Salinger para adolescentes

4 de fevereiro de 2010

Hoje eu tô com a gota serena no The New York Times. Quem vê assim pode até supor que eu manjo um inglês danado.

Mas, nada. Dei de cara com uns papos sobre o fu J. D. Salinger e achei bom.

Pra começo de conversa, mandaram uma repórter lá pras brenhas onde se escondia o escritor (Cornish, em New Hampshire, já pertinho do Canadá, e que tem umas pontes cobertas como aquelas de Madison, do filme As ponte de Madison, quando Meryl Streep passa quatro dias inesquecíveis com Clint Eastwood mas não tem coragem de abandonar a família).

Enfim, mas eu falava sobre Cornish.

E, bom, os vizinhos de Jerry negaram que ele fosse um tipo recluso. Recluso, um cara que chegava cedo na igreja, que não se negava a um bom dia enquanto comprava os jornais na mercearia, que chegou a escrever um bilhete de agradecimento aos bombeiros que salvaram, uma vez, seus escritos de um incêndio?

Tsc.

A população respeitava o cara e pronto.

Ao ponto de dar indicações erradas aos chatos que procuravam saber onde era sua casa. Teve um que falou assim:

Mr. Salinger era como o Batman – todo mundo sabe que ele existe e onde fica a bat-caverna, mas ninguém vai dizer onde.

*

Depois, lá pelas páginas virtuais do NYT tá rolando também um fórum com uma turma legal, instigados pela dupla pergunta:

O apanhador no campo de centeio ainda tem sentido para os adolescentes de hoje? O tipo alienado encarnado por Holden Caulfield tem algo a dizer para a geração conectada ao facebook?

Gostei da resposta-comentário de Anastasia Goodstein, fundadora e editora-chefe de Ypulse, um sítio para e sobre adolescentes e jovens adultos.

Segue, abaixo, em mais uma traição, free, do sobrescrito relembrando seus tempos de Pink and Blue.

Quando fui convidada a comentar O apanhador no campo de centeio para este fórum, fiz o que faria a maioria dos adolescentes de hoje – dei uma googleada sobre o livro e li a wikipédia. Como a maioria da minha geração, li o livro na escola. Mas eu me lembrava apenas vagamente do enredo. O que eu lembrava de verdade era que Holden Caulfield era um perdedor, um rebelde.

O romance de Salinger deveria repercutir bem no mundo da internet onde as confissões estão por toda parte. Mas a geração atual tem se mostrado exatamente o oposto do personagem – com mais espírito de equipe, colaborativa e mais próxima aos seus pais que as gerações passadas. Mesmo assim, sempre que se cresce, existe um elemento de isolamento auto-imposto, que também pode ser visto nos adolescentes de hoje. E é claro que estes estereótipos, quando aplicados para uma inteira geração, são apenas generalizações. As exceções existem sempre, e sempre existirão aqueles rebeldes que serão atingidos pelo livro em um nível mais profundo.

Holden vagava pelas ruas de Nova Iorque em completa solidão, enquanto os adolescentes de hoje, sempre conectados à rede, nunca estão realmente sozinhos.

A internet e os celulares permitem que eles se mantenham conectados com seus amigos 24 horas por dia, sete dias na semana. Até os perdedores de hoje podem encontrar companhia on-line em fóruns anônimos, permitindo-lhes fugir da ordem social da escola através da criação de um avatar em um mundo virtual ou num jogo.

Além disso, estamos vivendo em uma cultura confessional, saturada pelos reality shows, e compartilhar os próprios sentimentos com um público invisível tornou-se a norma através do twitter, facebook etc. Por isso, o texto de Salinger, na primeira pessoa, deveria ecoar muito bem nos leitores de um mundo onde as confissões estão em toda parte. Talvez uma pergunta interessante para refletir seja o que faria Holden Caulfield se ele fosse um adolescente hoje? [Anastasia Goodstein]

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