Arquivos da seção ‘Crônicas’

De volta pra casa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

The sheltering sky, Bertolucci, 1990

Eu volto sempre mais estranha do que fui.

Não carece informar a autoria da frase acima. Fiquemos só com a própria, emblemática, por dizer.

É de uma dama, isso é seguro. Se fosse varão, o autor, diria mais estranho do que fui. E mais feia, também, seria a frase. Leiam:

Eu volto sempre mais estranho do que fui.

Sentiram a perda? As perdas? Falta élan, simpatia, charme, desassossego. Um macho ir e voltar estranho é de uma banalidade comum. A estranheza, nos homens, é antipática. Nada a fazer, nem a ver.

Agora, releiam:

Eu volto sempre mais estranha do que fui.

Sentiram o clima? O mistério? As gotas de Chanel No 5 evaporando, sutis, na curvinha macia do pescoço?

Pois.

Isso.

Uma mulher, quando volta mais estranha do que partiu, é porque muito lhe sucedeu entre o chegar ao destino e o retornar às origens. Encanto. Mistério. Prazer. Dor. Tipo: uma viagem a Xangai. Tipo: uma aventura na Martinica. Tipo: uma fazenda africana.

Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong.

Karen Blixen, A fazenda africana. Acima. Marguerite Duras, O amante. Abaixo.

Muito cedo em minha vida ficou tarde demais.

De propósito, não citei o Mekong na frase anterior – o exotismo não está no destino, mas na viagem, pois, interior. Vá lá. À flor da pele. Agora, sem mistério, nem distinção de gênero, quando volta-se, volta-se para aonde? Para casa. Sem mistério. Sem distinção de gênero. Mesmo jarro sobre o aparador. Mesmo canal na tevê, mesma disposição dos móveis na sala, mesma dobra do lençol na larga cama, quarto de dormir.

Pior ainda é quando se volta para ninguém. Casa vazia, exceção dos fantasmas.

Daí outro dia ter percebido uma obviedade: o ruim de morar sozinho é que não adianta nem ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar.

Ninguém daria conta da nossa ausência.

A medida do frio é o desejo de calor

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Nos Tristes Trópicos passar frio não chega a ser novidade.

Em Martins, RN, fazia um friozinho arretado quando eu era menino. Noite, então.

Também, e ainda menino, as matas de Garanhuns, PE, soltavam fumacinha pelas ventas quando eu e meu irmão saíamos pra flagrar o nascer do sol usando a velha Yashica do pai.

Embrenhando na adolescência, as ondas do Arpoador, Rio, RJ, eram altas, mas a água tinha cubos de gelo e agulhas espetavam nossos pés. O sol se punha por trás das montanhas. O chuveiro era a gás. Fósforos na ducha, chama no banheiro.

Mesma viagem e idade, os sanitários de Florianópolis, ilha, SC, eram tão gelados quanto o papel higiênico. A qualquer hora do dia, que as necessidades não têm horário.

Até no alto da duna de Genipabu, RN, muitos muitos invernos atrás, quando nem camelos nem dromedários balouçavam por lá, fazia um frio medonho. Enquanto a lua se esparramava no mar. Mas era uma gostosura enfiar os dedos por baixo da camisa da namorada e se aquecer em suas costelas quentes.

(São três, a propósito, os conselhos para enfrentar mais galhardamente o frio: 1. beijar na boca. 2. roçar os pés, os quatro, mas por baixo do cobertor, pra garantir. 3. enfiar os dedos por baixo da camisa dela e aquecê-los contando cada costela.)

De Goiânia, GO, a namorada, falei? Pois, tô falando. E não é à toa.

Noite dessas, noutro lugar que desta vez não revelo as coordenadas geográficas por pura vontade de não revelar, chovia. E alguém lembrou:

A chuva aproxima as pessoas.

Pois. O frio aproxima mais – ou ao menos mais intimamente. Já perceberam que basta soprar uma fresca que fica todo mundo orando por um cobertor de orelha? Um cobertor de orelha – dos bons – não se encontra assim fácil em qualquer esquina. Aliás, é remédio mais pra alma que pros ossos. O frio obriga – ou desculpa – dormir agarradinho. Abraçadinho. Apertadinho. Juntinho. Que tudo que envolve esse arrulhar amoroso é diminutivo. Carinhosinho.

Pois.

Daí a conclusão: a medida do frio é o desejo de calor. Então. Isso. Quanto mais se deseja calor, mais frio se sente.

Daí a sensação térmica não coincidir necessariamente com as latitudes. Eu, por exemplo: o extremo norte mais remoto que dei com os costados foi Estocolmo, SW (de Sweden, Suécia), inverno de mil e novecentos e.

Lá, certo dia, fomos pra floresta.

À beira da floresta tinha um lago. À beira do lago, árvores descomunais. Verdes, marrons. E um pierzinho, um trapiche, de madeira, num canto. Alguns metros atrás, uma cabana, também construída com madeira. E, dentro da cabana, uma sauna.

A idéia era se aquecer até não mais poder na sauna e disparar o corpo fumegante até o lago.

Assim, procedi.

Não se enganem: o frio não era na pele, nos músculos, nos ossos, no corpo. Era no cérebro. Milhões de dardos de gelo se enfiando por baixo do couro cabeludo e provocando uma dor de cabeça descomunal. Súbita.

Mas o que eu queria dizer era exatamente isso: não foi esse o maior frio. Não.

O maior, o mais gelado, o mais terrível, sobre o qual não havia forças nem casacos nem aquecedores nem fogo que desse jeito, foi durante o período em que percebi que a pessoa que estava ao meu lado, dormindo na mesma cama, já não me aquecia.

Nem eu a ela.

Convivendo com Seres Espaciais na Cordilheira dos Andes

quinta-feira, 22 de julho de 2010

David B. no filme de Nicolas R. The man who fell to earth, 1976

Talvez você estranhe este convite tão singular – começa assim o email que me caiu, dia desses, mui apropriadamente, na caixa de spam.

Singular.

Tudo bem. Na falta de cartinhas de amor, bilhetes suicidas, convites pra jantar, qualquer coisa a gente traça.

(Você deve estar muito mal quando sobrevive lendo spams. Feito cão fuçando lixo. Só um comentário. Entre parênteses. Voltemos ao dito:)

… mas, creia ou não, por você ser uma pessoa especial, livre pensadora e diferente das massas alienadas (e você sabe disso), estamos lhe convidando a participar dos estudos e prática de Ensinamentos com bases Científicas, relacionados com a evolução e o desenvolvimento da Mente Humana, que recebemos de Seres Espaciais Irmãos em missão de ajuda à Terra e à Humanidade.

Ufa. As últimas linhas são de tirar o fôlego. Mas. Primeiro: escrotinhos, os caras, sapecam três pretensos elogios encarrilhados e inda botam a cerejinha e você sabe disso pra adoçar a pílula e deixar o idiota salivando. Mas. Segundo: maravilha – onde eu assino a ficha de matrícula?

Não é bem um curso, mas um tal plano do mental, que me abrirá – prometem eles – uma infinidade de portas graças a igual número de forças adquiridas. Não informam em quanto tempo, nem prestações, mas a idéia é que, ao fim e ao cabo, eu me transforme em um autêntico mago branco.

Você será instruído com fundamento num vasto acervo de conhecimentos acumulado durante mais de 30 anos por Pólo Noel Atan, um brasileiro que conviveu com Seres Espaciais Irmãos na Cordilheira dos Andes…

Péra, péra. Um autêntico mago branco? Cordilheira dos Andes? Tirando Paulo Coelho e Harry Potter não existe nenhum autêntico mago branco. E com tanta Paris e Cancun no planeta, que danado foram fazer esses seres espaciais no frio dos Andes?

Tsc . Tô mais a fim não. Inda mais quando eles concluem:

Está surpreso por lhe conhecermos no mais íntimo do seu SER? E por estarmos lhe convidando justamente agora em que está mais necessitando? E como foi que o encontramos? Pois fique tranquilo, Irmão, e alegre-se, pois no Plano em que atuamos (Mental), não há segredos, limites, tempo e nem distâncias. . . tudo é possível e você terá as respostas no seu devido tempo!

Como diz uma quase-ex-amiga minha:

Ã-ham, Cláudia.

Acho que vou responder a outro email: um agente do FBI me escreveu – a mim! – informando que eu estava sendo investigado, nem lembro por que, e solicitou meus dados. Ao menos era de Washington D. C. e não de um vilarejo perdido nos Andes peruanos.

A gente precisa saber em quem confiar.

As melhores amizades

terça-feira, 20 de julho de 2010

Nunca na história deste país inventaram tantos dias comemorativos. É dia do rock, da mulher, da sogra, ainda hão de inventar o dia da compota em calda, de preferência em mês distinto daquele em que se festeja a uva-passa, pra não ter perigo de confundir. Hoje, por exemplo, criaram o dia do amigo. Hoje, não, mas suponho que dia desses, não lembro da data ano que passou. E só faz um ano.

Pois, isso.

Dia do amigo.

Hoje.

Não liguei pra nenhum deles, não porque não os tenha, simplesmente porque amigo, amigo, de verdade, é feito de silêncios mais que palavras.

E se o leitor, a leitora, já pensa em desistir de prosseguir leitura, temendo – com toda a razão – que venha um arrazoado de lugares-comuns e filosofia de banheiro de boteco às quatro e vinte e cinco da manhã, prometo esforçar-me para não seguir triste destino.

Já dizia o senhor Maquiavel que é preferível manter os amigos próximos e os inimigos mais próximos ainda. Não foi Maquiavel? Hum. Shakespeare? Oscar Wilde? Desisto. Enfim, qualquer um desses de fama mais antiga que a última Lady Gaga.

O fato é que é a pura verdade – se é que a verdade comunga com a pureza, acho que não, mas, vamos lá. Não há o que se preocupar com os amigos – eles estão aí pra isso mesmo: pra sumirmos durante dias, meses, décadas, e pra nos receber de braços e orelhas abertas quando retornamos, semanas, anos, séculos depois. Amigo que é amigo desconhece relógios e calendários – a não ser para se tornar, como os vinhos e o passar dos anos, ainda melhor, melhores amigos. (Minha santa pieguice entronizada: comparar vinho e amizade é de uma pobreza franciscana. Perdão. De coração.)

Já os inimigos, meninos, meninas, atentos, atentas a eles. A lógica é lógica, pois: evita-se, assim, as más surpresas. Ademais – péssimo esse ademais, mas vamos lá, digo, aqui: ademais, manter os inimigos pertinho é como ter uma academia de ginástica em casa – além de tonificar os músculos, nos mantemos sempre em forma. Etc. etc.

(Já os amigos – atenção, minha amigas, a esse parêntese – são como ter uma massagista em casa, sempre prontas a um gel nos pés cansados e um cafuné no couro cabeludo. Na metáfora ou na real.)

Outra besteirinha quando o assunto é amizade é a recomendação popular de que melhores amigos não fazem negócios. Seria, então, espécie de premissa para a arte da amizade, os tais negócios à parte. Sei não. Se o negócio se limitar à conta em mesa de bar, acho que é mais que justo. Até pagar a conta toda, que para isso existe, pois, dinheiro. E amigos, na ausência do numerário.

Aliás, amigo é uma coisa, amizade é outra. E com esta, concluímos a última metáfora desta noite esplendorosa, a noite do dia do amigo:

Amigo é um beco com incontáveis saídas. Amizade é uma avenida larga com mão, contramão e mil e uma conexões para todas as estradas, todos os destinos do mundo, onde sempre haverá um amigo nos esperando. Inda que afobado:

– Caralho, que demora da porra é essa!? Vai te fuder, próxima vez não espero mais.

E viva o dia da uva-passa.

Ainda domingo

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Quem não chora não mama, diz o ditado. E o bebê no colo da mãe.

Pois. Eu.

Tanto reclamei do domingo que pouco depois da hora regulamentar do meio do dia me cai dos céus sacra companhia para uma botelha de vinho que, logo, milagrosamente – sim, eu acredito em milagres –, converteu-se em duas e entrou pela noite, adentro, afora, com direito a uns comes também, que nem só de bebes vive o homem.

Mas andei especulando, inda, sobre as agruras do domingo. Que não são poucas.

Por exemplo, algumas considerações:

O domingo é a ressaca às avessas da segunda. Estilo de volta para o futuro, todo o sortilégio que o primeiro dia laboral da semana tem, como fama, é culpa do domingo precedente. É ele quem nos despeja em plena segunda-feira só o bagaço, restos, fadiga e desespero. Prova? Não há nada no imaginário popular contra as terças-feiras.

Em domingo não nasce flor. Verdade absoluta. Não há evidência científica do caso, na botânica, como não há vida em outros planetas, muito menos em Marte. E marcianos.

A única redenção para o domingo são os braços das amigas. Nenhuma alusão sexual à afirmativa, vos garanto. Até porque, como se verá mais abaixo, o domingo é assexuado. Mas as amizades, ao contrário dos amores, nos salvam, efetivamente. Também não há nenhum sexismo: enfatizo os braços das amigas porque, convenhamos, têm bem menos pêlos do que os dos amigos.

Domingo é a repartição pública da semana. Às moscas, pois. E, mesmo que lotadas, pois: excesso de burocracia, falta de atenção, zelo. Muito trabalho por nada. Pouco ócio por coisa alguma.

O domingo é mau-caráter. Já viu um domingo boa-pinta por aí? Ah, sim, claro que sim. Mas quem disse que boas-pintas têm bons caracteres? Então.

Domingo, uma pinóia. Isso.

Todo domingo é pardo. Não vou nem explicar. Entendam o que quiserem que o assunto cor é sempre pêlo no ovo.

Em domingo não crescem arco-íris. Variação para o Em domingo não nasce flor. Verdade, pois.

O domingo tem 12 horas. Todas terrivelmente iguais.

As noites de domingo têm pressa. Em se arrastar.

O domingo, todo ele, é um eufemismo.

Em domingo os amores fenecem.

As segundas são velórios, mas o enterro é no domingo. Mais uma assertiva comprovando a ressaca às avessas da segunda. Ou seja:

O domingo troca os pés pelas mãos.

Em domingo se perde jogo. Se prende o dedo na porta. Se esquece as chaves do lado de dentro.

Ninguém goza aos domingos. Domingo, nem punheta. Variação: Nóis sofre aos domingos, mas nóis não goza.

Em domingo não se lê Camões.

O domingo é um cão atropelado, uma mosca na sopa, pão dormido, saco de cola.

Em domingo não se usa camisa amarela. Nem calça listrada.

Por aí.

O culpado

domingo, 18 de julho de 2010

Domingo é o mais domingo dos dias. Fato. E fato antigo. Tem sido sempre assim, derna tempos, digamos, imemoriais. O sujeito (da oração – eu, tu, ele, e seus equivalentes plurais) acorda, quase sempre um tanto ou um tico mais tarde do que o costumeiro e permanece o resto do dia sem saber o que fazer, a não ser que já tenha se programado de véspera e encare, com a alegria incontida e idiota dos otimistas, um piquenique na praia, um passeio no bosque, uma lasanha gigante, um domingo no parque, roda gigante, sorvete e rosa como na música de Gil.

Domingo, também, e uma época, era dia de ler jornais, de botar em dia a semana impressa, diários, revistas, classificados. Como hoje quem normalmente lê, e ainda lê, já passa o dia-a-dia no computador, em tempo real e vida virtual, há pouco pra se atualizar e resumir. Adeus às páginas embaixo da rede. A rede agora é na tela plana, todo mundo sentado à escrivaninha, mesa, birô, encostando as costelas no espaldar, que, ao contrário da maca, só balança pra frente e pra trás.

Chato. Tudo muito escritório, pois. Como quem leva constantemente trabalho pra casa. E tome twitter, facebook, uol celebridades e demais congêneres, todo mundo à caça de uma luz para o fim do túnel em que nos enfiamos, cada dia – e domingo – mais solitários na multidão populosa de almas, corações e mentes.

Mas, muito embora as fronteiras se dissipem – entre os dias da semana, entre o trabalho e o ócio, entre real e virtual, público e privado – o domingo continua se destacando do resto dos dias. Encolhido entre as maravilhas do sábado e as desventuras da segunda, o domingo é de pouca monta, caso perdido. Antes mesmo de começar, o domingo já está terminando.

Quer beber? Existem poucas opções. E igual limitação nas companhias amigas. Todo mundo trabalha na segunda, até os desempregados. Quer comer? Os restaurantes estão lotados, assim como as salas de cinema e os shoppings, malls e outros templos modernos. Desconfio que até as missas se abarrotem de gente, em que pese a crise católica, apostólica, romana. É preciso mesmo muita reza e exorcismo para o dia mais quente, mais frio, do inferno.

O mais sorumbático dos dias, há uma melancolia eterna pairando nos ares dominicais. A mesma sensação que provávamos quando do último dia de férias, quando da véspera de uma prova difícil, quando da noite anterior a um exame de sangue ou à extração de um dente. Quando do fim de um amor. O domingo, não como o ciúme, não é a véspera do fracasso. É o próprio, assassino oculto da segunda-feira.

O beijo da vitória

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sorry, Carbonero, pra ajoelhar, só aos pés da Cruz

Segundo as folhas – as recentes, ainda na memória, pois as antigas, da semana passada pra trás, digamos, já caíram no esquecimento – existe, sim, um “o beijo da vitória”, com direito a esse título único, indivisível e tudo o mais.

“O”, artigo definido, “beijo”, é aquele pespegado pelo goleiro espanhol Iker Casillas na namorada, a repórter Sara Carbonero, diante das câmeras do mundo.

Eu não vi, que tenho mais o que fazer. Mas as notícias são que nem novela: a gente não assiste mas finda sabendo tudo.

Casillas não é nenhum Georgito Clooney, acho eu, mas quem sou eu pra achar qualquer coisa em relação a homem-bonito. Enfim. Ponto. As damas podem opinar com mais Razão e Sensibilidade. Já Carbonero, bueno, Carbonero é lindinha sim, embora injustos os espanhóis quando lhe passaram o título de “nova namorada da Espanha”, espécie quando a “velha” é a – besos, besos, besos – Penélope Cruz.

Parêntese: eu sou mais Nuestra Señora de la Cruz, muito embora, confesso, arrasto uma de minhas duas asas, também, para sua conterrânea Paz Vega.

Títulos e preferências à parte, Cruz, Vega, Carbonero, o que chama atenção no tal “o beijo da vitória” são as reações do meio onde atua a repórter. “Isso é um exemplo de má conservação dos valores do bom jornalismo televisivo”, julgou o presidente da Associação Espanhola de Imprensa, um certo Fernando González, tão lugar-comum em sua análise quanto o lugar-comum do seu nome em se tratando de um hispânico.

Joder, tío: o tal bom jornalismo televisivo (e símiles) há muito foi substituído pelo jornalismo de celebridades e besteirol reinante, basta uma espiada em qualquer jornal e, ou, portal eletrônico do mundo hodierno, incluso aí aqueles ditos mais sérios. Culpa da demanda – o povo quer circo, em primeiro lugar, pão, em segundo, e questionar a própria sociedade onde se insere, em último, lá na rabeira.

Como a indústria do entretenimento – dos romances de Jane Austen (na virada do século 18 para o 19) às novelas latino-americanas (que resistem ao 21), passando pelo cinemão hollywoodiano (cujo apogeu aconteceu no 20) – há muito vem dando sinais de cansaço, o jeito foi não apenas beber na fonte original de histórias mais ou menos reais, como exibi-la em sua forma mais atrativa: as fontes são cada dia mais cantantes, dançantes, luminosas, feéricas, espalhafatosas, pois. Os reality shows, surgidos há mais de década, encabeçam a onda.

Daí os peitos tonitruantes de Larissa Riquelme, que nem na África estava. E outro dia já pousava no estúdio de Renan Rêgo, em Sampa, para uma campanha para uma marca esportiva chamada Los Dos (nada a ver, digo, tudo a ver com o par de atributos que rendeu fama – e, auguro, fortuna – a miss Riquelme).

Por exemplo. Um par de exemplos.

*

Me perdi um pouco nos dois últimos parágrafos, mas prometo me corrigir:

… então, daí que “O beijo” entre o golquíper e a jornalista me transportou para uma época em que ainda eram castos – como quase tudo o mais – esses ósculos enamorados. Podiam ser entrevistos em Casablanca, o clássico celulóide onde, mais que se via, se ouvia a tentativa de explicação – “a kiss is just a kiss”, dito, dístico, epígrafe e epitáfio, datado 1942. Juro não lembrar se Bogart beijava, efetivamente, Ingrid Bergman. Sei que rolava um triangulozinho amoroso e besta e a moça partia deixando o varão no início de uma nova amizade com um capitão de polícia, o que inspiraria, depois, filmes como Brokeback mountain e outras frescurites.

Se a Deborah Kerr que o Burt Lancaster

As colinas de Hollywood ainda esperariam uma década para mandar pras telas uma relação extraconjugal indo, finalmente, pros finalmente – cena clássica e, para a época, “tórrida”: as bocas, lábios, peitos, braços, abraços, pernas e o maiô de Deborah Kerr e o sungão de Burt Lancaster, em A um passo da eternidade, mais um clássico, ufa, de 1953.

Mas aí ainda estamos no terreno da fiction. E ainda não estamos no terreno dos paparazzi, isto é, as celebridades. Mas, os fotógrafos, claro, todos uns filhos de uma mãe, já estavam à espreita. Um deles, Alfred Eisenstaedt, passeava pela Times Square, NYC, 14 de agosto de 1945, o dia em que o Japão se rendeu aos americanos e o povo saiu às ruas para comemorar. Um marinheiro flanava por ali e tascou um beijo numa enfermeira. Imaginem só: um militar, à serviço da guerra, agarrando uma enfermeira, à serviço dos feridos pela guerra. A foto se tornou, com justiça, clássica – que o mundo, senão o passado, é feito de clássicos.

A enfermeira morreu dia destes, velhinha, claro. A identidade do marinheiro nunca se comprovou – meia dúzia de marmanjos se declaram beijoqueiros, nenhum deles comprovado.

Moral da história? Os valores do bom jornalismo há muito foram pras cucuias, señor Gonzalez. Aliás, não apenas do bom ou mau jornalismo. A enfermeira, Edith Shain, passou 25 anos antes de assumir que era ela a moça da foto. “Os tempos eram outros”, se justificou. Não ficava bem ficar se beijando na rua com desconhecidos. Muito menos com conhecidos.

War, Love

terça-feira, 13 de julho de 2010


Um dia eu não tive um cachorro chamado Zé. Ele apareceu lá na fazenda onde eu morava numa tentativa tardia de ser uma Karen Blixen mais que um Raduan Nassar, coisa e tal.

Zé, quando ainda não tinha nome, já não tinha uma pata. Apareceu assim, na curva da estrada, próximo ao confim. Estava assustado e pensei que poderia nos morder.

Nem lembro como, levamos ele, que ficou num galpão sem portas. Amarradinho.

Água, ração, palavras carinhosas.

Ainda não tapinhas nas costas que não era hora. Como todo cão, Zé tinha dentes.

Prometi – mais a mim que a ele – que no outro dia o levaria à veterinária, que já cuidava dos outros cães. O cotoco fantasma seria tratado, supurado, anestesiado, essas coisas necessárias, fim.

Dei-lhe, pois, o nome Zé.

Eu queria ter um cão chamado Zé, está certo, um vira-lata aleijão tristemente abandonado numa encruzilhada agreste, mourão, confins, Zé. Tudo muito óbvio e simpático. Eu devia estar muito orgulhoso disso. Ah, o ser humano: quando quer se bom não dá ponto sem nó. Quem sabe eu acreditava na ressurreição da carne e na vida eterna celestial. E esperava que São Pedro me recebesse, além estrelas, de portões e braços abertos. Dispensaria até as chaves pra eu entrar e sair sem dar satisfação alguma. De que vale o Céu se não é free?

Não digo que sonhei com isso. São meras suposições.

Mas, no outro dia, talvez no café da manhã, o empregado veio dizer que Zé fugiu.

Eu achei que poderia dar uma vida melhor a Zé. Acho que ele não acreditou muito nisso. Não.

Talvez, com razão.

Lhe faltava uma pata. Não lhe faltava um dono. De que vale o Céu sem liberdade?

Destempero

sexta-feira, 9 de julho de 2010

The fallen angels explores the landscape of hell, Gustave Doré

Vez em quando a gente precisa treinar umas ruindades. Pra não perder a prática. Pra não sucumbir e se afogar na poça rasa do romantismo, que o mundo é um poço sem fundo de rancor e ódio, som e fúria. Um Oceano, a bem da verdade. Muito pouco Pacífico, muito mais Atlântico.

Tão vendo? Basta um pé pro sujeito cair no discurso ramerrento e poético, que o amor & outras migalhas já vêm logo querendo a mão, o braço, os anéis, os dedos, não necessariamente nesta ordem.

Que mané, Atlântico e Pacífico, que nada, bebês. Fodam-se as metáforas e as figurinhas de linguagem. Tá com medo, por que veio? Tá com medo, quem mandou se meter a escrever?

Também, claro, não precisa ser mau o bastante pra desossar a princesa encantada e encher o bucho dos perros, mas tampouco basta deixar a barba crescer, dois, três, dias, ou destapar a boca quando falar putaquepariu, pra parecer bad boy feito um Kaká de meia-tigela – o que, convenhamos, é redundância.

Então, combinemos: Lautréamont só na prateleira ou refestelado na poltrona à meia-luz, harmonizado (pra usar o linguajar erudito dos connaisseurs) com um absinto D.O.C. Nem tanto ao Bruno nem tanto ao cordeiro de deus nos gramados do mundo. Um Felipe Melo tá de bom tamanho. Quem nunca enfiou – ou teve vontade de – o pé na canela alheia, pois?

e

Todo mundo com cara de paisagem, aposto. Só se ouve o coaxar dos grilos, digo, o cantar. Claro que ninguém assume. Ninguém quer ser ruim de verdade, embora o seja, de verdade também. Em maior ou menor grau, de tirar catota do nariz a desejar e augurar que o outro morra.

Eu mesmo, for example, dia desses fui tomado de assalto por uma frase mais ou menos assim:

Se inventarem coisa melhor do que mulher, não me avisem: sou antigo e fiel às tradições.

É um pensamento que, tenho certeza, passa pela cabeça de 11 entre 10 homens – me refiro àqueles que gostam, efetivamente (tudo bem: afetivamente, também) de mulher.

Mas aí tem essa coisa da coisa. Coisa feia comparar mulher com uma coisa, né não? Além do mais fica essa impressão de pouco confiável e fiel, e excessivamente volúvel.

Pois é. Vai saber quem é o autor da frase. Da minha parte, digo e reafirmo: só pode ter sido o anjozinho ruim que me soprou-a no ouvido. Ah, moleque.

El Rey

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A cada quatro anos eu aprendo um pouco de futebol para desaprender nos próximos quatro.

A cada quatro anos eu curto um pouco do tal “esporte bretão”, vibro com os passes, lances, jogadas, que não sei bem nominar, arrisco até um “goooool” (com alguns “ooos” a menos), me levanto, ergo os braços, o que é um perigo com um copo na mão etc., como qualquer patriota etc., para descurtir totalmente nos anos seguintes. Etc.

(Só não me peçam pra vestir camisa da seleção nem botar bandeirinha no automóvel. Também não solto rojão.)

Ou seja, é mais fácil eu virar motorista de táxi do que ser técnico de futebol ou viciado em arquibancada e, ou, mesas redondas. O que dá no mesmo. Sou inútil, pois, pras coisas do futebol.

Mas hoje, exatamente hoje, é a copa d’África, o ano é 2010, já sei a diferença de uma vuvuzela para uma jabulani, aprendi – e espero que pra sempre – que a zaga é a defesa, não confundo mais o nome do goleiro da seleção brasileira (Júlio César, verdade?) embora não saiba quem são Nilmar e Neymar e qual dos dois está em campo ou no banco de reservas e qual em casa diante da tevê como qualquer mortal.

Uma coisa é certa: meio que sem querer-querendo, como Chapolin Colorado, me descobri torcendo pela Argentina. E a culpa não foi de nenhuma porteña, me apresso em explicar. A culpa, se culpa há, é de Maradona.

De tanto ouvir falar mal do baixinho, terminei me afeiçoando a ele. É meu apreço a quem desceu aos umbrais do Inferno sem necessariamente usar a escada rolante ou o elevador. Maradona reconheceu a queda e se levantou. Sacudindo o pó, claro. Chato, arrogante, metido, até onde sei fez por onde receber e exibir os adjetivos. Em Nápoles, na Itália, é um santo protetor, quase tão milagreiro quanto San Gennaro. Diz-se que o sangue seco de Gennaro, guardado numa ampola, se liquefaz, uma ou duas vezes ao ano – quando não, alguma merda vai acontecer. Pois, Don Diego Maradona sucumbiu a quase todos exames antidoping e realizou o milagre à sua maneira, derramando o sangue bom na cara dos fãs e o leite mal na cara dos caretas.

Assistir a el pibe rondar o campo como um cão raivoso e cristão é o maior espetáculo desta Copa. O paletó se estreita perigosamente na altura das axilas onde enfia as mãos, se fazendo mais troncudo e atarracado. A barba entre o preto e o branco, o terço envolvendo o punho, o olhar atento, tudo soma para transformar o personagem na reencarnação de um capo mafioso de velha e fina estampa. Cada jogador que é substituído – todos mais altos que o técnico – recebe um ósculo na face seguido de um tapinha nas nádegas. Tudo muito paternal, diga-se. The Godfather, versão 11 prum lado 11 pro outro – e o 23o nas ribeyras da campina, doido pra invadir o gramado e marcar o seu. A FIFA entendeu isso e nenhum técnico tem mais atenção das câmeras do que o argentino, espetáculo ambulante, solitário e único diante da falta de grandes jogadas em campo.

Um pelé.