Renas, canários, ratos e duas moscas voando

22 de dezembro de 2010

Leio no The Guardian – metido a besta que sou, mínimo – sobre uma nova instalação em museu alemão. Berlim, pra ser exato. Então, já viram né? Deve vir loucura mudernosa por aí.

Pois.

Um tal Carsten Höller instalou – pois não – no interior do Hamburger Bahnhof, uma antiga estação de trem, um cercadinho (em verdade, em verdade, não tão pequeninho assim), com areinha no chão e – atenção – 12 renas, 24 canários, oito ratos e duas moscas, espalhados aqui e ali, suponho aleatoriamente.

Curtiram isso? [Vocês, usuários do Facebook e financiadores do Zuckerberg?]

Mas, mas, mas, porém, contudo, todavia, entretanto, o melhor da festa não são as 12 renas, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas – isto é, se essas não tiverem escapado pelo tubo de ventilação.

O senhor Höller achou por bem instalar – também – uma geladeira.

E entupida de drogas psicodélicas.

Pronto, acabou?

Nein, senhores, senhorinhas – e esse nein é tentativa ridícula de soar um não em alemão –, o mister Höller está alimentando metade das renas com um tipo especial de cogumelo que, se não deixa as renas doidonas, deixa a sua urina alucinógena.

Ah, sacaram?

A geladeira não está ali como objeto nonsense: serve pra armazenar a urina dos bichos.

E pelo que eu entendi, os visitantes podem saciar sua sede por, digamos, loucuras.

Ou por, digamos, também, beber xixi.

E podem pernoitar no museu, pagando mil euros, em uma plataforma suspensa, equipada com cama, frigobar e, claro, 12 garrafinhas de urina, metade batizada, metade não, sendo que a batizada não lombra, se é que vocês me entendem, mas, numa boa, nem se apoquentem, tendo em vista a situação.

Além disso, assim como a geladeira, os 24 canários, os oito ratos e as duas moscas não estão ali de enfeite: a urina das renas é derramada sobre a ração dos animais, que estão separados em dois cercados.

E como existem dois tipos de urina, com cogumelo e sem cogumelo, fica difícil saber se os bichos estão doidões ou se o vôo dos canários e o saltitar das ratazanas é natural mesmo.

Exatamente o que o artista pretende: testar a hipótese – como em um experimento cientifico – de que a arte é capaz de, ãhnn, mudar as percepções ainda mais do que as drogas.

Ou seja: viagem.

4 Já Comentaram para “Renas, canários, ratos e duas moscas voando”

  1. Jarbas Martins disse:

    que trem mais néonloucobarroco, mario ivo. você, com suas extravantes crônicas, onde já captei acentos maneiristas, neobarrocos, pós-modernos, é apenas o tradutor perfeito da contemporaneidade. o tempora, o mores, como sentenciava um cícero alarmado com os hábitos, nada ortodoxos, de sua roma antiga. alarmava-se e se aquietava em seu estoicismo posado, característica de todo filósofo. entre parênteses. você já prestou atenção para a pose do meu amigo, mestre e vizinho pablo capistrano? só que meu amigo pablo, bem nascido, não é nenhum chato e é portador de saudável e elgante pose. cícero, o romano,era tão chato como o latim.devia sofrer de distúrbios mentais ainda não bem diagnosticados:não tinha senso de humor. além disso, tinha um mau gosto…quem, sinceramente, admira aquele catatau de discursos, com um horrível título- catilinárias ? mesmo diante da feiúra, aberrações, como as que voce descreve em sua deliciosa e corrosiva crônica, você jamais daria um título como aquele para um livro seu. meu mestre, amigo e vizinho pablo, o antípoda do seu colega romano, também não. além da sabedoria é preciso muito charme e uma elegante pose para rir das coisas da pós-modernidade.

  2. Jarbas Martins disse:

    Errata:na primeira linha escrevi extravantes crônicas.Leia-se: extravagantes crônicas.Na sexta linha onde escrevi elgante pose, leia-se elegante pose.

  3. Laélio Ferreira disse:

    Meus caros Mário Ivo e Jarbas.

    Ogunhê e Saravá!

    A “instalação” desse doidinho, o Carsten Höller, nas minhas contas por cá, perde de dez a zero para o vizinho do meu “primo” Jarbas! Senão, vejamos “ipsis litteris”:

    (abro aspas):
    Demian não sabe exatamente como surgirá essa nova raça, mas acredita que o facilitador para seu surgimento será o tetrapharmakon, uma droga híbrida capaz de provocar alteração genética, reconfigurar o DNA, produzir estranhas alterações na percepção, nos valores, na constituição física, na resistência a doenças, na capacidade de concentração e na criatividade de quem experimentá-la, produzindo poder e, talvez, telepatia e telecinesia, algo que já havia sido tentado com o ecstasy e o santo daime. Não é apenas uma droga, é um organismo químico vivo, com desejos próprios e insondáveis, além de ser uma chave para acessar a divindade. O tetrapharmakon fora desenvolvido pelo Projeto Zaratustra, criação de James Ramsey, um homem que dedicou sua vida à pesquisa de um método que pudesse viabilizar a utopia de Nietzsche. A missão de Demian é introduzir a droga no Brasil. Por isso ele retorna ao país e retoma o contato com Ariel, que ele pretende usar como traficante.
    Ariel narra como fora fisgado pelos enigmas filosóficos do tetrapharmakon, que fizeram com que ele aceitasse acompanhar Demian à Europa e se deixasse iniciar no estranho ritual do Projeto Zaratustra, depois do qual ele nunca mais conseguiria diferenciar realidade e alucinação. Não por acaso, Pablo Capistrano inicia o romance com a seguinte advertência: “Os fatos e personagens deste livro são fictícios, as paisagens e as idéias não” De fato, existe muita verdade em Pequenas catástrofes, sobretudo nas teorias que o embasam. O autor, além de ser filósofo e mestre em metafísica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, admite ter experimentado uma série de drogas alcalóides, freqüentado rituais de religiões afro-brasileiras e estudado magia, ainda que no início da juventude e com interesse exclusivamente intelectual. Quanto aos personagens, embora sejam assumidamente fictícios, fica difícil não acreditar neles. Sobretudo quando se descobre que Capistrano mantém um blog em seu site (www.pablocapistrano.com.br) chamado Diários de Demian, tão extenso, verossímil, atual, aterrorizante e rico em detalhes que aprofundam o que o livro tem de mais assustador.
    Por fim, vale destacar que Pequenas catástrofes não é permeado apenas por referências eruditas a Nietzsche, Wittgenstein, Aristóteles e textos sagrados de religiões milenares. O rock – em especial o movimento punk – também é uma forte influência no texto, a ponto de o autor recomendar uma trilha sonora para cada passagem importante do romance. Na variada lista de músicas citadas estão clássicos de Chet Baker, Pixies, Mozart, Kraftwerk, Velvet Underground, Stooges, Joy Division, Chopin e Milton Nascimento, por exemplo. (fecho aspas)”
    Tetrapharmakon na rapaziada, pois, pois!
    Laélio

  4. kolberg disse:

    Que lombra!!!

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