Quando fui skatista

1 de dezembro de 2010

Outro dia (mentira: foi agora há pouco, mesmo) sonhei que eu era um skatista em país estrangeiro procurando pegar uma balsa para não sei aonde e.

Ah, que maravilha são os sonhos!

E somente eles são capazes de inventar lógicas esdrúxulas como esta: a de que usuários de balsa costumam ser skatistas também. Pois, no meu sonho essa relação era uma verdade definitiva e implícita.

Em verdade, em verdade, vos digo, que mentiroso não sou: pouco antes de cruzar, veloz, impávido e sobre uma tábua e quatro rodinhas, as largas calçadas e vastas avenidas de uma grande e moderna cidade no estrangeiro, eu, eu era apenas eu mesmo, descendo de carro uma montanha íngreme, e estacionando irregularmente no acostamento, na encosta sinuosa. Como todo mundo, aliás – digo, todo mundo no sonho.

Então. Nessa primeira parte do sonho, estacionava eu, de ré, espertinho, pronto pra sair, porque íamos – eu e toda a turma que estava lá no sonho comigo – assistir a uma guerra entre monstros, no topo da montanha.

[Pigarro.]

E mais não conto porque senão vocês hão de querer me internar.

Ah, mas deixa eu contar uma parte, que é muito interessante e renderia ao velho e bom Freud boas explicações: é que, enquanto estacionava, tinha um conhecido ao lado, no banco do carona, acompanhado do filho bebê, todo enrolado em panos. O rapaz insistia em me pagar uma velha dívida com notas novas de cem reais. E, quando digo novas é no sentido que elas nem existem ainda.

Tá.

Daí, desse eu-mesmo-motorista-e-espectador-de-duelo-de-titãs para minha nova roupagem – de estrangeiro skatista –, era uma questão de, de, de – de nada: nos sonhos é assim, de repente você está num lugar e no mesmo repente em outro.

Splet. [Onomatopéia para um estalar de dedos.]

E nesse capítulo do sonho, chegava eu, sempre montado sobre quatro minúsculas rodinhas, em um cais de embarque. Eram dois destinos, duas ilhas com nomes espanhóis, mas nenhuma delas o lugar aonde eu deveria ir. Aí, era girar o skate e voltar, abrindo caminho entre as meninas viageiras.

No ponto do ônibus, ainda sobre quatro rodas, eu indagava a um cidadão onde pegar a tal da balsa – e ele, mui educadamente, além de me informar, confirmava com o motorista a certeza das coordenadas.

Eu estava pra descer as rampas encurvadas de um túnel, quando acordei.

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