Arquivos da seção ‘Crônicas’

Sobre bibliotecas fechadas e penitenciárias abertas

sexta-feira, 24 de abril de 2015

No meu estado, o Rio Grande do Norte, conhecido no Brasil quase apenas naqueles momentos de escândalo fantástico, de propinas e malversação de recursos públicos, isto é, com intervenção direta da mão humana, e no Brasil e no mundo quase tão somente pelos acidentes naturais, isto é, pelas paisagens realmente magníficas que a natureza dadivosa nos presenteou, isto é, sem nenhuma intervenção direta da mão humana nem esforço algum por parte do homem potiguar, têm-se falado muito em Alcaçuz e muito pouco da Biblioteca Câmara Cascudo.

Seria ingênuo acreditar que uma coisa implica diretamente na outra; ou seja, que a falta de livros nas estantes públicas, no recinto fechado e acolhedor das bibliotecas, por princípio sempre abertas ao público, termina na tentativa de se encerrar parte deste público no ambiente hostil das penitenciárias, por princípio e por força fechadas em si mesmas, mas, por inação ou inabilidade da mão humana, ou por corrupção e malversação dos recursos públicos, cada dia mais abertas para a fuga, para o terror.

É uma ideia não propriamente ingênua, mas simplista. Embora não seja inútil fazer aquele exercício de imaginação e pensar que muitos dos que tentamos hoje enclausurar entre os muros sujos de Alcaçuz tiveram suas infâncias negadas aos livros, papel que seria, em parte das bibliotecas públicas, como a Câmara Cascudo, e em parte do sistema educacional.

Esse é um raciocínio falacioso; basta pensarmos que muitos dos que efetivamente deveriam estar encerrados no sistema prisional, em Alcaçuz por exemplo, tiveram acesso livre aos livros, ao menos durante a infância, a adolescência e a juventude, e se hoje, em suas vidas adultas, ignoram as virtudes das páginas escritas, é por opção preferencial pela ignorância e o não saber.

Mas Alcaçuz nunca foi destinada a esse tipo de homem, que acostumamos a ver nos ambientes hígidos da sociedade, na varanda do restaurante da moda (no Rio Grande do Norte não passam de um ou dois), no cafezinho do shopping, na fila do banco, na direção dos jornais (em extinção, como no resto do mundo), nos corredores e nos plenários das câmaras e assembleias, e até estendemos a mão para saudá-lo, com vigor e satisfação, e mesmo com um certo orgulho que sempre traz a proximidade íntima do poder constituído.

Não, que ideia; Alcaçuz é para a patuleia, a plebe, ignara e ignorante, para os pretos de cor e situação, para quem recusamos o aperto de mão e desejamos a morte por justiçamento, e, na sua impossibilidade civilizatória, ao menos o exílio e o caldeirão do inferno eterno.

Do mesmo modo, a Câmara Cascudo não nos faz falta; temos a livraria do shopping, do mall (com dois eles), e o último livro do Piketty (com dois tês) para discutirmos com ardor na varanda de um dos dois restaurantes citados, enquanto nos lamentamos porque as bestas humanas estão fora e não dentro de Alcaçuz, e damos de ombros porque alguns coitados estão fora e não dentro da Biblioteca Câmara Cascudo, e passamos, entre um vinho e outro, a discutir se o Hub em São Gonçalo nos salvará a alma e o bolso.

Noves fora as ironias, igualmente falaciosas, restam dois fatos: a penitenciária de Alcaçuz está aberta, ou, aparentemente, abre-se, sempre que seus presos assim decidem. E a Câmara Cascudo continua fechada, há meses, há anos, há séculos, e isso não parece nem um pouco escandaloso nem nos provoca nenhum terror.

a falência de deus

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CG, no The Guardian 2.1.2010

Encontrar Charlotte Gainsbourg na padaria é sinal de que a vida ainda vale a pena e pouco importa se a expressão anterior leva crase ou não. Porque não é todo dia que o sujeito sai de casa e dá de cara com Charlotte Gainsbourg na fila do pão. Ou da baguette. Ou do croissant. It’s a long road, já diria o senhor que canta, embora ele prefira o caminho à estrada e ninguém tem nada com isso. Encontrar Charlotte Gainsbourg na padaria é sinal da onipresença de deus, sinal de que a trindade escreve torto com linhas retas, uma saia beirando o calcanhar, uma bolsa chanel provocando o cotovelo em ângulo estreito, uma boca estranha como só a boca estranha de Charlotte Gainsbourg permite-se exibir na feiura descontrolada à qual é negado o acesso às mais belas do lugar comum. Ah, meus senhores, não há como descrever a felicidade que é encontrar a senhora – senhora? Continuemos na ilusão desmedida – a senhorita Gainsbourg em meio à farinha e aos sucos e leites envoltos em tetra park. Uma camiseta branca com uma frase, dístico em inglês, do qual pouco recordo e pra ser sincero nem um resto de atenção concedi porque quando o amor é à primeira vista, agora, sim, crase, a linguagem dos olhos fala mais alto, grita, urra, berra, geme, morde, chupa, e calma, muita calma, ainda. Porque nos falamos em silêncio, como é dos amantes em público, amantes discretos, desde logo, desde sempre, e que – de indiscrições as redes sociais andam cheias. Mas voltemos à padaria espiritual que é encontrar Charlotte Gainsbourg enchendo a cestinha de – de quê mesmo? Não consegui desviar do caminho divino que vai dos olhos à boca quase desconhecendo o nariz mas, sim, a propósito, reconhecendo nos cabelos negros um conforto onde pousar os dedos, enroscando juras eternas de felicidade e anéis infinitos que vão durar até a morte. Que medo. Que medo de descobrir na cestinha coisinhas para um filho e, pior, para um marido. Ah que injustiça se a senhorita Gainsbourg voltasse para casa – da padaria para casa – e na sequência do rumor metálico das chaves viesse um sonoro boa noite, meu amor, a voz máscula do varão e os gritinhos infantis da criança em regozijo diante do doce de ovos e creme de leite que mamãe Charlotte trouxe da padaria após quase ser devorada pelo meu olhar apaixonado. Aí seria a prova, não da inexistência, mas da falência de deus.

 

hai kai

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

 

Matt Black, da série The Kingdom of Dust

by the way

o amor é sempre

uma primeira vez

Breve história de myself

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Jake LaMotta, Sugar Ray Robinson

Uma vez pensei que a solução seria ser ghost writer de mim mesmo.

Mas eu cobrava muito caro e não tinha como esconder que nunca poderia pagar.

Ao menos não essa exorbitância que me cobrava.

Resultado, me desentendi.

Fiquei assim, meio amuado, meio dividido, meio eu pra lá, meio eu pra cá.

Até o dia em que resolvi largar da ideia e escrever por conta própria sem o auxílio luxuoso de mim mesmo.

Andei lendo, escondido, sem que me visse, uma ou outra coisa que rascunhei.

Algumas eram tão boas de verdade que passei a limpo e tomei como minhas.

O resto, boa parte das páginas continuaram sendo escritas do lado de lá das cordas e findaram ainda melhores das que nunca escrevi da parte de cá.

Foi assim mesmo, concordei comigo quando me vi contando essa história num pedaço de papel bem parecido com esse, a letra tão igual.

Ainda assim, não me contive e ajuntei, à guisa de mensagem cifrada:

– Só nunca vou entender porque não perco essa mania de fingir que não sou eu.

Fingi que não me ouvia e segui adiante. Às vezes, quando olho pra trás, estou lá. No canto, nas cordas, tão fodido e roto e estropiado mas não o bastante pra não me enxergar lá na frente, os punhos erguidos para o alto.

Nunca perderei por WO.

 

Uma tristeza ensolarada

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A aventura, Antonioni, 1960

Eu estava na praia construindo castelos de areia quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Uma tristeza ensolarada.

Gosto de maresia.

Cheiro de caravelas tocadas pelo vento dos descobrimentos, os caminhos das Índias, as indiazinhas com suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas, na descrição do Pero Vaz.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, e até arriscaria dizer na lembrança daquele sábado, a lembrança daquele sábado, que tinha apenas entoado a nuvem passageira de Hermes Aquino, quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, e devo avisar que falava justamente sobre a abóbada celestial que por aqueles lados parece mais evidente na evidência visível de que a terra é redonda e o tédio, grande, quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

Eu estava na praia construindo castelos de areia, pensando na aventura do descobrimento, as grandes navegações, o mundo visto desde a lua, pequeno grande passo para o homem e a humanidade, tal.

– Quando me chegou a notícia da morte de Moacy Cirne.

O tempo não parou, as ondas não cessaram, o vento não mudou de direção, o sol não se fez mais ameno, ou mais tórrido. Nenhuma bandeira do fluminense apontou no horizonte. Nenhum calango correu célere no rumo das pedras vermelhas, negras e brancas contra o céu azul do início da tarde. Era sábado e a música daquele sábado, então.

Que estranho. Eu estava na praia e Moacy estava morto. A barba branca de Moacy estava morta. O tórax atarracado de Moacy não mais sentia os pulmões encherem e arquearem as costelas. Não haveria mais nenhuma explosão, nem BOOM, nem CRASH, nem UAU, nem ZZZZ, nem. Nem.

Não haveria mais a aventura de Monica Vitti em Lisca Bianca. Em Taormina. Em.

Depois, me diriam que Moacy estava vivo, que continua viva sua obra, seu legado, sua herança intelectual, tal.

Mas, que merda. Moacy continua morto, uma cova no semiárido, e o mar há muito varreu o castelo e todos seus infinitos grão de areia.

 

Cena urbana

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

 

Kafka, por Crumb

Só quando o cara voltou pro carro pra pegar um porrete e um facão percebi que a picape sambada estava parada sem motorista e era dele, do cara, que, pra efeitos de, digamos, narrativa, vamos chamar a partir de agora apenas de, o gordinho. Pois, o gordinho correu célere pra lata velha amassada de um vermelho encardido, abriu a porta e sacou lá de dentro um porrete e um facão, talvez pra desilusão da moçada que na calçada da banca de jornais já fazia suas apostas, agitadinhos que só eles, só esperando a tragédia, vai pegar um revólver, vai pegar um revólver. Não, não era um revólver, nem um trabuco, nem um três-oitão, nem uma Luger. Tá com uma porra fosse uma Luger, né? Menos. Era um porrete e um facão, já disse, embora eu mesmo não vi a segunda arma, mas os carinhas em volta da banca continuaram eufóricos e sim, me garantiram, era um facão desse tamanho. Então, o gordinho volta a descer do carro, armado das duas mãos, mas a turma do deixa-disso já tinha cercado a futura quase vítima, um magrinho de óculos e rabo-de-cavalo que pensei já ter visto antes, talvez num curso de dramaturgia em mil novecentos e, mas, não, acho que era só parecido, com aquele outro, do curso de dramaturgia em, na verdade dois mil e alguma coisa. O magrinho se agitou todinho embora calculasse bem, malandro, a própria força pra não vencer de vez os braços da turma do deixa-disso que o continham e corriam atrás dele, como uma onda numa arquibancada de futebol, um coro grego, todos unidos em uníssono parecendo que tangiam uma galinha anabolizada ou boi enfurecido, que o magrinho era exatamente isso, uma cruza de galinha com boi. Diante da cena, o gordinho se deu conta que já bastava aquela história e, acompanhado de um negro magro, alto e de bigode aparado, entrou no carro e partiu, desobstruindo o cruzamento. Atrás dele tinha uma Pajero de vidros escuros que continuou parada apreciando a confusão. Em todo esse tempo tinha uma menina que gritava sem parar e aparentemente acusava o magrinho de alguma coisa, vou te denunciar, vou te denunciar, ela repetia, e não sei dizer agora se disse um filho da puta ou escroto ou os dois ou não disse nada e só ficou gritando. Quando a picape vermelha partiu, carregando o gordinho e o negro de bigode aparado, o magrinho ficou ainda mais agitado e pedia pra anotarem a placa, o que fizeram, um, de memória, e outra, com o celular. A essa altura da confusão, os estudantes do colégio em frente já tinham saído em bando e até um professor ou bedel tinha vindo em socorro do magrinho dizendo que ele era do bem, que era bom aluno e tal, enquanto outra moça insistia que ele era de menor e ninguém podia encostar um dedo no infante. Um dos frequentadores da banca, que já tinha avisado a polícia, dizia o contrário, aquele é um bandido, um bandido. O fato é que, rebobinando a história, a história era outra, diferente das aparências vigentes no momento clímax do caos. Alguns minutos antes, o magrinho, de óculos e rabo-de-cavalo, tinha dado um soco em outro aluno, maior e mais forte, aparentemente sem motivo. O agredido não revidou e apenas soltou um que é isso, cara? mas o magrinho não contou conversa e começou a espancar o mais forte. Foi quando a mocinha começou a gritar e o gordinho e o de bigode aparado, que não vou mais chamar de negro senão me tomam por racista, vinham passando na picape aos pedaços e desceram do carro pra apartar a briga e se envolveram, eles também, na briga. Essa parte eu vi. Testemunha ocular, tal. O magrinho brigava com os dois, e o do bigode chegou a dar um tapa forte na cabeça sem que ele pestanejasse. O mais incrível é que, tirando as ameaças gritadas pela moça, escroto, escroto, vou te denunciar, tudo aconteceu quase em silêncio, num balé desencontrado entre os dois magrinhos, o preto e o branco, e o gordinho. O magrinho de bigode aparado não disse uma palavra e o magrinho de óculos não perdeu, pois, os óculos. Acho até que em algum instante ele levou o indicador ao rosto e colocou-os novamente no lugar. Mas disso eu não tenho certeza e posso estar só imaginando.

WHAT YOU SAY?

sábado, 26 de outubro de 2013

Hit The Ray, Charles

Volonté me telefona. Hora do almoço. Eu estava atacando um frango, não, em verdade era uma tilápia, não, na verdade eu não estava atacando nada, a fome nem era tão grande assim, e a tilápia, infelizmente, não se contorcia no prato, os filés de, qualquer coisa, são assim, carne morta, tal. Então. Volonté me telefona, sempre de um número diferente. Volonté é o cara que mais celulares tem na City. Nenhum dele, todos dos amigos. Que é que tem demais? Muito mais inteligente compartilhar o celular do que alimentar mal e porcamente a matilha de chineses trabalhando na escravidão moderna das fabriquetas. Divago, tergiverso. Volonté tem dessas coisas. Uma chamada de Volonté tem dessas coisas. Sempre um número diferente, todos desconhecidos, quase nenhum deles na minha agenda. Volonté tem amigos diversos. Fico feliz por não ser amigo dos amigos de Volonté. Nada contra. Feliz porque tem uma legião de amigos. Ou de caras que lhe emprestam, delicadamente, voluntariosamente, o celular. Pra me ligar. Volonté não abusa. Faz chamadas rápidas, mas sem pressa, um minuto, dois, três minutos duram. A fama de Volonté de poeta peripatético da City tem durado bem mais e é meio injusta e chata. Há um tom de galhofa com que a usam. Eu não gosto quando tiram onda com Volonté. Essa onda de poeta peripatético já foi. Volonté anda, caminha, sim, por toda a City. Por que não? Não tem carro, não polui as ruas, os becos, as avenidas. Qual a graça, então, de tirar onda porque o poeta deambula? Volonté é visto e se faz ver. Por toda parte. Nem deus é tão onipresente. E daí? Quando não é visto, Volonté se faz ouvir. Número tal. Desconhecido. Alô. E lá vem a voz de Volonté, ecoando não das tumbas mas do tal número desconhecido. Também meu número já se fez presença no celular de outrem, pra mim desconhecido, desconhecidos mútuos que se encontram na capacidade inata de Volonté pedir emprestado o aparelho, educadamente, sem abuso, já disse, e ligar, e dar notícia, e perguntar como estamos, e não marcar nada porque Volonté não é homem de encontros marcados. Alô. Aproveita e conta de mais um desafeto, às vezes é o mesmo da semana passada, quase sempre é  o mesmo do mês, ano passado. Volonté é homem fiel às desafeições. O que é justo. Os inimigos são eternos. Gli uomini offendono o per paura o per odio. Vou citar Machiavelli assim mesmo, no original. Volonté merece. Volonté merece tudo. Até esse prosaísmo besta de citar Machiavelli no original. Peripatético, o caralho! Volonté é o Príncipe dos mil números, ninguém tem mais celulares do que Volonté, Príncipe dos mil números. Ninguém anda mais pela City do que Volonté, Deus de si mesmo.

Volonté me telefona. Hora do almoço. Eu estava por aqui quando me meti a tergiversar, a divagar. Isso, de Volonté, telefona, Hora, almoço. Lá, eu, aboletado em cadeirinha de restaurante mezzo sofisticado, coração de Petrópolis, bairro sem coração, telefone toca. Alô. A voz de Deus. Gostou do sarau?, pergunta. Gostei, respondi animado, impossível não se animar diante da voz de Deus ecoando em número alheio, desconhecido. Ah, o ignóbil, ah o desconhecido, ah o coração das trevas nas trevas acesas do bairro mais sem coração da City. Não existe amor em Petrópolis, já falei? Pois estou dizendo agora. Nem as tilápias vicejam por aqui, nem as tilápias se contorcem, debatem diante do garfo impiedoso. Que chato. Carne morta. Servida no prato. Sem falar que a minha pedi ao molho suculento de maracujá e me servem uma outra ao molho de camarão. Cazzo, diria Machiavelli. Não existe amor em Petrópolis, nem fruit de la passion. Tem mas tá em falta. Alô. Desculpa, Deus. Por que não escreve algo sobre? Me pergunta. Deus. Número desconhecido. Estou tentando, Lord, ainda que você, ainda, não me tenha comprado a Mercedes Benz requisitada em ofício numerado, papel timbrado, tal. Então. Vai. Vai ou não vai falar sobre o sarau organizado por Volonté, noite dessas, no sebo de Ari? É uma pergunta, é a pergunta. Deus é assim, não oferece respostas mas faz perguntas, objetivas, simples, sinceras. Nem sei se é sebo, acho que não, o nome é Letra & Música, nenhum sebo usaria o &, ampersand, o nome dessa porra é ampersand. Abreviação gráfica para et. Surge et ambula, por exemplo. Surge et divaga, filho da puta. E o sarau? Não fiz a pergunta pra tilápia, adormecida em sono profundo sob massa escorrida de camarões. Tão minúsculos os camarões. Não existe amor em Petrópolis, quiçá grandes camarões. Fiz a pergunta pra mim mesmo, faço a pergunta pra mim mesmo, andei deambulando Petrópolis inteiro sem encontrar o amor mas isso é outra história, e a história aqui é Volonté que me telefona que me pergunta se gostei do sarau que diante da minha afirmação animada me pede que escreva algo que conte algo que narre enfim como foi o sarau lá no Letra & Música. Pois, foi assim.

Segunda-feira, o telefone toca. Volonté. Quarta-feira, hora dezoito. Aviso. Convite. O sarau era projeto antigo. Meses, talvez. Duas ou mais vezes cancelado e adiado. Salvo engano eram três os poetas homenageados, Adriano de Sousa, Napoleão de Paiva, outro que esqueço o nome ou muito me engano com o nome, tal. Eu apareço, hora dezenove que não sou homem de horários. Na entrada, Alex Nascimento. Era ele o terceiro homenageado? Juro que não sei. Mas era. Vai saber. Alex é quase meu namorado de infância, embora nossa distância seja de séculos e nossa intimidade dure eternos segundos cada vez. Mas, et, mais vale um segundo eterno na mão que anos de tédio banalizado entre quatro paredes. É por isso que nunca dividimos casa que isso não é papel para amantes genuínos que somos. Ele fica na dele, eu na minha. Nos abraçamos vez em quando, sem rancor porque não nos vimos nos últimos treze dias, mil e uma noites de amor, vendo estrelas caindo como na música de Jammil que fingimos não gostar. Ele na dele, eu na minha. Não vou negar que me senti traído, meu amante homenageado e nenhuma porra de telefonema pra me avisar? Podia ter pego emprestado um dos muitos de Volonté. Mas, não. Mas, tudo bem. Nosso amor se refaz imediatamente. Nem precisa ele me tomar pela mão e me levar até a namorada, que está lá pelo tal sarau, que, inclusive já começou, nos fundos da casa, um quintal maravilhoso, onde também repousam como plantas ornamentais o outro homenageado da noite, o Sr. Napoleão de Paiva, também Sousa, também de Alexandria, e outros tantos, et caterva como se diz por aí nas rodas cultas. Somos ao todo nove almas. Incluindo os músicos. E as plantas. Se é que as plantas têm alma. Acho que não. Nenhum vento as bole, nenhum deus as anima. As cervejas, casco verde, ocupam a mesa. Nos ocupamos das conversas, atualizadas, porque o tempo, porque quando nos vimos a última vez, quando nos veremos outra vez. Tal. Eu falei nove? Injustiça. Tem a décima. Deus. Volonté está por ali. Tão bêbado que me ignora. Injustiça. Não está mais bêbado do que eu, nem do que Deus, o verdadeiro, eternamente embriagado de anjos no Éden. Ensimesmado. Olhos baixos. Anda pra lá e pra cá. Marginal a si mesmo. Estamos todos acostumados a isso. Volonté nos ignora, pra que dele tenhamos atenção. Anda pra lá e pra cá. Vai comprar cerveja em algum boteco da vizinhança porque lhe proibiram beber no Letra & Música. Uma história que não vou contar aqui porque não. O sarau segue, o baile segue, sem dança, a música se arruma, se anima. Tem o sobrinho de Napoleão, acho que o nome é Pedro. Vergonha, não citar o nome na real. Custa ligar pra alguém pra checar o nome? Custa, não tô a fins, pode ser? Bom. Tem a namorada de Pedro, também. Nossa. A menina canta que é uma maravilha. Eu podia inventar uma expressão melhor pra edulcorar a pílula mas é por aí mesmo a menina canta que é uma maravilha ponto. Começa cantando uma música em espanhol e já manda ver, já diz a que veio. Segue o baile. Rola um Peninha mais pureza mais carinho mais calma mais alegria, rola um Bem que se quis e a velharia, incluso eu, fica uns três, cinco minutos tentando se lembrar quem cantava, quem? Quem? Marisa Monte, cazzo, porra. Ah a idade. Rolam outras canções porque as pedras assim não hão de criar limo e tals. Mas, quando, lá pras tantas, os cascos verdes se multiplicando geometricamente sobre a mesa de madeira, ensaia uma Billie Jean que redime Michael Jackson de qualquer idiotice que tenha feito na vida, ah. Ah. Ah. She was more like a beauty queen, from a movie scene… Billie Jean is not my lover. Pecado que eu não saiba o nome da moça pra ensaiar ter sido o primeiro a elogiá-la em público quando ela se apresentar no, no, no Carnegie Hall por exemplo? Insomma. Segue o baile. O casal manda ver, pede desculpas por não ter ensaiado mais músicas, alguém informa que ensaiaram um mês inteiro, o doido do poeta Volonté ia todos os dias, ou quase todos os dias, e cobrava e organizava e planejava o sarau. Que está pelo avesso. É quase como, não, não é quase como. É. Um grande evento pra dez almas, nove, porque um da plateia já se mandou. Restamos nós, os cascos verdes. O poeta. Pega um livro da sacola no chão. As aves, almas de rapina do meu namorado. Não. Alex Nascimento is not my lover. Não ouvi direito os versos. Qual teria sido? A voz de Volonté está quase inaudível, como sempre foi, como sempre é, anjo no Jardim do Éden, rouco, embargado. Infringente. Podia ter sido Et Cætera? Aspas. A primeira me deixou Porque eu era Botafogo, E ela, Flamengo. Aspas. Não. Não. Prefiro que seja, sim, Correio. Os créditos são de Nascimento, Alex, ano dois mil e um, o da Odisseia: Tenho toda uma vida Pra morrer. Resta-me A idade final Menos o que já vivi. E assim, entre créditos E débitos, finjo, Pensando que não notam. Claro Que dão risadas Às minhas costas. Meia história uma vez; Outra vez, mais meia história; E nunca parei pro óbvio: O somatório de meias verdades Jamais será uma verdade inteira. Se disser que Não te quero um centavo, Não te esqueço um minuto, Isso não é mentira, É um paradoxo, já que Não te odeio. Melhor admitir Que além de amor e ódio Há toxinas. Tão venenosas Quanto amor e ódio são. Ponto. Vamos pro parágrafo seguinte, não do poema, mas deste texto aqui que precisar respirar.

Os versos continuam. O baile segue. A página é a 55, 56, o livro ainda se encontra lá pela Fundação José Augusto, que o presidente então era Woden Madruga, o velho Madruga, como gostamos de chamar e arrumar um jeito, qualquer jeito, de inseri-Lo, outro Deus, na conversa, no texto, na descrição, narração do, sarau. Então. Segue, sublinho: Contorna-se quase tudo, menos o esplendor. Pronto, agora fudeu. Eis a essência do sarau, eis o motivo, se é preciso, das homenagens. Filho da puta, esse Alex. Ter um amigo que escreve assim, de verdade, nos deixa mais viados do que já somos. Nos amolece. Nos deixa lânguidos. Vou tatuar no cóccix, acima do, em verdade, se preciso em letras garrafais:

CONTORNA-SE QUASE TUDO, MENOS O ESPLENDOR.

Pronto. Momento boiolagem é finito, finitum est, voltemos ao sarau, que as cervejas verdejam sobre a mesa e o poeta Volonté está próximo de ir embora. Não antes de tocar uma música e outra, ao violão, as cordas de aço, coração de aço, o único coração com cordas de aço do bairro, já falei? Não, e deixa pra lá. Dedilha, então, o poeta Volonté, deus das pequenas coisas, Tempo perdido, sim, a música da Legião. Não a Legião do, aspas, meu nome, porque somos muitos, aspas, porque, aspas, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas, e ninguém o podia amansar, aspas. Tempo perdido, pois. Só instrumental. Os acordes inconfundíveis. E Napoleão de Sousa, de Paiva Sousa, vai e sozinho recita, pausa, a mulher proibida: essa música nostálgica é puro flagelo os acordes tangem a paixão como dedos que inventassem tocar piano em teclas feridas. sinto-me estrangeiro dentro de mim. Etc. E, mais pra frente, página 67 de Apenas Chegaram: ensina como me habilitar à tua boca me enredar nos teus músculos orquestrar teus movimentos cruzar gozos e espasmos e possuir a rosa louca do teu corpo – proibido. Ponto, finitum Napoleão. Segue o baile, agora mais animado. Nem falei que Ari trouxe castanhas e queijo de manteiga. Trouxe. Alex está entusiasmado com o queijo de manteiga. Volonté, também. Os olhos injetados. Nem falei que tocaram Na rua na praia na fazenda. Nem falei que tocaram Eu moro numa casinha de palha Que fica detrás da muralha Daquela serra acolá. Da primeira, lembraram que o Kid Abelha cantava. Eu lembro de Hyldon, cazzo, vamos nos originais. Da segunda, se perguntam se é invenção de Volonté. Eu sei que não, mas cadê a memória? Só agora me dou conta que é de Beto Guedes, do pai de Beto Guedes, tal. Ah. E nem falei que a mocinha cantou, ensaiou cantar, até que cantou mesmo uma do Rei, Ray Charles. Mas, por enquanto estamos no auge do sarau. E o auge do sarau é Volonté cantando Tempo perdido. Legião. A Legião. Enrola a letra, emboloa tudo. Castiga as cordas. Selvagem. Ouvir Volonté cantando Tempo perdido é experiência mística. Sacro amargo profano selvagem. Impossível descrever, impossível narrar o inenarrável, é um lamento, eterno grito, eterno desafino, Volonté parece que canta em seu próprio funeral, está mais vivo do que nunca, mais morto do que sempre. Sua voz é o epitáfio de si mesmo. Uma ode ao tempo, enquanto o tempo permanece em suspensão, e nem é ainda manhã, e nem as luzes estão acesas, e nem o som do violino de Pedro, será mesmo Pedro?, consegue aliviar a dor que convalesce e estiola, valei-me São Álvaro de Campos.

Sem mais. Mais nada a dizer. Mais nada a narrar. Apenas que, sim, a mocinha não apenas ensaiou cantar, mas chegou mesmo a cantar, Ray Charles: Hit the road, Jack, and don’t you come back no more, no more, no more, no more. Hit the road, Jack, and don’t you come back no more.

O que eu não sei dizer sobre o novo vídeo de Miley Cyrus

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Tratos à bola: Miley Ray Cyrus

A verdade é que eu não sei ainda o que dizer sobre o novo vídeo de Miley Cyrus.

E por que diabos eu deveria dizer algo sobre o novo vídeo de Miley Cyrus?

É porque Miley Cyrus é – ou era, sei lá – Hannah Montana, bebês.

E quem tem filha ali pelos 10, 12 anos, como eu, com certeza já viu a mocinha no seriado na tevê, no blockbuster do cinema, em 3D, em 4D, em 5G, no saco da pipoca, no brinquedinho do McDonald’s, na mochila da escola, no caderno dez matérias, na puta que o pariu, porra, Miley Cyrus, depois de só dançar, cantar e fingir que era uma adolescente normal por que cazzo você me aparece agora de calcinha branca e camisetinha (branca também, combinando, vamo combiná) montada numa bola de demolição, quebrando muros como um Roger “another brick in the wall” Waters – claro, muito mais gostosa que o Roger Waters que é um chato – enfim, porra Mileyzinha, e ainda por cima lambendo, quase chupando um martelo, caralho!?!

Tô me sentindo o Protógenes Queiroz assombrado com o ursinho Ted mas com a diferença que eu não sou tão imbecil feito o Protógenes e não levei meu filho de 10 anos pra assistir a um filme censura 16 e fiquei revoltadinho porque o bicho de pelúcia fumava maconha, falava palavrão e comia – olha que maravilha – entre outras beldades a filha do Ravi Shankar – como é mesmo o nome? – ah, sim, a Norah Jones.

Pois.

O vídeo de Miley Cyrus tá aí no youtube, no facebook, aposto que até a Ana Maria Braga vai passar pro papagaio dela lá assistir.

Minha filha tá viajando e eu não sei se ela já assistiu (e eu juro, tenho até vergonha de perguntar) ao novo vídeo de Miley Cyrus, esse aí que eu não sei ainda o que dizer sobre ele e tal.

Esse aí que já assisti umas cinco, seis, sete, vai, oito vezes pra escrever o que eu não sei escrever sobre o novo vídeo de Miley Cyrus que, nossa, cresceu a menina, hein, raspou o cabelo, fez umas tattoos, emagreceu mas numa magreza, poxa, de responsa, calçou umas botas de couro, botou calcinha – branca –, camisetinha – branca também –, esqueceu o sutiã, pra quê sutiã, né, e me deixou assim, sem saber como é que vai ser quando eu sentar no sofá ao lado da minha filha e passar o vídeo na tevê, eu vou comentar o quê, hein, eu vou dizer o quê?

– Que eu acho a Hannah Montana, agora, a maior gostosa?

– É.

Do que eu me lembro

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Kyma e Giulia, 2009 circa

Do que eu me lembro?

Da mão da minha mãe buscando, encontrando e apertando a minha, eu, que tinha acabado de ser pai. Uma sina, destino para a vida inteira, não importa o quanto dure essa vida, meio do caminho, fim.

Do que eu me lembro?

Do corpo de sua mãe, se contraindo em dor, a espinha dorsal, a peridural. E você. Não lembro do sangue, nem do cordão umbilical, nem de quaisquer vísceras, qualquer gemido, choro, lamento.

Lágrima.

Do que eu me lembro?

Dos seus olhos. Não ali, ao sair da maternidade, mas dos seus olhos, depois. Já em pé, o paninho branco nas mãos, o corpinho sentinela, vigilante, ao lado dos meus discos. Long plays. O sorriso na rede, adormecido. As bochechas rosadas, balançando.

Do que eu me lembro?

Do inverno europeu, que, de algum modo, assustou você, deixou durante anos, talvez, uma sombra no que e como você deveria falar, se expressar em língua materna ou em língua paterna.

Transoceânica. Pai e Mãe perdidos entre as vagas.

Do que eu me lembro?

De uma tarde – ou talvez fosse noite, ou mesmo manhã, não importa –, o elevador descendo vertiginosamente sete ou nove andares – não importa – e tão lentamente – não importa –, quando sua mão buscou, encontrou e apertou a minha, porque de algum modo inexplicável você sabia que faria tempo pra um reencontro. Por mais que os reencontros, então, já tardassem.

Do que eu me lembro?

Das suas tranças, o corpo magro, o verão tropical, as suas férias no país das maravilhas. Do nosso entendimento, silente, comum. Ainda que o mundo – qualquer mundo – só possa ser construído senão com palavras, nós dois construíamos então um mundo a partir das não palavras, do não dito, do que só podia ser expresso senão lado a lado. Eu e você, lado a lado.

Em silêncio.

O mundo pleno de silêncio, prenhe de palavras.

Do que eu me lembro?

De como você cresceu. E deixou pra trás vísceras, choro, maternidade, mãos – da mãe que encontravam as mãos do pai recém-empossado, da filha que buscavam as mãos do pai prestes a um novo exílio, desterro infinito –, e, para trás o verão tropical, as conchinhas à beira-mar, o silêncio de búzio, zumbido, cóclea, marulhar, por que, pai, as ondas não desligam nunca?

Marejar.

Nunca.

Do que eu me lembro?

De muita e de pouca coisa.

Porque esses vinte e dois anos passaram tão rápidos, tão fáceis e ligeiros, tão pesados e calados, tão intensos e vazios, que outros tantos viveria, ao seu lado, longe de você.

Porque esses vinte e dois anos duraram séculos. E não fazem sentido algum. Nem pra você, nem pra mim.

Porque há vinte e dois anos alcançamos a eternidade, sem nos dar conta que assim viveremos.

Pra sempre.

 

Saber/Não saber

segunda-feira, 18 de março de 2013

 

Alicé

Soube que escovou os dentes com a minha escova.

Soube que comprou dois livros de poesia, os mesmos que lemos juntos na cama.

Soube que pediu pra algumas pessoas que evitassem falar o meu nome.

Soube que evitou ir a lugares onde poderia me encontrar.

Soube que sonhou comigo.

Soube que sonhou comigo, mais de uma vez.

 

Soube que em alguns momentos me odiou com todas as forças.

Porque me odiou com todas as forças que só o amor tem.

 

Soube que viveu tudo aquilo que eu vivi enquanto nada sabíamos de nós dois.

 

E por isso, e talvez, nunca estivemos tão juntos enquanto estávamos tão separados.