O marqueteiro – [II]

3 de dezembro de 2009

No capítulo anterior – por que não dizer assim? – deixamos “O” marqueteiro Alexandre Macedo absorto com seus botões, recapitulando as adversidades da vida profissional, quando, primeiro, não encontrava espaço para trabalhar diante do “absolutismo” dos colegas, depois, quando, encontrando esse espaço, não obtém reconhecimento.

Eu comento que, ao contrário do passado, hoje em dia ele chegou numa posição em que provavelmente é invejado por grande parte do mercado

Não, eu não me vejo invejado.

Eu não me preocupo muito – apesar de ser uma pessoa da área de comunicação – eu não me preocupo muito com o que as confrarias pensam ao meu respeito, na área profissional.

Uma das coisas que as “confrarias” pensam ao seu respeito é a sua relação quase umbilical com a governadora Wilma de Faria.

Não é à toa.

As campanhas eleitorais citadas na primeira parte desta entrevista têm em comum um nome a mais, além daquele do marqueteiro Alexandre Macedo: com exceção da campanha para prefeito de Natal de 2008, em todas elas existe o nome de Wilma de Faria, como candidata direta ou como uma das principais apoiadoras dos candidatos para quem Macedo trabalhava.

Se a gente for analisar a relação Alexandre Macedo-Wilma de Faria – um como o marqueteiro, publicitário, a outra como política –, pra ser sincero a gente tem que dizer o seguinte: depois de 1990, em todos os momentos políticos que a governadora viveu, eu estive presente o tempo todo ou em parte desse processo.

Em 1994, quando ela foi candidata à governadora, nós iniciamos o trabalho, mas não chegamos a fazer nem o primeiro programa. Em todas as outras, a campanha de 92, quando ela lançou Aldo Tinoco… a de 96, quando ela própria foi candidata… a de 2000, quando ela foi candidata à reeleição, eu coordenei o marketing dela… a de 2002, quando ela foi candidata à governadora… a de 2004, quando o prefeito Carlos Eduardo foi o candidato dela… a de 2006, quando ela foi candidata à reeleição…

Essa relação é ainda mais antiga do que se possa imaginar. Macedo faz questão de relembrar que a sua amizade com a atual governadora é anterior a qualquer governo. Remonta à 1982, quando era oficial de gabinete de Lavoisier Maia, e Wilma de Faria era tão somente Wilma Maia, a primeira-dama do Rio Grande do Norte e presidente do MEIOS, Movimento de Integração e Orientação Social, fundado em 1979 e que teve a então esposa do governador como primeira presidente.

Quando acabou o governo, a professora Wilma foi ser secretária de trabalho e bem-estar social do governo José Agripino e me convidou para ser o chefe de gabinete dela. Durante o tempo em que ela foi secretária, eu fui seu chefe de gabinete.

Vinte e seis anos de convivência e seis campanhas eleitorais (sendo quatro tendo Wilma como candidata majoritária e duas como principal apoiadora) fazem pensar que a governadora não dá um passo na política sem ouvir o profissional e amigo.

Eu não sei se sempre, mas nas vezes que procura, ouve.

Nós conversamos muito sobre as questões que envolvem a comunicação do Governo. Nos períodos eleitorais essa relação se aproxima muito. Nas vezes em que ela me convocou, ou como profissional ou como uma pessoa que estava participando da luta, eu sempre estive presente.

Presença essa, claro, que não se restringe aos períodos eleitorais – seja na Briza, seja na Base, Alexandre Macedo tem tido participação direta no atendimento das contas oficiais, desde a década passada, embora ele faça questão de enfatizar que não apenas nas administrações de Wilma de Faria.

Já atendemos contas das administrações de Aldo Tinoco, de Carlos Eduardo, do governador Garibaldi, agora atendemos também a conta da Prefeitura de Natal quando a prefeita é Micarla de Sousa…

E, para ele, estar em uma agência que tem parte da conta do poder público, é também estar à disposição do governante – seja quem for – para trocar opiniões e informações, e realizar seu trabalho como profissional da comunicação.

É normal que nas campanhas, nas movimentações políticas, onde a política Wilma de Faria esteja, é normal que eu esteja – se convidado. Como fui convidado até agora, eu tenho ido. E tenho feito meu trabalho. Agora, isso não significa dizer que eu sou um funcionário da estrutura política de Wilma – que nem tem essa estrutura, oficialmente, não existe isso.

Para Macedo, as relações pessoais não se confundem com as relações profissionais, e estar à disposição do cliente não implica nem em prestígio, nem em qualquer tipo de ingerência nas questões eminentemente administrativas.

Tenho relações pessoais, boas, com a prefeita, tenho excelentes relações pessoais com a governadora, tenho amizade pessoal, mas prestígio é outra coisa.

Eu emito opiniões quando convidado a dá-las. Isso não me faz uma pessoa presente nas ações do governo. É raríssimo a minha presença na governadoria ou em qualquer outra secretaria de estado.

Qual seria então o saldo da relação com Wilma?

Eu acho extremamente positivo. Eu tenho com a governadora uma amizade absolutamente franca e sincera. Eu nunca fiz parte da corte do governo – se a gente for entender corte como sendo, digamos, o imaginável séquito de amigos ou auxiliares que estão ali para agradar ou fazer os salamaleques oficiais. Nunca fiz parte disso, não critico quem faz, mas não é meu estilo.

Então, o saldo da minha relação com a professora Wilma, eu acho que é extremamente positivo – pra nós dois. É uma amizade sincera. Existe espaço para se elogiar, para se criticar, para se discutir, para se questionar – de parte a parte. É por isso que nós nos damos tão bem: eu a respeito profundamente como política, como administradora, e ela me respeita profundamente como alguém a quem ela própria entregou suas campanhas e que tem a obrigação de cumprir a sua parte.

Eu me restrinjo, nas campanhas, à minha parte – a parte de comunicação. Agora, é claro que as pessoas misturam as coisas: o marqueteiro nas campanhas é visto como se fosse um “sombra”, como se fosse um gênio, que produz as maiores invencionices.

*

A essa altura, seria invencionice achar que a “sombra” da governadora não tem a mínima influência nos destinos de 2010?

É claro que eu não pergunto, porque já sei da resposta negativa – as argumentações estão todas aí atrás.

E estão mais à frente também, quando, depois de analisar calmamente o cenário atual e de prever metodicamente o futuro próximo ele se sai com essa:

A mim não compete entrar muito na seara política, isso é com os políticos.

Breve, instantânea, minúscula pausa, para concluir:

Eu acho apenas que Iberê Ferreira de Souza deverá ser o candidato. Porque, como se dizia no passado, quem vai botar o guiso no gato? Quem vai dizer a Iberê que ele não tem condições de ser candidato?

E quem vai dizer a governadora que Iberê não deve ser candidato? – com certeza não vai ser Alexandre Macedo, mesmo afirmando que “as questões políticas de acomodação entre eles não me dizem respeito”.

Eu até agora não conseguiu formular nem saberia sugerir à governadora uma explicação para Iberê não ser o candidato.

*

Vale à pena seguir o raciocínio de Alexandre Macedo, aqui resumido, e imaginar que é mais ou menos o que ele vem dizendo à governadora – desde que tenha sido, claro, se foi, claro, chamado:

Há uma candidata não anunciada, mas em todos os aspectos considerada como confirmada, que é a senadora Rosalba, pelo DEM.

Do lado dos partidos que hoje formam o que se denomina de base aliada do governo, você tem quatro nomes que aspiram a candidatura: o vice-governador Iberê Ferreira, do PSB, o deputado Robinson Faria, do PMN, o ex-prefeito Carlos Eduardo, hoje no PDT, e o deputado João Maia, do PR. Entre esses quatro deverá nascer o candidato. Se você me perguntar quem é que você acha que vai ser o candidato, eu acho que vai ser Iberê.

Por que deve ser Iberê?

Lembram que Alexandre Macedo poupa, em muitas ocasiões, a voz do entrevistador? Pois, a resposta à sua própria pergunta ele vai buscar longe, nem tão longe, três anos atrás, na última campanha:

Em 2006, no primeiro semestre, qual era a realidade política do RN? Wilma governava de fato e Garibaldi governava de direito. Porque ele era senador da República e governador de férias. Alguns já fazendo o secretariado, outros faziam sonhos empresariais. Garibaldi era o cara, o cidadão que seria eleito. Nesse momento de definições, com Garibaldi muito à frente de Wilma, o deputado federal Iberê Ferreira de Souza abdica da sua reeleição, tida como absolutamente certa.

Lembra, ainda, que nessa decisão pesavam questões pessoais – Iberê não queria mais morar em Brasília e ser vice o traria de volta a Natal. Mas para o marqueteiro existe um mérito ainda maior na renúncia do deputado – e a metáfora que ele emprega vai muito além da esfera política:

Quando alguém compra uma ação na bolsa de valores na baixa – eu não tenho nenhuma experiência porque nunca comprei nenhuma ação – mas eu imagino que é assim: quando você compra uma ação que está em baixa e essa ação amanhã vem a se valorizar e você ganha legitimamente seu dinheiro, merece parabéns em dobro.

Iberê comprou a ação de Wilma na baixa. Quando ele aceitou entrar na chapa, ele aceitou ser vice de uma candidata que naquele momento não tinha a expectativa de vitória. Na época, me parece, fez uma articulação política para que as pessoas que o seguiam, majoritariamente, passassem a acompanhar o [candidato a] deputado Fábio Faria, numa articulação com o deputado Robinson.

Então, ninguém pode negar que Iberê teve uma participação importante na reeleição de Wilma. Primeiro, quando agregou sua parte político-eleitoral, maciçamente vinculada ao Trairi e ao Seridó. Segundo, quando veio na baixa.

*

Dito isso, Macedo faz uma longa lista de elogios à atuação de Iberê enquanto vice-governador – que não vai ao caso elencá-las aqui, senão, pela grandeza e presença de detalhes, como sinal de que o marqueteiro já começou a fazer seu dever de casa para o próximo ano.

Mas lembra ainda que, politicamente, tem sido um vice-governador que não tem criado nenhum problema para a governadora – quando os exemplos históricos tradicionalmente podem mostrar o contrário.

Foi um vice discreto. Não roubou espaço da governadora, não dividiu o brilho.

Além do mais é do mesmo partido da governadora, o PSB.

É preciso entender que a governadora não é só governadora, ela é presidente de um partido, partido que abdicou do direito de fazer um sucessor em Natal – para alguns, equivocadamente. Então, em 2010, vendo sob o ângulo do PSB, abdicar de novo seria um erro pouco explicável.

Chega então o momento em que o publicitário, o marqueteiro, o dono de agência que tem parte da conta do governo, o consultor sempre à disposição do governante-cliente, deixa de lado o papel de analista imparcial e ocupa a sua própria pele:

Então, você tem esse cara, sentado na cadeira de vice-governador, que vai ser governador durante nove meses, e você chega agora e diz “não, você não vai ser o candidato”… Qual a explicação? Eu até agora não conseguiu formular nem saberia sugerir à governadora uma explicação para Iberê não ser o candidato.

Então…

Eu acho que Iberê será o candidato do PSB. Vai unir todos os partidos que formam a base do governo? Não sei. Deveria unir, se todos dosassem um pouco o senso de oportunidade e calibrassem a humildade. Deveriam entender que Iberê não terá outra chance para ser candidato, em função da idade, e porque a legislação não permite que ele seja governador e candidato a deputado federal.

Então, se houver coerência, esses outros partidos que compõem a base do governo apoiarão o candidato do governo. Mas a política é feita de coerência e às vezes de coerência de ordem pessoal.

Só haveria uma maneira de evitar que ele seja candidato: se a governadora ficasse no cargo e ele não pudesse assumir o cargo de governador.

A outra maneira é se o povo disser, através das pesquisas, até junho, quando abrem as convenções, que ele seria irrisório na próxima disputa eleitoral.

Macedo não acredita nisso. Acha que, se Iberê não ultrapassar, antes de março, os outros pretensos candidatos a candidato, naturalmente passará depois, quando assumir o governo, “só pela visibilidade que o cargo de governador dará a ele”.

Mas, e os outros insatisfeitos? Robinson Faria, por exemplo?

O deputado Robinson tem merecimento para ser candidato a governador. Robinson tem todas as condições para num futuro bem próximo ser candidato a governador.

Então está combinado: Iberê Ferreira de Souza tem as condições políticas e o merecimento. Robinson Faria tem o merecimento, mas as condições, só num futuro próximo.

Daí a pergunta lógica: ele deveria repetir o que Iberê fez na campanha de 2006? Ser vice agora para se candidatar em 2014?

Macedo fica em silêncio. Mais: parece engolir o silêncio. E alguma lembrança ou raciocínio oculto ajudam a digerir esse silêncio. A resposta sai, lentamente, envolto num riso, não diria cínico, nem sarcástico, mas irônico:

Eu nunca fui convidado a dar orientação nem conselho ao deputado Robinson.

Mas, segundo o seu raciocínio, Robinson poderia, ou deveria, ser o vice de Iberê – insisto.

Eu acho que seria mais coerente ao deputado Robinson ficar aliado ao grupo…

Como vice de Iberê?

É uma alternativa. Aí eu me eximo de dar essa resposta porque as questões políticas de acomodação entre eles não me diz respeito.

Se ele tem as condições de ser candidato a governador, por que não teria de ser vice? Ou até não ser, mas fazendo parte de um projeto político que tenderia a firmar uma grande parceria para os próximos quatro anos.

Ademais o deputado Robinson sabe que Iberê, se eleito governador, só poderá governar por quatro anos, porque se tratará de uma reeleição, em função de ele assumir por nove meses.

*

Para concluir este segundo capítulo, Alexandre Macedo reforça seu quase engajamento no projeto Iberê 2010:

A população não vai votar em Iberê porque ele é o candidato de Wilma, de Lula, de fulano ou de beltrano, ou porque é a sua última chance – vai votar se julgar que ele tem um projeto bom para o estado.

A estratégia de marketing vai vender esse projeto, não como um continuísmo, mas como uma continuidade do governo Wilma?

Se você não for uma pessoa radical e de oposição ao governo Wilma, você vai verificar que foi um governo que, se não conseguiu resolver todos os problemas do estado, conseguiu vários avanços.

Eu acho que em algumas áreas, o candidato Iberê deve formatar um projeto de continuidade nesses avanços. Em outras, deve fazer uma política diferente. O governo de ninguém acerta tudo nem erra tudo. Do mesmo jeito que eu acho ridículo algumas pessoas acharem que o governo Wilma foi o melhor governo do planeta, que acertou tudo, que é uma maravilha, eu acho que é completamente descabido a oposição radical achar que o governo não fez nada, ou que fez muito pouco para o RN. É mentira as duas coisas.

*

A seguir, Alexandre Macedo fala sobre os bastidores da campanha de Micarla de Sousa, sobre marketing político e de como venceu o medo de voar.

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