Os muros baixos

27 de fevereiro de 2010

De tanto falarem de mim, terminarei me apresentando a mim mesmo.

– Bom dia, muito prazer, Mário.

– Oi, bom dia, o prazer é meu, mas, rapaz, olha que coincidência, também sou Mário.

– Nãaaaao… Olha que coincidência interessante. Mas, vem cá, não te conheço de algum lugar?

– Pode ser, a cidade é pequena, a gente deve ter se esbarrado em algum lugar, um desses lugares aonde todo mundo vai.

– É, é só o que tem nessa cidade, os mesmos lugares e os suspeitos de sempre. Se você não conhece a pessoa, pode ter certeza que a pessoa lhe conhece. Ou pensa que lhe conhece.

– Mas, sabe que você tem razão? Acho que realmente a gente se conhece de antes…

– Reparando bem, a gente até se parece.

– Mário de quê mesmo?

– Mário Ivo.

– Incrível: eu também!

– Não me diga que você é filho de…

– Pois é, sou.

– Nossa! Isso merece uma comemoração.

– Não bebo.

– Não? Eu sim, bebo de vez em quando, mas já ouvi gente dizer que-tinha-ouvido-falar que eu bebo todo dia.

– O velho disse-me-disse. Fulano disse que Beltrano falou sobre Sicrano… Enfim, não curto muito álcool, não. Sou mais chegado a um Paulo Otávio.

– Como é que é?

– Paulo Otávio, saca? Pê-ó. P.O. Pó, brilho, cocaine.

– Ah, bom, ufa: pensei que você era viado.

– Eu sou.

– Comequié?

– O que você ouviu. Pensando bem, acho que me lembro de alguma coisa que falaram de você. Você não é aquele que come tudo que é mulher?

– Falaram isso, foi? O povo é muito vulgar. Olha os termos. Melhor mudar o rumo da conversa. Aliás, preciso ir.

– Vou também.

– Comigo? Pra onde? E eu nem te convidei.

– Besteira, aonde você for eu vou atrás, de lado, na frente, aliás, nós vamos.

– Nós?

– É, eu, você e os outros Mários. Ou você acha que só existem essas duas versões?

E partiram – digo, partimos – pelas calçadas livres da Grande Cidade, lembrando de uma época em que os muros eram baixos e se espiava a vida dos outros por cima deles. Cresceu, cresceram, muros e condomínios, cercas elétricas e solares franceses, espaços fitness e varandas gourmets – mas os muros alheios continuam baixos.

Baixos, baixos.

2 Já Comentaram para “Os muros baixos”

  1. chico m guedes disse:

    nããão, ce tá exagerando…

  2. Soraia disse:

    Só mesmo relendo Tratado Geral Sobre a Fofoca (Ângelo Gaiarsa)…

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