O marqueteiro – [IV]

9 de dezembro de 2009

Eu fiquei especialista em campanhas onde os candidatos iniciam com poucas condições de vitória.

A frase foi pinçada, de propósito, em meio a mil e outras declarações. Claro que não está fora de contexto algum, isolada aqui para distorcer algo – mas serve de alavanca para outro tema da entrevista: as eleições 2010.

Alexandre Macedo é cuidadoso. Ou cauteloso. Ou manhoso. Entendam como quiserem. Se não estava nas entrelinhas do que ele disse – ou do que eu comentei – até agora, eis chegada a hora de dizer. Pois:

– Alexandre Macedo é cuidadoso. Ou cauteloso. Ou manhoso. Ou precavido. Ou prevenido. Ou prudente. Entendam como quiserem – e fui atrás de mais sinônimos, para reforçar ainda mais os processos e estratégias mentais onde parece estar sempre mergulhado.

Ele prefere dizer e repetir e enfatizar que não foi convidado ainda por ninguém. Mas, claro, existe uma probabilidade – ou lógica – de que no próximo ano ele preste serviços a Iberê Ferreira de Souza, candidato ao governo, e a Wilma de Faria, candidata ao Senado.

Vou além – e acrescento: dentro deste cenário, é possível que o embate, no plano do marketing, se dê entre Alexandre Macedo e Arturo Arruda [da agência Art&C, que já vem prestando uma assessoria e serviços à senadora Rosalba Ciarlini].

Parêntesis: já foi demonstrado aqui como o marqueteiro evita o confronto com os outros colegas, às vezes preferindo quase ignorá-los. Ou como quando, não desejando assumir algo explicitamente, prefere dizer que não sabe, não conhece, não viu – o jeito Alexandre Macedo de ser se repete na resposta:

Há uma certa tendência nisso tudo aí, mas, vamos esperar… Você falou contra Arturo Arruda? Não sei também se a senadora Rosalba já convidou, já planejou, já formatou um projeto… Confesso não ter informações quanto a isso. De qualquer maneira, a disputa será entre os candidatos, não entre os profissionais de comunicação. Nós profissionais de comunicação temos de aprender que os políticos divergem nas campanhas e se abraçam pouco tempo depois. Nós temos apenas que cumprir bem o nosso papel.

Eu estaria sendo incorreto se dissesse que há um certo ar de desdém na sua análise quanto a um possível opositor, de maior ou igual envergadura, segundo sua opinião, no marketing – mas não é falso enxergar uma sutil ironia, uma certa acidez crítica, quando não se contém e faz um último comentário sobre o proprietário da Art&C (com quem, aliás, é sócio de alguns empreendimentos, mas com uma relação que nos últimos tempos, se não é de confronto, tampouco é de camaradagem).

Ele me parece que tem uma relação bem próxima com o Democratas, a tirar pela última vez que eu o vi trabalhando na campanha de Ney Lopes a prefeito de Natal em 2004.

Explica-se a sutileza: candidato Ney Lopes perdeu fragorosamente a eleição.

*

Citar Arturo Arruda, aqui, não é à toa: recentemente seu pai, e ex-sócio da Dumbo Publicidade (lembram? aquela agência que, segundo Macedo, não deixava espaço para mais ninguém no fim dos anos 80, começo dos 90), lançou o Novo Jornal. Segundo o próprio Cassiano, em entrevista ao portal Nominuto, o Novo Jornal “pertence a Cassiano Arruda Câmara com sócios com cláusula de confidencialidade”, embora ele mesmo admita que “todo mundo diz: é Cassiano com não sei quem. Eu não desminto nem confirmo.” E, logo a seguir: “Todo mundo está dizendo que é o jornal de Rosalba e de José Agripino. Eu sou amigo de Agripino há 50 anos e de Carlos Augusto [marido de Rosalba, e entronizado por alguns blogs locais com a duvidosa sigla “MMM” – marido, mentor e marqueteiro] há 60, mas o fato de ser amigo de Agripino nunca me fez agredir os fatos. Se ele estiver bem na foto, ele sai bem na foto; se não estiver, não sai. Agora, este novo jornal não será pensionista de governo nenhum nem de ninguém. O leitor não é burro. No primeiro número, ele sabe. Mas também eu não vou comer corda. Pra mostrar que o jornal não é de José Agripino, eu vou esculhambar com ele? Comigo não.”

Tudo indica que Alexandre Macedo não concorda com essas afirmações.

Embora afirme que espera que a campanha seja difícil, mas de alto nível, “naquilo que vai e naquilo que não vai às telas de televisão”, é especialmente crítico com a mídia, incluindo a impressa – e, mesmo não tendo sido explícito, quando cita, no trecho a seguir, a existência de “alguns quartéis”, é impossível não pensar no Novo Jornal.

A campanha de 2010 já começou. Ela não está nas ruas, porque nas ruas ela só vai em julho de 2010, mas nos bastidores ela já começou. E nos bastidores o jogo é mais duro do que quando vai pras ruas. Agora há um período de queimações, os atores estão começando a se posicionar nos seus quartéis. Vai ser uma eleição difícil porque há um grupo que quer tirar do poder quem está no poder. A governadora vem no poder há sete anos. E há um grupo que no começo não admitia que isso fosse possível – esse partido diminuto e essa estrutura diminuta, sem estrutura de comunicação, sem estrutura empresarial, essa mulher querer governar o RN. E essa mulher foi e venceu a eleição. Agora esse mesmo grupo vai se juntar pra tirar Wilma do mapa político do RN. São estruturas mais ramificadas, que ao longo do tempo foram se fortalecendo e que estão na política, no mundo econômico, e na mídia.

Já se deu início a um processo de fortalecimento de alguns quartéis de onde já tem saído bala.

*

Escapando das balas – perdidas, encontradas, direcionadas – a pergunta que não quer calar é: como explicar tantos anos no poder e nenhuma estrutura de comunicação ou empresarial?

Eu acho que o sistema político da governadora Wilma – como tem uma visão muito diferente de alguns outros grupos, na questão empresarial – não criou, ao longo de todos esses anos de governo, uma estrutura própria de comunicação. Aliás, Wilma não tem uma empresa. Dona Wilma é uma política que, deixando o  governo no dia 2 de abril, que eu saiba, volta a ser professora da universidade. Ela não tem uma indústria, uma rede de varejo, nem uma loja – e não tem um veículo de comunicação. Ao contrário de muitos outros políticos daqui. E não estou desmerecendo nem criticando nenhum deles: eles aproveitaram oportunidades que surgiram, se ela não aproveitou, pode até ter sido por incompetência. O fato é que ela não tem.

O estranho – e é bom que daqui a alguns anos alguém escreva sobre isso – é que ela, não tendo uma estrutura de comunicação própria, conseguiu vencer uma serie de eleições lutando contra pessoas que têm o domínio sobre a área de comunicação.

*

Então, de volta para o futuro próximo.

Quando ele afirma ter se especializado em campanhas onde os candidatos iniciam com poucas condições de vitória, imediatamente eu cutuco a onça com a vara mais curta que há:

Então, seu candidato ideal é realmente Iberê…

Não… não…vamos por partes…

E vai enumerando as campanhas difíceis, começando pela clássica, de 1992, que elegeu o azarão Aldo Tinoco, passando pela de 2004, quando, no final do ano anterior, Carlos Eduardo tinha 2% contra os 40% de Luiz Almir.

Mas sua grande campanha memorável, a preferida, foi, realmente, a de 2002, quando, tal como dez anos antes, com Aldo, Wilma era o azarão.

Eu fui ouvido várias vezes, quando ela me pediu opinião, e algumas vezes até colocando pra ela o fato de que era uma campanha de altíssimo risco. Tem de se dar o mérito total da decisão de 2002 a ela. Ela realmente foi quem teve o feeling mais apurado pra perceber que aquele era o momento que dava certo – e o estilo era “se não der certo, o que é que tem?”

Ela foi num supermercado que não existe e comprou um pacote de ousadia, botou na cabeça e disse, vou com ele, e acabou-se. E vai comigo quem for ousado. Foi assim que ela me fez o convite – ela olhou pra mim e disse: “Eu quero saber como é que anda seu grau de coragem.”

*

Oito anos depois, as experiências vitoriosas parecem desconhecer a necessidade de coragem – ao menos da parte do profissional de marketing, que, indiscutivelmente, está numa situação melhor do que a cliente que o consagrou: a situação de Wilma para o Senado não parece muito melhor do que a de Iberê para o governo.

Eu acho que ela vai começar a campanha para o Senado como começou as outras – e Deus queira que comece igual como começou as outras: tendo de lutar muito, e gastar o solado do sapato para vencer.

Não estou dizendo que ela vai vencer, mas que vai entrar na campanha com todas as condições de vencer a eleição – porque ela deverá colocar o que fez na sua vida pública, todo o trabalho que desenvolveu quando exerceu o poder, e a população vai julgar.

Será uma eleição – no quadro atual, Wilma, Garibaldi, José Agripino – disputadíssima. Todos os três terão governado o estado por dois mandatos, em períodos diferentes mas durante o mesmo tempo: oito anos. Todos os três são conhecidos pelo povo, foram prefeitos de Natal – e Garibaldi e José Agripino são senadores da República.

Cada um vai contar a sua história. Vai caber ao povo dizer, das três histórias, quais são as duas, não digo as melhores, mas quais são as duas que merecem relevância.

*

Alexandre Macedo é um dos que acreditam que a eleição nacional – dividida entre dois alinhamentos políticos: um pró-Lula e um contra Lula – vai ter peso importante na eleição local.

Talvez haja uma polarização, também no RN, entre os que são simpáticos ao estilo Wilma de governar e os que não são simpáticos a esse estilo.

Vai caber ao marketing estudar como situar a eleição local no cenário nacional e como situar a eleição nacional no cenário local.

Lembra que o senador Garibaldi Alves já vem externando um certo radicalismo – “extemporâneo”, na sua opinião – com a governadora, e vice-versa.

Talvez o comando estratégico de Garibaldi já esteja pensando na possibilidade de uma polarização mais à frente. Já há um entendimento que a polarização de José Agripino com Wilma deve ser evitada.

Não à toa, relembra o passado recente, quando, em 2006, Wilma – e o seu marketing, claro, ele faz questão de não esquecer – romperam com um mito:

Em 2006, tanto a parte política era desacreditada – porque Garibaldi ia ganhar a eleição, não tinha o que discutir, 20, 30 pontos na frente na pesquisa – como o marketing: nós íamos ser massacrados porque vinha uma equipe de São Paulo fazer a campanha de Garibaldi. E a governadora ganhou a eleição duas vezes: ganhou no primeiro turno e ganhou no segundo turno. O grande fato político é que acabou-se um ciclo grande de tempo, aqui, do mito da invencibilidade de Garibaldi. Provou-se que não existe isso, a governadora provou isso: nem ela é imbatível, nem ele é invencível. Provamos mais uma vez que competência no marketing político não precisa ir se buscar em canto nenhum – tem aqui e aliás até um pouco de sobra, tanto que exportamos: tem muita gente daqui trabalhando fora.

O assunto que pautou o segundo turno foi a Cosern. Acertamos na condução do assunto e a campanha de Garibaldi equivocou-se na condução do mesmo assunto, o que o deixou em situação desfavorável.

*

De volta aos mass media, o provável futuro marqueteiro de Wilma e Iberê em 2010 acredita que tudo possa ser combatido e revertido – e vai buscar num exemplo nacional as suas previsões otimistas para o ano que vem, no terreno local:

A mídia que majoritariamente quis Lula presidente em 2002, a mesma mídia majoritariamente não quis Lula reeleito em 2006. E não conseguiu impedir que Lula fosse reeleito. Aqui no RN a realidade é a mesma. Existem grupos políticos que dominam veículos de comunicação, ou diretamente ou por simpatias, e esses grupos não trabalham no desejo de que Wilma continue a ser uma liderança forte no RN. O objetivo será diminuí-la.

O objetivo d’O marqueteiro é aumentar, ou consolidar essa liderança. Aliás, o objetivo d’O marqueteiro é vencer.

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Na conclusão, a seguir, Alexandre Macedo fala sobre como venceu o medo de voar e por que não se acha um vitorioso (embora afirmando: “Eu graças a Deus ainda não senti o gosto da derrota – e espero não sentir, mesmo”).

2 Já Comentaram para “O marqueteiro – [IV]”

  1. Antônio Melo disse:

    Mário Ivo, um abraço
    Por indicação de Daniele Brito achei seu blog. Fiquei contente duas vezes. Nele encontrei, também, a entrevista do marqueteiro amigo, Alexandre Macedo. Muito boa, mesmo. Inteligente. Enquanto aguardo a chuva de todo final de tarde, aqui em sampa, continuo minha leitura do seu blog. Um abraço e, através, dessa “ferramenta” mando também abraço igual a Alexandre que, aliás, está me devendo o compromisso de que quando viesse a São Paulo, voltariamos a nos encontrar.

  2. Mario Ivo disse:

    melo: quem é vivo sempre aparece – mesmo debaixo de chuva ou garoa. abraços de cá tb e continue aparecendo, por aqui, por aí, por acolá.

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