Perigo

22 de junho de 2009

Não sei se entra pra história o lançamento da revista Perigo Iminente, hoje, a partir das sete da noite na livraria do Midway. Mas que é um dos lançamentos importantes do ano, não resta dúvida.
A idéia dos editores Flávia Assaf e Adriano de Sousa era celebrar o centenário da conferência de Manoel Dantas (1864-1924), “Natal daqui a cinqüenta anos”, que foi publicada pela Imprensa Oficial deste Ryo Grande no mesmo ano, 1909.
Pronunciada no salão de honra do Palácio do Governo, a palestra de Dantas impressiona ainda hoje pelo discurso loquaz, entre o a ironia e o delírio. Uma ficção científica paroquial mas bem pouco provinciana – arrisco resumir em poucas palavras.
Jornalista, o próprio palestrante conta como lhe surgiu a idéia da conferência: ao chegar na sede de A República, onde era chefe de redação, dá de cara com o colega José Mariano Pinto: “Permitta Deus que sejas jornalista no Rio Grande do Norte! E, si quizerem uma praga rigorosa, dessas damnadas, que levam para o inferno sem forma nem figura de juizo, accrescentem: ‘com Zé Pinto na gerencia, quando tem falta de materia’.”
Pinto recomenda ao redator-chefe, cobrir os espaços vazios do jornal: “Puxe pelo quengo.”
Dantas não se faz de rogado e cria logo o título do artigo – “PERIGO IMMINENTE”, pois, em letras garrafais – onde descreve com tal ardor a suposta ameaça das dunas destruírem completamente a cidade, que logo o governo trata de cobrir de vegetação a careca do morro.
Daí para imaginar que sobre as dunas seriam construídos cassinos e hotéis monumentais, é um pulo e o tema da conferência. O que prova como o jornalismo potyguar há muito é fantasioso, o que prova, também, que os delírios e arroubos da Arena das Dunas e que tais estão em atraso de ao menos um século.
Pois, 99 anos depois os editores da Flor do Sal convidam dezenas de colaboradores para especularem sobre os próximos 50 anos, tal qual fez Dantas, em 1909. O resultado sai, um ano depois, em 100 páginas e formato simpático. A Fapern arcou com os custos de impressão, mas a própria editora bancou o mimo da edição fac similar da plaquete original, uma das preciosidades da biblioteca de Rejane e Vicente Serejo.
Difícil, quase impossível destacar as colaborações – as mais diversas possíveis, da poesia ao conto, do ensaio à análise, da foto à ilustração, passando por uma história em quadrinhos. A sacada de Joca Soares, fazendo sumir o Morro do Careca e criando um canal na paisagem de cartão-postal, no entanto, impressiona.
Também os alunos da Escola Viva botam no bolso a turma da maioridade. Tainá Macedo de Andrade, 59 anos em 2059, escreveu:
“Eu acho que Natal daqui a 50 anos vai ter muitos carros que voam e que tem asas que se mexem, prédios que tem rodinhas e cérebro e cavalos que tem asas mas não voam.”
“Eu acho que a vida em Natal daqui a 50 anos vai estar mais precária porque hoje em dia o ser humano está jogando muito lixo nos mares e nas ruas.”
Simples assim.
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SURF
“Mário, Enquanto o motorista vai driblando os buracos da BR 405, trecho Apodi-Mossoró, vou passando os olhos nos jornais de ontem, por pura mania. Nada impresso no papel que já não tenha saído nas folhas virtuais daqui e d’alhures. E sendo você um dos três colunistas locais que leio, fico com um olho nas juremas verdinhas que cobrem este chão quase sempre seco e o outro em sua coluna de ontem [quinta, 18], ‘Muito siso, pouco riso’. Talvez efeito do uísque do lançamento do livro do Rubinho ou, quem sabe, cansaço de seus rolés leopoldianosbloomsdaypapajerimunianos, você se enganou. Eu não entrei com o Crispiniano no ‘prédio principal’ da FZA naquela noite e, como lhe disse, tampouco sei da existência de alguma caixa-preta naquela instituição. De tanto tirar onda, você surfou na maionese.” – do deputado Mineiro.
Dado o recado, a única retificação é quanto ao ingresso na FZA. Culpa do uísque, claro. Quanto às caixas – pretas, verdes, encarnadas – reforço o que já disse: também não sei de nada. Aliás, ninguém sabe de nada.
CIÊNCIA
Termina hoje a exposição com os melhores trabalhos da Mostra Científica 2009 realizada pelos alunos do Contemporâneo. No Praia Shopping.
DANOU-SE
Termina hoje a turnê de “Deus danado”, da companhia A Máscara de Teatro. No Caramanchão do Memorial da Resistência, em Mossoró City, a partir das 18h.
AIRES
“No oco do mundo” é o documentário que Kako Gomes e Mel Vasconcelos vão gravar, entre o nordeste do Brasil e a Argentina, sobre três Buenos Aires diferentes: uma no interior de Alagoas, outra no interior de Pernambuco, e a terceira, claro, capital da Argentina.

PROSA
“Se a vida reta fosse uma estrada, olharia apenas para a frente, o passado não significaria nada.”
Rubens Lemos Filho
O homem óbvio
VERSO
“e trouxe comigo / um pouco deste pó do tempo; / este pó inútil do tempo / que se chama o homem.”
Dorian Gray Caldas
“Poema autobiográfico”

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