Preciso matar o homem dentro de mim

22 de junho de 2012

Matt Black, San Miguel Cuevas, Mexico

Preciso matar o homem dentro de mim.

Sufocá-lo. Talvez com travesseiros de penas de ganso.

Esfaqueá-lo. Com uma faca só lâmina.

Apontar em seu peito, entre costelas, o cano fumegante, descarregar todo o tambor até que o gatilho desfaça a mudez do mundo.

Preciso matar o homem dentro de mim.

Talvez com corda e patíbulo, e poente.

Talvez com doses discretas de arsênico, talvez numa explosão nuclear.

Ou diante de um tanque de guerra, os olhos vendados, a boca descoberta, para que possa gritar suas derradeiras palavras.

Preciso matar o homem dentro de mim.

Jogá-lo ao mar, uma pedra amarrada ao pescoço, cardume de esqualos.

Fazê-lo molhar suas roupas no rio corrente, os bolsos coalhados de seixos.

Deixá-lo adormecer numa banheira elétrica, a água inundando o quarto de baixo, numa pensão barata, numa cidade cara, numa madrugada enfeitada por anúncios de neon.

Preciso matar esse homem dentro de mim. Ele sonha em demasia, ele sorri em horas inesperadas, ele se recusa a impedir o curso do vento.

Um obstinado, insiste em acrobacias entre as nuvens, nos fins-de-tarde chuvosos, nas manhãs de sol e orvalho.

A mania de cultivar flores no pátio em meia-lua tem assustado o sono dos tigres, irritado a convivência de todos aqueles obrigados à sua presença nociva.

Cruza as pernas e sonha. Está em pé diante do mar e sonha. Solta anéis tênues de fumaça da jaula escura do peito, e continua a sonhar.

Quando caminha, teima em tropeçar nas pedras que semeia, indiferente ao rumor dos bolsos vazios.

Dorme em horas impróprias, bebe sem descanso, passa a mão nos cabelos numa frequência desastrosa.

Não conseguiu queimar nenhuma ponte atravessada, ainda que lhe fosse destinado a ordem, os fósforos, o querosene, a combustão. Resta à cabeceira delas, o olhar parvo, o sorriso inquieto, um resquício de lágrima no rosto, a menção de que voltaria, mesmo se ardessem em chamas – ainda mais se ardessem em chamas.

É preciso matar esse homem dentro de mim. Necessário, imprescindível, inadiável, imperioso.

Impossível – ao se acercar um pouco mais, ao ultrapassar a razão de sua sombra, sobrevém a incerteza desconcertante: ora é uma criança, a jogar os dados; ora é um ancião, de modos leves e ossatura estreita.

Nunca – nunca – se parece ao homem a quem viemos matar.

 

2 Já Comentaram para “Preciso matar o homem dentro de mim”

  1. Paulo Procópio disse:

    Muito bom!

  2. Johnny Cavia disse:

    Mário Ivo e Mário Faustino!

    Dois bons Mários e seus escritos, essa sua cronica e os poemas do seu homonimo:

    ‘SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA’

    e

    sem esquecer o ‘envoi’ de Balada:

    ‘Senhor, que perdão tem o meu amigo
    Por tão clara aventura, mas tão dura?
    Não está mais comigo. Nem contigo:
    Tanta violência. Mas tanta ternura.’

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