Quando eu me apeguei a você, meu coração,

12 de janeiro de 2011

Robert M.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, os dias eram turbilhão. Cinzas, ferrugem, nublagem.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, o amor restava dúvidas, como o pão deixa farelos sobre a mesa quando cortado.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, a Paixão contraía dívidas e medos. Medo de saber se o interesse era recíproco, se as atenções seriam retribuídas, se os signos foram corretamente desvendados, e se – acima de tudo – tudo aquilo que fantasiei não ruiria como num castelo de cartas frágil porque sem alicerce concreto algum.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu recusava limites. Eu achava o impossível, possível, o desencontro, encontro, e o fugaz, duradouro.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu vivia de esperas ativas. Como quem antecipa conquistas, como quem tem um exército pronto a superar as muralhas à beira-mar.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu estava disposto a tudo, até a colher estrelas com o laço estreito do meu abraço.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, eu desconhecia os limites entre a paixão e a vingança. Eu misturava alhos com bugalhos, trocava os pés pelas mãos, e daria tudo, tudo, por um pouco de sua boca.

Quando eu me apeguei a você, meu coração, a gente me dizia: “É só isso, então, apenas fantasia”, como se fosse muito pouco essa fantasia – esse arremedo de realidade – que construí sobre você, sobre nós, meu coração.

Quando eu me apeguei a você, eu não entendia que a vida nos oferece escolhas, que mesmo o amor desfeito tendo sido mera ilusão, simulacro, desdém, ele era real porque eu o senti assim, verdadeiro.

Então, meu coração, eu entendi que mesmo não amando mais aquele amor, eu nunca o renegaria, porque ele era meu e verdadeiro, mesmo sendo uma mera miragem do meu coração.

Hoje, meu coração, seria injusto dizer que substituí aquele amor por essa paixão, que você agora protagoniza, sem querer, sem saber o real tamanho do meu delírio – porque, não, meu coração, o passado nunca será substituído pelo presente, e as camadas que ora sobreponho são independentes umas das outras, embora, sim, não será à toa que ontem perdi novamente meu óculo, à distância de um ano, porque todo cego é de paixão etc.

Etc.

Mas hoje, meu coração, eu não sei mais se lutarei por você com todas as forças e anseios, se te darei o presente que, num impulso duradouro, adquiri, como quem contrai febre tropical, ardor de chuva, água nos pulmões.

Porque hoje, meu coração, aprendi a controlar essa taquicardia que ecoa em meu peito, porque me recuso a manter esse objeto de desejo na sombra e na escuridade, e porque continuamos separados, mesmo que eu insista em nos juntar, nesses sonhos, nessas insônias, nesses vãos de fantasia, onde eu, invés de me contentar com um pedaço da sua boca, a tomo por inteiro.

5 Já Comentaram para “Quando eu me apeguei a você, meu coração,”

  1. daniboe disse:

    obrigado

  2. Jarbas Martins disse:

    bemamados (acabei criando essa jóia de palavra) e malamados, leiam esta crônica do mario ivo. é uma verdade tão doída que ela transmite. uma dor desinfeliz que bate lá dentro de nós, quando lemos textos como este… camões, antonio maria, nalva lafayete, carlos gardel, reginaldo rossi, jacques brel,amália rodrigues,lupicínio rodrigues, edith piaf, waldick soriano e vicente celestino,sem falar num velho companheiro de copo, no bar do lourival,o inesquecível aldair soares, o pau de arara, que vivia roendo por linda batista, todos faremos, dessa crônica, pode crer, o travesseiro ideal do nossos doces infortúnios.que venham mais crônicas como esta, sábio mario ivo, que conhece o coração dos iludidos e desiludidos do amor.

  3. Jarbas Martins disse:

    bemmamado ou malamado, que termina sendo uma coisa só, depois de ler esta crônica de mario ivo, mais doída que esta bursite, que me apareceu, distante mais de três mil quilômetros de irani, vou lendo meu corbière, que ninguém bem me quer.ou o que é bem pior: nem mal me quer.

  4. soraia disse:

    li, reli e busquei recuperar cada movimento sinalizado pela sua brilhante crônica. paixão de muitos de nós. voltando aqui, acabo me dando conta de que qualquer palavra parece excessiva. obrigada Mário Ivo, por nos fazer mais igual, mais pessoa nas nossas fantasias e desejos.

  5. Izabelle disse:

    Nossa, a paixão é assim mesmo. Maravilha de crônica!

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