barrigas infantis.

Não precisávamos de cinto de segurança. Não precisávamos de parque de diversões. Não precisávamos repetir o feito. Não precisávamos de Paris ou Rio. Sartre, Vinicius.

Tudo que queríamos estava ali: um pai, um carro, quatro rodas, um susto anunciado, e a carne de toda uma semana, o horizonte mais longe que então podíamos alcançar.