O marqueteiro – [I]

2 de dezembro de 2009

O que têm em comum as campanhas eleitorais para a prefeitura de Natal de 1992, 1996, 2000, 2004, 2008, e para o governo do Rio Grande do Norte de 2002 e 2006?

Resposta: o mesmo nome por trás do marketing – Alexandre Macedo. Que resume o currículo sem um pingo de modéstia mas, paradoxalmente também, sem sinais exteriores de orgulho:

É um largo histórico, e, graças a Deus, de sucesso.

Isso. Ia esquecendo a palavra mágica, sucesso, essencial para entender e traçar o perfil do entrevistado: além do mesmo marqueteiro, todas as sete campanhas citadas têm em comum o fato de serem vitoriosas.

*

Não é fácil encontrar Alexandre Macedo. E não apenas porque o motivo do encontro é uma entrevista. Ele não gosta de falar ao celular – a não ser com poucas pessoas –, demora para responder e-mails – embora esteja conectado à internet dez horas por dia –, e não circula muito pelos lugares onde a cidade costuma ver e ser vista na mistura que a caracteriza: o poder político perfilando-se ao lado do que se convencionou chamar Jet Set e vice-versa – não à toa, as colunas sociais natalenses já há alguns anos vêm se confundindo com aquelas políticas.

Macedo aparece pouco nas duas, embora seja fonte privilegiada e anônima de ambas. Uma pesquisa no Google dá a dimensão de sua discrição – ou da homonímia do seu nome: dos mais de 6,5 milhões de resultados, poucos referem-se ao publicitário nascido em Natal, em julho de 1961 – “48 anos, portanto, percorrendo os caminhos desta cidade, tentando conhecer os seus mistérios”, como se autobiografou.

Os caminhos que Macedo percorre são quase sempre os do poder, ou que levam a ele.

Eu nunca me considerei uma pessoa com poder. Há uma interpretação equivocada desse aspecto. Eu costumo dizer que uma pessoa que trabalha no marketing de um político, de um governante, como é o meu caso – eu faço trabalhos para o PSB, faço trabalhos para o Governo do Estado, não posso negar que sou a pessoa, do meio publicitário, mais ligada à governadora – mas eu nunca raciocinei que isso se chamasse poder.

Por que?

Quem pergunta e responde é o próprio entrevistado, como aconteceu em vários momentos da conversa, vício de quem não acredita na necessidade de diploma para atuar na área (“eu não sou jornalista, mas a gente mergulha na área da comunicação e é forçado a ter uma visão mais ampla”).

Voltando à seu próprio “por que” anterior:

Eu digo muito o seguinte: não confunda acesso com prestígio. Uma coisa é o meu acesso à governadora, ao atual Governo, a outra coisa é um prestígio que eu possa ter, pessoal. Quando alguém vem me pedir um favor – que é normal, desde que seja ético – eu digo logo: procure outra pessoa, não me leve a mal. Eu não tenho prestígio com o Governo, eu tenho acesso ao Governo.

Por que?

(Já entenderam, não é? – é ele mesmo quem novamente pergunta e responde:)

Porque 99% das vezes em que eu me encontro com alguém do Governo, eu estou tratando de assunto de interesse do Governo, não dos meus nem da minha empresa.

*

A empresa de Alexandre Macedo é a Base Propaganda. Não é a primeira, mas a segunda agência que teve.

Em dezembro de 1984 eu entrei numa sociedade, a Briza Promoções, uma empresa de eventos. Um ano depois, a gente começou a dar os primeiros passos na publicidade.

Dois anos depois, a Briza tem seu primeiro contato com a política, embora ainda limitando-se à área de eventos: na campanha do deputado federal Jessé Freire Filho, a agência organiza alguns passeios ciclísticos. O marketing político ainda está distante.

Isso começou em 1990, quando nós… eu fiz a campanha do então deputado federal Iberê Ferreira de Souza. Foi o primeiro passo efetivo dentro do marketing político.

Fizemos a campanha dele, eu coordenei o marketing e foi a primeira campanha vitoriosa, onde eu tive uma participação direta. Era uma campanha de candidato proporcional, mas entramos… entrei com o pé direito: Iberê foi eleito.

Perceberam que Macedo se corrige em dois momentos, trocando a primeira pessoa do plural pela primeira do singular? Não é acaso. Alexandre – como veremos mais na frente – parece não gostar citar o nome do ex-sócio, José Ivan. Tem também uma certa dificuldade em falar sobre velhas parcerias. Quando começa a contar os bastidores da primeira campanha majoritária, se corrige novamente:

Nós… eu fui procurado a trabalhar na campanha de Aldo Tinoco. O convite partiu da então prefeita Wilma, que era, inegavelmente, a maior força política da coligação que lançou Aldo como candidato e elegeu Aldo prefeito. Tinha outras pessoas envolvidos, naquela ocasião havia um trabalho compartilhado.

Permanece em silêncio – é preciso perguntar, quase extrair com esforço a resposta às perguntas: Com quem? Quem era a outra pessoa?

Ricardo Rosado.

Ponto. Ainda um breve, brevíssimo silêncio.

*

A dificuldade talvez tenha explicação.

Sempre fui uma pessoa de poucos amigos, de amizades boas mas numericamente poucas.

Diz continuar acreditando no relacionamento entre pessoas – como se fosse necessário acrescentar um “apesar de”.

Coisas que me sensibilizam ao longo do tempo são demonstrações evidentes de amizade. Mas todos nós temos os bons momentos de identificar amizades e, lamentavelmente, temos as frustrações do inverso.

Quando eu o adjetivo como alguém essencialmente “cerebral” para a seguir perguntar sobre o que o emociona, ele se defende, se inclina em direção ao frigobar para pegar um copo d’água, ganha tempo e, invertendo, como mesmo assume, as posições de entrevistado e entrevistador, pergunta:

O que é pra você ser cerebral?

Alguém que consegue ser racional o suficiente, principalmente nas adversidades – respondo, quase sem pensar. Em situações difíceis – acrescento –, quando normalmente algumas pessoas podem se mostram mais frágeis e vulneráveis, você parece que tem o controle total de toda a situação. A resposta vem imediata:

Ninguém tem o controle total das situações, principalmente das adversidades. Eu sou uma pessoa que já enfrentei várias adversidades na minha vida. E comecei a enfrentá-las um pouco cedo – então, não é uma novidade na minha vida.

Lembra, com razão, que quase sempre as pessoas relacionam dificuldades ao aspecto econômico.

Não tive dificuldade financeira, nasci numa família de classe média-alta, meu pai bem posicionado profissionalmente, tabelião num cartório da capital – nunca fomos ricos, e nunca tivemos nenhum problema de ordem financeira. Sempre tivemos uma vida com conforto, com parcimônia, com equilíbrio… esse tipo de adversidade – porque é muito comum as pessoas olharem a vida dos outros por esse ângulo, apenas por esse ângulo – eu nunca tive.

Se isso me fez formatar ao longo do tempo um estilo mais cerebral do que emocional, ao menos externamente, é até bem possível. Eu tenho o hábito de, diante de qualquer situação, criar dentro de mim mesmo uma certa distância crítica, de forma que não carregue a emoção como sendo 100% da solucionadora do caso.

Conclui, aparentemente satisfeito com o controle exercido na explicação da resposta, ainda com uma sombra de auto-defesa:

Entre cerebral e emocional, eu diria que externamente eu pareço muito mais cerebral. Mas internamente eu tenho uma boa carga de emoção.

*

Motivos para se sentir atacado, ou injustiçado, Macedo os tem de sobra. Talvez seja exagero catalogá-los como adversidades, mas é inegável que demorou para ter o sucesso reconhecido – sem contar o velho chavão que no Brasil sucesso é ofensa pessoal, como dizia Tom Jobim.

O que acontece no nosso mercado é uma coisa interessante: eu me lembro bem, em 1992, eu participei, eu não fui o coordenador da campanha, mas participei da coordenação de marketing da campanha do então prefeito Aldo Tinoco. Quando Aldo ganhou a eleição, as pessoas que estavam naquele tempo como absolutas na comunicação do RN, e na comunicação política, passaram tempos e tempos escrevendo nos jornais que Aldo não tinha vencido a eleição – Henrique é que tinha perdido. Isso era uma forma de diminuir o trabalho feito pelo próprio Aldo como candidato, pela apoiadora Wilma, e também uma forma de desmerecer as pessoas que estavam na comunicação.

Wilma foi candidata em 1996. Quando foi eleita, começaram a dizer: “também… tinha o apoio de Zé Agripino… tinha o apoio disso, tinha o apoio de fulano, de beltrano, enfrentou candidatos fracos…” Mais uma vez era uma forma de dizer: nem Wilma foi eficiente politicamente, nem o marketing serviu para muita coisa.

Veio a eleição de 2000, Wilma candidata a reeleição, eu coordenador de marketing da campanha, Wilma se reelege, e no primeiro turno. Mais uma vez o que é que se disse? “Não… também.. tinha o apoio de Garibaldi, era a prefeitura e o governo juntos… Fátima não tinha estrutura…” Então, eu me acostumei com isso.

Quando foi em 2002, veio um desafio enorme. Wilma deixa a prefeitura e nos convida para uma luta onde valia muito mais a emoção e o sonho do que qualquer outra coisa.

Nós aceitamos o desafio, um dos maiores, senão o maior: uma campanha fragilizada em termos estruturais, sem recursos – todo o tipo de pobreza existia naquela campanha.

Na área política as pessoas diziam “Wilma não vai passar de Macaíba”. E na área de comunicação, alguns diziam: “Ah! Não tem a menor graça… Quem vem pra tomar conta da campanha adversária é fulano de tal, que vem de São Paulo, o outro vem de não sei onde, de Brasília, do Rio de Janeiro”. Quando a governadora ganhou a eleição: “Não… foi um fenômeno… e contra o fenômeno não se pode combater…” Então, também nunca ouvi dizer que o marketing sequer tivesse ajudado.

*

Vinte e cinco anos depois daquele dezembro de 1984, quando lançou a pedra fundamental de tudo aquilo que tem hoje, com uma pequena produtora de eventos, o publicitário não consegue esquecer como foi difícil encontrar um lugar próprio dentro do mercado dominado pelos grandes publicitários da época.

O que eu desejei na publicidade, eu consegui. Quando eu comecei, eu desejava ter uma conta da área privada. Conseguimos buscar um espaço ao sol que muitas vezes parecia nem existir mais. E atendi várias contas grandes, grandes contas na área privada.

Depois, eu desejei ser capaz de atender conta pública. Porque havia um tempo no RN em que todos nós, ou quase todos nós, éramos “incapazes” disso. Porque ninguém conseguia, então, éramos “incapazes”. Porque não havia oportunidade – veja bem, às vezes as pessoas não querem dizer isso com medo de ferir, eu não estou querendo ferir ninguém, é uma verdade que nós vivemos aqui. Então, nós conseguimos chegar a atender conta pública, e há 18 anos eu estou em agências que atendem conta pública.

Parêntesis: entre as décadas de 80 e 90 do século passado, o mercado publicitário, principalmente no que se refere a contas públicas, era dominado pela Dumbo Publicidade & Promoções, que se consolidou durante o governo de José Agripino.

Pergunta inevitável: a Base, hoje, seria a Dumbo de décadas passadas?

Eu acho que há uma diferença gritante entre o que foi a Dumbo no passado e o que hoje as pessoas podem considerar que exista no mercado por parte da minha agência, a Base. São dois históricos completamente diferentes, vivendo épocas diferentes, dirigidas por pessoas com personalidades diferentes, com modos de entender o mercado diferentes.

No passado existia uma concentração absurda quanto ao domínio da verba pública. Isso não existe mais – e graças a Deus não existe mais, porque a gente tem que ter a percepção de que hoje você está numa posição e amanhã pode estar numa posição inversa.

A Dumbo viveu um momento politicamente diferente, juridicamente diferente, havia toda uma situação de mercado que era absolutamente diferente do que é hoje.

*

A seguir, Alexandre Macedo fala sobre sua relação profissional e pessoal com Wilma de Faria, sobre os bastidores da campanha de Micarla de Sousa e sobre quem deve ser o candidato do governo em 2010.

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