Se hoje você estivesse em meus braços

31 de julho de 2010

Il fiore delle mille e una notte, Pasolini, 1974

Comecei a escrever um troço com esse título umas três vezes. Copiei, colei, cortei, aqui, ali. Ficou uma bosta. Com o perdão da palavra. Aliás. Bosta é uma das palavras mais injustiçadas da língua portuguesa. Talvez a mais espontânea. Tem um quê de antiguidade, também. Ninguém mais diz bosta, penso. O povo prefere dizer merda. Que merda. Isto. Aquilo. Tal. Bosta é do meu tempo de menino. Adolescente. Pois. É isso. Vamos mudar de parágrafo.

Eu contava que tentava escrever um texto (falei “troço”, olha que sacanagem) com ares de amor romântico. “Se-hoje-você-estivesse-em-meus-braços” blá-blá-blá. Quer mais romântico do que isso?

A frase, condicional, me veio noite dessas, quando convidei uma moça pra sair e ela não me deu resposta. Ou me deu, nem lembro mais, mas assim, meio blasé. Ah, não dá, tal. Aí pensei com meus botões, ah, se hoje você estivesse em meus braços, tal. O que eu queria era isso mesmo, beijá-la, abraçá-la, aninhá-la em meus braços. Mas as meninas, parece, não querem mais ser beijadas, abraçadas, aninhadas, então, nem falar. Eu também, quase não uso botões.

Então. O mundo está virando um lugar impróprio para se viver, penso. Ao menos viver romanticamente. Daí a bosta toda do primeiro parágrafo e a dificuldade de destilar um textinho com ares sublimes, água com açúcar, flor de laranjeira.

Acontecem coisas boas também, inegável. Essa mesma menina, a encontrei, puro caso e acaso, beira-mar, o sol despencando lá por trás dos picos, o mar se tingindo de prata. O povo tava fumando um lá em cima, e eu, bebendo sangria desde as duas da tarde. Ela, na areia, embaixo. Tem um pescoço lindo, a menina. Molhou os pés na água do mar. Quando eu desci pro banheiro, ela estava lá. Quase não nos cumprimentamos. Eu não sabia quem era ela, direito. Nem sei o que ela sabe de mim. Eu, que sou eu, não sei, imagina ela. Mas não importa. O que importa, nesses encontros, é o olhar. Dura dois segundos, não mais, mas vale uma eternidade enquanto dura.

Uns dias depois, a vi num bar. Noite. Ela tava indo embora. Vestidinho preto. Linda. Eu fui atrás dela, literalmente atrás dela. Toquei com a ponta dos dedos a parte nua de suas costas, um certo receio. Não sou bom nessas coisas. Ela se virou como se tivesse visto a mão incerta tateando o ar antes de alcançar o seu breve instante de nudez. Eu perguntei, você é você mesma. Assim, um sinal do interrogação camuflado em exclamação ou reticências no final. Ela disse, eu sou algumas. Acho que foi isso, ela pode confirmar. Eu pedi pra ela ficar, eu estou sempre pedindo pra ela ficar. Mas ela está sempre indo embora. E falou, não posso, tenho que ir. Ela estava acompanhada, vou fazer o quê? Não, não era o namorado dela, penso. Enfim.

Esqueçam os nomes impróprios do primeiro parágrafo. Eu queria escrever um texto que dissesse, se hoje você estivesse em meus braços. Não foi hoje, quem sabe amanhã.

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