Riot days

12 de agosto de 2011

Kerajaan Rakyat Photos

Vamulá, sem essa de inspiração e ou transpiração. Vou me obrigar a escrever algo. Dispenso a seqüência natural “que preste”. Vou escrever porque senão né? a gente entra num marasmo, espiral do desencanto e é preciso reagir. Também deixemos de lado os diários de adolescente tardio e o rosa-bebê dos consultórios sentimentais. Nada de autobiografias em pílulas. Nem tatibitates. Há de se proceder mais ou menos como os londrinos nos últimos três dias que abalaram as jóias das coroas – mais aquelas das vitrines chiques: pegar com a mão nua uma pedra, seixo rolado, paralelepípedo, e tascar na primeira vidraça que encontrar pela frente, de preferência com algo de valia ou serventia pra enfiar no bolso, com a outra das mãos, que por enquanto são sempre no máximo duas, e sebo nas canelas, porque, sim, sou antigo, de quando pra correr muito se ensebava os cambitos. Pique.

Ponto.

Pronto.

Isso eu escrevi outro dia. Acho que no início da semana. Que, em se tratando desta, passou como uma nuvem em formato de gafanhoto, carneirinho ou elefantinho pelos céus plúmbeos. O gafanhoto, o carneirinho, o elefantinho entraram aqui tão gratuitamente quanto o plúmbeo pintando o céu. Quer dizer, tava no plural, mas tudo bem.

Tudo bem.

Escrever é um troço complicado. A gente passa o tempo escrevendo para os outros, a pagamento, que esquece – ou cansa – de escrever pra nós mesmos. Casa de ferreiro, espeto de pau, reza o dito. Tarde dessas estive com Dom Augusto Lula e Walter Carvalho num hotelzinho à beira-mar, Via Costeira. O céu, tarde, também estava pra lá de plúmbeo e o Imperador Augusto queria ouvir de Carvalho suas histórias quando da filmagem de Boi de prata, o único, talvez, clássico potyguar. De um cinema que não houve e nunca será e tal. Walter tinha esquecido quase tudo do filme – mas não das filmagens. Queria revê-lo. Não existem cópias disponíveis. Não gravamos e ele danou-se a falar. O bom de Walter Carvalho é que ele fala muito mais dos diretores que admira do que de si próprio. Não vou me alongar sobre a conversa, que rendeu horas, enquanto o Brasil apanhava da Alemanha no LCD do restaurante. Carvalho esteve em Budapeste, pra filmar o homônimo de Chico Buarque. A história de um ghost writer que tem duas histórias, dois países, duas vidas, duas mulheres. Aquele papo do doppelgänger. E contou sobre as locações, de como encontrou na cidade a estátua ao escritor anônimo, o que, imagino, resume um país de leitores.

E mais não falo porque não tô a fim.

Invés, vou pegando umas anotações que fiz no celular – coisas assim:

Que mundo é esse que você inventou para que eu me perdesse?

A fala, penso, deve ser de Nicole K em Moulin Rouge. O filme não é lá esses baratos todos, mas tem umas frasezinhas, umas sacadinhas, umas coisinhas, enfim, geniais. Tipo:

The greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return.

Tá.

Acho justo.

Hoje. Hoje recebi uma carta da minha caçula. Começava assim (no cabeçalho, “meu querido papai”, em letra caprichada e tinta azul):

Pai, tem amo do fundo do meu coração.

E terminava assim:

Beijos, te amo, tanto, tanto, mil tantos.

Mil tantos.

Fundo do meu coração.

Querem que eu comente? Não, não vou comentar.

Outro dia (estamos no terreno da tal escrita espontânea, o que vier na cabeça), o senhor me apontou a porta aberta no fundo do corredor. No fundo do túnel tem uma luz, disse, sorrindo. No fundo do poço, também, devolvi o sorriso.

Isso foi outro dia. Hoje, depois da festinha do papai, fomos ao velho e clássico McDonald’s. A mocinha do drive thru tomou um susto quando me viu. Parece aquele cantor, e cortou a frase ao meio – ou no começo ou no fim, sei lá. Que cantor? (eu, curioso). Aquele, que canta em Recife – e citou título de música de gosto na mira certeira do duvidoso e ambíguo. Isso é bom ou ruim? (eu, no jogo). Ele é presença. Falou. É bom, é bom. Concluiu. E me devolveu o cartão e o comprovante.

A conta deu quarenta e sete e alguma coisa.

A comida foi entregue no guichê seguinte.

O bonequinho azul do Smurf, também.

4 Já Comentaram para “Riot days”

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  2. Adoooooro essa sua verve “abusada” de transformar qualquer coisa em coisa boa de se ler. Bjs meu amigo. S.

  3. Aparecida Fernandes disse:

    Retalhos do cotidiano que dão um pano… E – já dizia meu amigo Amir Massud – amor de filhos… dispensa comentários; ad infinitum.
    beijos

  4. Aline P. disse:

    Tinha a frase do Moulin Rouge anotada numa das primeiras páginas da minha agenda aos 15 anos. Boa lembrança. Às vezes escrevo textos técnicos, sobre ensino ou Língua Portuguesa, para conseguir um extra, também já ‘vendi’ alguns continhos, mas escrever com desobrigação é outra coisa, como disse um aluno meu outro dia: ”não tem nem comparança!’ com a liberdade de prosear sobre o que nos der vontade… Fluência boa pra quem escreve, e melhor ainda para quem lê. :)

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