Quem foi, quem não foi

10 de dezembro de 2010

Maria Antonieta, de Sophia Coppola, 2006

Estranho lugar, essa província do Ryo Grande, costados atlânticos do Brazil nordestino.

Por esses dias de dezembro, entre o calor e a candura, o que mais se ouviu foi quem foi convidado e quem não para o show de Roberto Carlos, O Rei.

Estar na lista dos mil e quinhentos (é esse o número?) convivas era sinal de prestígio, glamour, graça.

Estar fora, o contrário.

Uma terceira categoria inclui ainda aqueles que, não tendo sido chamados ontem, não se resignaram e desembolsaram, para hoje, de quatrocentos a seiscentos reais, estilo Yes, we can.

Ou Não me convidaram, pra essa festa pobre etc.

Houve ainda quem repetisse, quase à exaustão, que o empresário Nevaldo Rocha, do grupo Riachuelo, deu à cidade um verdadeiro presente. Como estamos no período natalino, claro que se abusou do joguinho de palavras presente de natal, presente para Natal.

Ora, vão se catar.

Presente seria se fosse de graça.

E a verdade é que, muito matreiramente, como convém a todo empresário bem-sucedido, aproveitaram essa mania típica do natalense, de querer fazer parte das very important person, para que os menos importantes pagassem a conta dos, supostamente, mais.

Pelo que apreendi dos ditos formadores de opinião, ninguém, ontem, foi de táxi, que, claro, não fica bem não exibir o carrão importado. Houve, também, fila, o que, convenhamos, não combina com quem de dinheiro o tem a rodo e tal.

Muito conveniente, também, a escolha do cantor – seria impossível, por exemplo, que o cara fizesse piadinha com a platéia, tipo Lennon quando, em show diante da rainha (a verdadeira, do Reino Unido), pilheriou: “As pessoas que estão nas cadeiras mais baratas podem aplaudir, o resto pode chacoalhar as jóias.”

Aliás, o próprio shopping – perdão, mall – onde se ubíqua o Teatro Riachuelo, tem suas diferenças socioeconômicas: à medida que se sobe de piso, ascende-se um degrau na escalada social. O primeiro andar, nível da rua e das paradas de ônibus, destina-se à classe operária. O segundo, onde os caminhos convergem para a enorme praça da alimentação, para aqueles com algum dinheirinho pra comer fora de casa. Já o terceiro, ah, o terceiro piso é pra gente de bem, de bem com a vida, de bem com a grana. De bem, acima de tudo, com as jóias, chacoalhando-as, na ausência de uma corte real, para os únicos palácio e Rei que o destino plebeu nos reservou.

10 Já Comentaram para “Quem foi, quem não foi”

  1. ianne maria disse:

    fantástico esse texto. é isso mesmo.

  2. ianne maria disse:

    e ainda digo mais: rei pra mim, é luiz gonzaga.

  3. Jarbas Martins disse:

    delícia de crônica, mario ivo.pra se entender essa cidade, só recorrendo ao trocadilho preferido do meu avô: natal ? não há tal…

  4. Inêz disse:

    Parabéns por retratar tão bem a realidade. Com muita propriedade o avô do leitor Jarbas Martins definiu:” Natal? não há tal”

  5. Gerson de Souza Barbosa disse:

    Resumo perfeito de uma Comédia de Dante. “presente de grego cavalo de Tróia, sou cobra Jiboia Saci Pererê”.

  6. lissa disse:

    e tem também uma quarta categoria, a dos “vips-de-verdade-mesmo” : os que foram convidados pro jantar que teve depois, com flávio rocha e cia. ah, natal…

  7. lula disse:

    Sem comentário

  8. antonia maria de araujo fernandes disse:

    ´Mario Ivo você é impagavel.

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