Pós-bloomsday: William Burroughs

17 de junho de 2010

Dois monstros: Francis Bacon e William Burroughs, retratados por John Minihan

Lá se vai mais um dia de Bloom, Leopoldo, como naquela fábula da menina tatibitate – “lá se vai a quartinha de mamãe”. Em verdade, em verdade, eram quatro irmãs que, pelo dificuldade da fala, encontravam dificuldade maior: encontrar um marido. Na expectativa da visita de mais um pretendente, a mãe ameaçou:

-       Fiquem caladinhas, senão não casam.

Mas o jovem mancebo (acho que era jovem e mancebo, que o lance aqui é fábula e não livro de Joyce) chegou com sede e, claro, pediu água.

A mais velha foi buscar a quartinha e, de tão aperreada, deixou escorregar.

-       Lá si quêbou a tatinha de mamãe – não se conteve.

-       Que si quêbou, que si quêbásse – emendou a segunda.

-       Mamãe nun dissi que a genti nun fáiásse? – repreendeu a terceira

-       Eu cumu nun faiêi, cazaêi! – festejou a quarta, que, claro, deve ter ficado pra titia-avó como as outras três.

Copiei o modo de falar das tartamudas que nem Cascudo anotou em seu Contos tradicionais do Brasil – esse eu li, o Ulysses, não. Noves fora a intervenção esdrúxula (nem tanto, reparem: o diálogo é um Joyce sotto ácido ou chá de zabumba) , sempre cabe mais uma: não sei de onde nem por qual associação ilógica, me lembrei de um velho disco do Material, banda de Bill Laswell, todo em cima de The western lands, do velho beat William Seward Burroughs. O vídeo não vale nada – ouçam apenas a voz inconfundível do poeta americano que conseguiu, apesar de todas as drogas, morrer aos 80 e qualquer coisa. Coisa pra quem tinha mais de sete vidas. Ou almas. E nenhum Burroughs’s Day.

Seven Souls

by William S. Burroughs

The ancient Egyptians postulated seven souls.

Top soul, and the first to leave at the moment of death, is Ren, the Secret Name. This corresponds to my Director. He directs the film of your life from conception to death. The Secret Name is the title of your film. When you die, that’s where Ren came in.

Second soul, and second one off the sinking ship, is Sekem: Energy, Power, Light. The Director gives the orders, Sekem presses the right buttons.

Number three is Khu, the Guardian Angel. He, she, or it is third man out … depicted as flying away across a full moon, a bird with luminous wings and head of light. Sort of thing you might see on a screen in an Indian restaurant in Panama. The Khu is responsible for the subject and can be injured in his defense-but not permanently, since the first three souls are eternal. They go back to Heaven for another vessel. The four remaining souls must take their chances with the subject in the Land of the Dead.

Number four is Ba, the Heart, often treacherous. This is a hawk’s body with your face on it, shrunk down to the size of a fist. Many a hero has been brought down, like Samson, by a perfidious Ba.

Number five is Ka, the Double, most closely associated with the subject. The Ka, which usually reaches adolescence at the time of bodily death, is the only reliable guide through the Land of the Dead to the Western Lands.

Number six is Khaibit, the Shadow, Memory, your whole past conditioning from this and other lives.

Number seven is Sekhu, the Remains.

[Extraído de The western lands – a book of the dead for the nuclear age.]

Um Já Comentou para “Pós-bloomsday: William Burroughs”

  1. Jarbas Martins disse:

    Que humor mais refinado, Mario Ivo. Coisa de dândi essa crônica, com esse tom epigramático…Convenhamos, meu
    caro Mario Ivo, Natal é uma Dublin fake, e o professor-doutor Francisco Ivan é um Buck Mulligan exilado no bairro de Nova Descoberta.Com todo o respeito à sua puquiana figura.
    Tenho impressão que o Bloomsday é uma das sete pragas, que se desgarrou da Bíblia e caiu
    sobre Natal. Como antídoto lançou-se dia desses na Siciliano, numa roda típica de intelectuais de shopping, a idéia de se fazer todo ano, no dia do aniversário de Luís da Câmara Cascudo, o
    Cascuday.O mais entusiasmado com a idéia (minha) foi o meu amigo Moacy Cirne; o professor uspiano Marcos Silva nem tanto.O professor João da Mata, joyceano profissional, absteve-se.Tácito Costa testemunhou e fotografou o evento. Esperemos o resultado.

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