O povo, a miséria, o esplendor e os intelectuais

21 de dezembro de 2009

Perdi a Estrela do Natal.

Estou desconsolado.

Deveras.

Mas não deu mesmo, motivos pessoais etc. Tanto é verdade que perdi também a festa do Prozac + de Chico Guedes, próximo ao maior cajueiro do mundo em Pirangi do Norte.

Mas colhi uma opinião e outra na leitura matinal do twitter.

Paulo Araújo, diretor de jornalismo da TV Ponta Negra, comentou:

“Simplesmente esplendorosa a parada natalina na Praça Cívica! Um Natal nordestino!

Orgulho imenso do conterrâneo Zeca Zenner, responsável por todo o encantamento na Praça Cívica!”

Que bom. Paulo é do ramo, conhece as coisas, viveu em Angola e sabe que quem gosta de miséria é intelectual.

A prefeita Micarla de Sousa também curtiu. Tão logo acabou o desfile, postou no seu twitter  (em caracteres verdes, justa homenagem ao seu partido):

“A parada natalina ‘Estrela do Natal’ foi emocionante. Parabéns Zeca Zenner e toda sua equipe. Dia 22 tem desfile de novo até o dia 6 de janeiro.”

E, hoje pela manhã, tão logo despertou do sono dos justos, a primeira lembrança não poderia ser outra:

“Bom dia poivo. Ainda muito feliz com o resultado da parada natalina. Foi lindo!”

Devia estar ainda sonolenta, nossa alcaidessa, porque grafou “poivo” em vez de “povo”.

Ou, quem sabe, estava ainda atordoada como a jornalista Michelle Ferret, que, também na manhã de hoje, tuitou uma colher-de-chá do espetáculo:

“Cobertura do desfile temático da prefeitura de Natal… algo surreal. O solzinho da árvore andando nas ruas… e os camarões gigantes…

e eu achando que tava em outro mundo… mas, não… depois, levando um papo com Zeca Zenner, saquei tudo…  ele ficava na praia vendo os camarões…

e viajava em reproduzir camarões e caranguejos gigantes…

saí do desfile com fome… de tanto ver os sóis… rodando na minha frente”

A quinta tuitáda de La Ferret foi sintomática – escapou um pouco da Praça Cívica e foi buscar refúgio na biografia de Clarice Lispector (ato falho: Lispector é aquela moça – intelectual? – que aportou em Natal nos anos 40 e achou a cidade “sem caráter”):

“Clarice, de Benjamin Moser é um livro lindo… biografias são como rachaduras nas paredes…”

Logo, deu uma emassada básica nas rachaduras da memória e recobrou a razão:

Quem não foi ao desfile temático vá… é um momento único na vida de uma pessoa… camarões gigantes passando na sua frente : ) quer mais?

*

Ouvi também um espectador isento, acostumado a desfiles e palanques governamentais, o olho treinado há anos pela convivência discreta com os poderes estaduais e municipais.

(Um tipo que bem poderia ser classificado como intelectual pelos estereótipos usuais – o que contraria sua visão do espetáculo:)

Achou tudo muito pobre e precário. “Penoso”, foi o adjetivo usado em sua econômica opinião.

Mas achou legal (e imagino que enxergou nisso um quê de inclusão social) que a maioria dos figurantes era formada nas fileiras dos bairros periféricos.

O povo, enfim.

Ou “poivo”.

Enfim.

3 Já Comentaram para “O povo, a miséria, o esplendor e os intelectuais”

  1. françois silvestre disse:

    Onde tinha povo e poivo, faltou polvo. Polvo limpo é poivo desenvolvido, lembra? Crustáceo também é intelectual.

  2. Alzira disse:

    o pior de tudo, além do ridículo espetáculo, é o podre da vaidade destas criaturas(prefeita e os ali babões) que na maior cara de pau tentam hipinotizar os sedentos de luz que faltou neste natal.

  3. Soraia disse:

    Tá sobrando espetáculos natalinos que até entendia, e isso não é de hoje. Apesar de avessa a manifestações de nostalgia (as declaradas em geral são conservadoras; as de afeto são silenciadas), preferia quando o Natal se resumia a missa do galo, crianças vestidas de anjinho na encenação do nascimento de Cristo, jantar em casa e um enorme espaço para a fantasia de cada um.

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