Saudade e distâncias

1 de julho de 2012

Ulisse Aldrovandi, Monstrorum historia, 1698

–  Saudade é um bicho que se alimenta de distâncias.

Pensei, cá com meus botões. Ou com o único que desponta meio-palmo abaixo do imbigo. Pretensas crônicas sempre têm pretensos cronistas burilando esses tais botões – da blusa, da camisa, do cós da calça, tal – mas.

Voltemos à saudade. Bicho-faminto, bicho-tinhoso, bicho-arisco. Bicho-bicho. Recusa afagos e compreensões. Recusa terminantemente o cativeiro.

Não se enjaula a saudade. Não se engaiola a dita cuja, que recusa o canto gratuito e não se deixa comprar com qualquer alpiste.

Saudade não se deixa apanhar.

É sereia escapando ferida do tresmalho.

É harpia debatendo-se entre rochedos esfumaçados, sombra da sombra da sombra da Madonna delle rocce pintada por Da Vinci.

É jaguadarte. Jabberwocky. Mungojerrie. Axolotl. Spaventosa vendetta di un animale domestico.

A saudade é um monstro – ainda não entenderam? É isso que quero dizer quando digo bicho.

Escrevo bicho, penso monstro.

Porque sonhei.

Em verdade, em verdade, vos digo, amanheceu chovendo e amanheci sonhando.

Isso foi outro dia mas vale por hoje.

Sonhos estranhos como é da própria natureza.

Um quê de fantascienza, science fiction, literatura fantástica – um animal estranho, entre baleia e foca e leão-marinho, fêmea, pairando no ar.

Pairava no ar, o tal animal, o bicho, o monstro.

Como um dirigível. Uma imensa nave espacial. Um Alien à espera de predação.

Sei que era fêmea – pois as fêmeas são como os anjos, mais terríveis quando à caça.

Sei que se alimentava de distâncias. E crescia, e se agigantava, com elas.

–  Saudade é não saber direito onde estão os lugares das coisas do mundo.

Pensei. Desta vez sem botões. Quase em maiúsculas.

Saudade é banzo, banzo é – o senhor Houaiss: “processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado inicial de forte excitação, seguidos de ímpetos de destruição e depois de uma nostalgia profunda, que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura ou à morte.”

Grifos todos meus. Ninguém tasca, grifei primeiro.

O animal, pairava no ar. Aguardava pacientemente (os olhinhos quase fechados, como se ruminasse a escuridão) a inanição, a loucura, a morte. Alheias.

Se alimentava de distâncias.

E, ao devorá-las, terminava por encurtá-las.

Até sumir.

Ou despertar.

3 Já Comentaram para “Saudade e distâncias”

  1. soraia disse:

    uma lâmpada que se recusa a apagar no meio da noite, uma grande saudade. lindo! tudo de bom prá você, com ou sem melancolia ou nostalgia. bjs

  2. Patricia disse:

    saudade do que não vivo | eu tenho

  3. Aina disse:

    distância de quem parte
    saudade de quem fica
    sonho de quem volta

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