Poética dos secos e molhados

15 de março de 2010

Ontem, reza a lenda, foi dia da poesia. Desconfio muito dessas comemorações forçosas e forçadas. Inda mais diante do histórico passado. Nem um único desses dias me fez mais próximo da poesia, me apresentou poeta novo, requentou em mim gosto e prazer de ler versos.

Aliás.

Nasci numa província que se orgulhava de ter um poeta em cada esquina.

Embora.

Os poetas vivos pareciam mortos, os mortos, mais mortos ainda.

Então.

Em cada esquina, em verdade, tinha apenas uma encruzilhada. Nenhuma pedrinha nem nada. Nenhum poeta nem nada. Só uma encruzilhada. Por onde seguir, era a dúvida. Esquerda? Direita? Volver? Pensando bem, volver a los diecisiete después de vivir un siglo era mais poético do que muitos versos marginais que se liam por estas esquinas e becos, gritados, urrados, sem dó no peito, apenas na goela esquartejada.

A propósito.

Será lenda ou fato, vai saber, Violeta Parra escreveu os famosos quando, sessentona, se enamorou de um rapazinho. Daí a sensação de rejuvenescimento. De, num segundo, sentir-se novamente frágil.

Como um menino diante de Deus.

Mais ou menos como se sente o leitor diante de um poema.

Um grande, pequeno, verdadeiro poema. Sem dias, horas, segundos. Atemporal. Eterno. Como desejava Drummond, cansado de ser moderno.

E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno.

[...]

Eterna é a flor que se fana

se soube florir

[...]

eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo

mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata

[...]

é o que se pensa em nós se estamos loucos

é tudo que passou, porque passou

é tudo que não passa, pois não houve

eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.

[...]

Mas eu não quero ser senão eterno.

Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência

ou nem isso.

E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde passou uma sombra

e que não fique o chão nem fique a sombra

mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos

e entre oceanos de nada

gere um ritmo.

[Carlos Drummond de Andrade. Eterno – trechos.]

Ritmo.

No mais, para o mais, poesia é como jornalismo – o resto, todo o resto, são secos e molhados.

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