Recriação do mundo

22 de junho de 2010

Watteau, O embarque para a ilha de Citera, c. 1719

Deus recriou o mundo em um fim de semana.

À beira-mar.

Das espumas das ondas e da areia da terra moldou uma infinitude de mulheres e homens, de todas as alturas e cores, de todos os sorrisos e olhares, de todas as transparências e densidades. De todos os pesos e levezas.

Depois disse:

– Crescei, mas não carece de multiplicar-vos. A menos que o desejais. Para isso existe a camisinha e os anticoncepcionais. Se liguem.

Depois puxou de lado um anjinho barroco de asas alvas, armado de arco e nuinho da silva, seja para protegê-lo de um padre pedófilo que rondava por ali, seja para evitar as artes profanas do menino (também chamado puto, mas dá muito trabalho aqui explicar que o termo é sinônimo justo e verdadeiro e tal), seja também como pré-aviso à Sua próxima fala:

– A partir de hoje o amor não tem alvo certo. Não dispara. Não atira nenhuma flecha, ponta-de-lança, umbabarauma, dardo, dado, lembrem-se de meu filho querido Stéphane Mallarmé, un coup de dés jamais n’abolira le hasard.

E, muito vaidoso do seu francês sem sotaque, traduziu:

Um lance de dados jamais abolirá o acaso.

A patuléia ficou assim, meio de bobeira, esperando algo mais, um final, um arremate, estrelinhas, entrelinhas e um grand finale, enfim. Deus, muito contente do monopólio das atenções recebidas, não se fez de rogado. E retomou o fio da meada, enquanto limpava as asas do putinho:

– A partir de hoje, pois. O amor não dispara. Ele explode. Simplesmente explode.

A galera, claro, foi ao delírio. Errado seria afirmar que só queriam um pé – porque todos queriam muito mais que isso: queriam as pernas, as coxas, as barrigas, dedo, mão, olho, boca, claro e também, que beijar é muito bom.

Mas o fato é que as palavras do Senhor – Louvado seja Ele e a Marina Silva – soaram como um tranqüilizante energético: ficaram todos muito ligados, mas com os pés no chão e a os neurônios nas nuvens, entre diamantes e uma menina chamada Lucy. Em verdade, em verdade, três meninas, uma Lucy, outra Alice, a terceira Lolita. Elas deram as mãos para um senhor muito velho, que mal tinha chegado ao Paraíso, Céu, Olimpo, Eternidade, que nome tenha a ilusão de felicidade post-mortem, e o velhinho, que se chamava José Saramago e não acreditava nessas coisas foi logo disparando:

– A alma de uma mulher é sua carne.

O fato é que, por aqueles dias – ao menos – não houve jogo, lance de dados. O amor foi discreto. Quase transparente. Não se deixou ver, notar, denunciar.

– Invisível.

Isso. Simplesmente invisível.

Se houve jogo – e houve jogo – foi apenas de olhares e apostar a própria felicidade e a alheia foi terminantemente proibido.

Assim seja.

Um Já Comentou para “Recriação do mundo”

  1. Jarbas Martins disse:

    Putto texto,Mario Ivo. Bem representativo da nossa Neorenascença. Ó Tácito Costa, ó Franklin Jorge, porque vocês não transcrevem, vez ou outra, em seus blogs, uma crônica como esta ? Exemplar no gênero. Ou vocês acham que, depois da morte do meu amigo Berilo Wanderley, não existe nada de novo na crônica ?. Com a palavra Tarcísio Gurgel.

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