Escuro, é ainda mais escuro por que coberto de sujeira. Como um trabalhador de minas de carvão voltando eternamente do trabalho.
Escuro, é ainda mais escuro por que os fios dos cabelos e da barba são grossos, negros e salpicados de poeira. Como um limpador de chaminés.
Escuro, é ainda mais escuro por que seus olhos são pretos e profundos, como os de alguém a quem fosse soprada e apagada qualquer chama de esperança.
Escuro, é ainda mais escuro por que suas roupas são sujas, sujos são seus farrapos, descobertas suas chagas, nus seus ferimentos mal-curados, como alguém largado com um sopro de vida em meio ao odor nauseante de morte.
Como alguém deixado abandonado no campo de batalha, a lutar com urubus, hienas, chacais.
Como alguém que expõe suas feridas abertas, réstias e restos de uma guerra perdida e diária.
E.
Porque aqui não existem minas de carvão. Porque aqui não existe trabalho. Porque aqui as chaminés só apontam nos cartões de Natal. Porque aqui Jesus é Jesus Cristo Superstar. Porque aqui Papai Noel – como em todo o mundo, aliás, menos, talvez, no Pólo Norte – é um velhinho bom, gordo, farto e encarnado. E branco e alvo e rosado. Por tudo isso, aliás.
É por isso e algo mais, que ele, o sujeito escuro, de rosto escuro e pêlos escuros, de andrajos sombrios, de odor mascarado por impurezas medonhas, por tudo e isso e muito mais, esse sujeito me dá pena, e antes da pena me mete medo, e antes do medo me provoca nojo, e antes do nojo me incomoda.
Porque quero comer e ele me pede comida.
Porque quero beber e ele tem sede.
Porque guardo meu dinheiro, uma parte suado, outra parte livre de impostos, muito bem guardado no bolso direito da calça, e ele quer tomar meu dinheiro, livre de impostos.
Porque ele quer uma quentinha, cinco reais.
Mas, não, mentira, mentira, sei muito bem que ele, em verdade, em verdade, quer beber e se embriagar com bebidas, mais amargas que as minhas, mais fortes que as minhas, mais excitantes do que as minhas. Porque, ele, quem sabe, e eu sei que sim, porque é assim mesmo, o que deseja é fornicar com mulheres de vida esquálida, mais escuras do que ele até, mais escuras do que eu, com certeza.
Porque, eu sim, quero beber logo mais, quando a noite se estrelar e se iluminar com luzes coloridas e sorrisos preto e branco. Porque, eu, sim, quero trepar com mulheres bem menos esquálidas e muito mais brancas do que eu, e muito, infinitamente mais brancas do que ele, com certeza.
Porque esse sujeito é indecente quando ousa entrar no ambiente imaculado e higienizado, onde pessoas de bem comem e pagam e ele não, porque senão não estaria assim, sujo e não dessujo, espurco e não polido, sem um vintém para pagar o que quer consumir.
Indecente por que se ajoelha aos meus pés e aos pés dos outros e nos dirige palavra. Por que pede, implora, roga. Por que nos faz aflorar, no inconsciente, a lenda cristã de um Jesus-mendigo, que pede e lhe é dado.
Por que nos faz aflorar, no consciente, o desejo de que suma, que não nos incomode, que morra, talvez.

Tal como no polvo, o seu Pedido de Natal é cheio de tentáculos e nos aproxima da condição humana, não necessariamente humanização e civilidade. É isso: somos pedra bruta.