Portas

25 de janeiro de 2011


“Estamos ficando velhos. As únicas coisas que nos restam são nossas lembranças. Se sair por aquela porta, nem elas restarão.”

A fala não chega a ser um clássico.

Não é um Play it again, Sam.

Não é um Durante muito tempo em minha vida eu fui dormir cedo.

Não é.

A não ser que você, como eu, seja um devoto de C’era una volta in America, o clássico, canto de cisne de Sergio Leone.

E saiba que a fala no alto desta página é da personagem de Elizabeth McGovern. Que reencontra o amor adolescente, vivido por Robert De Niro.

Trinta anos depois.

“Olá, Deborah. Não vai dizer nada?”

“O que deveria dizer depois de mais de trinta anos?”

“Ao menos me reconheceu” – conclui De Niro, um gângster aposentado. Envelhecido, à base de sangue, ópio e um amor não resolvido.

“Atrizes têm boa memória” – rebate Deborah, enquanto retira, não de todo, camadas e mais camadas de maquiagem diante do espelho do camarim.

Deborah, Cleópatra. O palco resta vazio. As cortinas fechadas. A ação, drama, tragédia, corre agora nos bastidores.

Trinta anos depois.

“Tem uma saída por aqui. Noodles, saia por ela. Caminhe e não olhe para trás. Por favor, Noodles, estou implorando.”

Em inglês fica mais sonoro: “Keep walking and don’t turn around.”

Noodles, Deborah. Na adolescência, ela, judia, lia trechos dos Cantares de Salomão para ele, judeu não praticante.

“O meu amado.” Etc.

Daí a referência bíblica, na contrapartida de Noodles: “Receia que eu me transforme numa estátua de sal?”

“Se sair por aquela porta, sim.”

Sim.

3 Já Comentaram para “Portas”

  1. Jarbas Martins disse:

    Comentário, crítica ou metapoema ? Gostei muito do que você escreveu, caro Mario Ivo, sobre o clássico de Sérgio Leone. Valeu. E quanto.

  2. Ai, Marioivo, eu adoro esse filme. Já vi n vezes e foi boa a lembrança, vou ver hoje de novo – ele ainda nao passou na minha TV grande.

  3. Mario Ivo disse:

    me too, clotilde, o melhor papel de de niro, q interpreta apenas com os olhos o decorrer do tempo blá-blá-blá

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