Perpetuar o mal, garantir o bem

28 de fevereiro de 2013

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No dia em que o papa vai sem ter morrido, vem a lembrança do monólogo do Giulio Andreotti livremente construído pelo diretor Paolo Sorrentino, através do incrível Tony Cervillo, no não menos incrível Il divo, la spettacolare vita di Giulio Andreotti (2008). Lá pras tantas um religioso cita uma frase do jornalista Indro Montanelli:

De Gasperi e Andreotti iam juntos à missa e todos acreditavam que estavam fazendo a mesma coisa, mas não era assim: na igreja De Gasperi falava com Deus, Andreotti com o padre.

Andreotti podia até acreditar em Deus, mas sabia que os padres votam.

Segue a tradução do monólogo, onde lembra o dia em que pediu a esposa Livia em casamento (link acima, início do post, ou aqui):

Livia,

Foram teus olhos plenos que me fulguraram uma tarde no cemitério de Verano. Estávamos passeando e eu escolhi aquele lugar singular para te pedir como esposa. Você lembra? Sim, eu sei que você lembra. Os teus olhos plenos e límpidos e encantadores não sabiam, não sabem e não saberão – não têm ideia. Não têm ideia dos crimes que o poder deve cometer para garantir o bem-estar e o desenvolvimento do país. Durante muitos anos o poder fui eu – a monstruosa, inconfessável contradição: perpetuar o mal para garantir o bem. A contradição monstruosa que faz de mim um homem cínico e indecifrável, até mesmo para você. Teus olhos límpidos e encantadores não sabem da responsabilidade – a responsabilidade direta ou indireta por todos os massacres que ocorreram na Itália desde 1969 até 1984, e que provocaram, para ser exato, 236 mortos e 817 feridos. A todos os familiares das vítimas, eu digo: sim, confesso – confesso: foi também por minha culpa, por minha culpa, por minha grandíssima culpa. Digo isso, mesmo que não sirva mais. As práticas terroristas como forma de desestabilizar o país, provocar o medo, isolar a extrema-esquerda e fortalecer os partidos de centro, como a Democrazia Cristiana, têm sido chamadas de “estratégia da tensão”. Seria mais correto dizer “estratégia de sobrevivência”. Roberto, Michele, Giorgio, Carlo Alberto, Giovanni, Mino, o caro Aldo – por vocação ou por necessidade – todos irredutíveis amantes da verdade. Todos bombas prontas para explodir e que foram desativadas com o silêncio final. Todos pensando que a verdade é uma coisa justa, e em vez disso é o fim do mundo, e nós não podemos consentir o fim do mundo em nome de uma coisa justa. Temos um mandado, nós. Um mandato divino. É preciso amar Deus, tanto, para entender como é necessário o mal para existir o bem. Isso, Deus sabe, e eu sei, também.

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