O marqueteiro – [III]

4 de dezembro de 2009

Existe no RN uma forma de carimbar as pessoas: fulano é agripinista, beltrano é wilmista, sicrano é garibaldista, fulano de tal é micarlista. Eu sou um profissional da comunicação. Profissional esse que foi extremamente valorizado e respeitado pela política Wilma de Faria.

Alexandre Macedo recusa o rótulo e a fama de marqueteiro de um político só, embora reconheça, como já vimos, a proximidade com Wilma de Faria. O assunto aqui, claro, é a campanha de 2008, quando pela primeira vez o marqueteiro e a política permanecem em lados opostos – ela, apoiando a candidatura de Fátima Bezerra, ele no comando do marketing de Micarla de Sousa.

Mas em 2004, eu fiz a campanha de Carlos Eduardo. Ele era do PSB, era ligado à Wilma, mas ele não era Wilma, podia ter escolhido outro nome.

Eu não posso escolher os clientes.

Em 2008 eu fui convidado pela deputada Fátima para coordenar o marketing da campanha dela – várias vezes. Chegamos muito perto de elaborar um projeto final. Não foi possível. Não foi possível. As pessoas raciocinam que era a campanha mais estruturada, porque era apoiada pelo presidente da República, pela governadora do estado, pelo prefeito da capital, pelo presidente do Senado Federal, pelo líder da bancada do governo na Câmara Federal – em tese poderia ser. Aí é um dos mistérios da política – me parece que não foi.

Todos esses apoios não encontraram uma maneira prática de me dar as mínimas condições de trabalho.

Quando ele diz que “chegamos muito perto de elaborar um projeto final” na verdade quer dizer, como mesmo revela depois, que chegaram perto de assinar um contrato, impossibilitado diante das “mínimas condições de trabalho”.

Nós tivemos uma reunião aqui na agência, onde apresentei o projeto de campanha e onde senti que não teria as condições que gostaria de ter para tocar com responsabilidade a campanha. Telefonei para Adriano Gadelha, assessor da candidata, depois dessa reunião, e comuniquei que estava fora, a partir dali se encerrava a nossa boa relação, até então, a nossa relação respeitosa, sem nenhum problema. E encerrei qualquer conversa.

O que parecia ser a campanha mais estruturada revela-se, segundo Macedo, totalmente desestruturada, o que o leva a pular fora do barco nos últimos instantes, aumentando o clima de desconfiança generalizada de que, no final das contas, a deputada petista não era a candidata de consenso entre os maiores apoiadores.

Em campanha há um “time”, e a campanha da deputada Fátima foi atrasada em tudo. Ela foi atrasada na definição de um candidato… Depois, já olhando a campanha de fora, a convenção de Fátima foi um espetáculo absolutamente circense – você chegar na convenção às 4 horas da tarde sem um vice. Foi uma coisa mal planejada, foi mal organizada…

Alexandre Macedo deixa o circo pegando fogo e vai passar “um período de férias” em São Paulo. A governadora liga, lamenta, pede para rever a sua decisão. Nada.

Não foi a única a ligar.

Além de convites pra fazer campanha no interior de São Paulo (“cheguei a ter conversas, mas as questões pessoais e também meus pequenos negócios em Natal, sem ter planejado antes, me impediram aceitar”), pessoas próximas à Micarla voltam a convidá-lo – como assim, “voltam”?

Já tinham feito sondagens, antes, mas eu já estava conversando com a deputada Fátima, não podia conversar com duas coligações diferentes, sobre o mesmo assunto, na mesma hora.

Apesar de dizer que seu projeto inicial era acompanhar a campanha desde São Paulo, volta para Natal. E voltam os convites. Ele não confirma, mas diz-se que o convite foi feito diretamente pelo senador José Agripino Maia.

Aceitei fazer uma consultoria, onde avaliaria a campanha no decorrer do tempo. Comecei a ter reuniões, com redator, diretor de TV, comecei a dar opiniões. O engajamento foi aumentando passo a passo.

Ele também não confirma, mas diz-se que a governadora chegou a se incomodar com o “engajamento” do aliado de sempre. Não se sabe, não se diz, mas, talvez por isso mesmo, ele viaja novamente, dez, doze dias na águas mornas da Bahia, Porto Seguro, Trancoso. De onde, também, diz-se, continuava a consultoria.

Parêntesis: não é de se estranhar tanto disse-me-disse, ou tantas histórias que mais parecem de trancoso. Quem acompanhou o período eleitoral sabe que a confusão não foi pouca. De um lado, após a saída brusca e pública de Macedo da campanha de Fátima, surgiram rumores que diziam que os aliados chegaram a pedir à petista que desistisse da candidatura. Do outro lado, os problemas não eram menores: a primeira coordenadora do marketing de Micarla, a baiana Balila Santana, também deixa o posto, depois de mais boatos e avisos reais.

A campanha de Micarla era muito fragmentada. Não havia um comando estratégico que envolvesse a parte de produção de comerciais, a parte de pesquisas… era uma coisa meio fragmentada.

Último disse-me-disse, impossível de não ser registrado: durante um tempo, Alexandre Macedo teve um codinome entre os envolvidos diretos da campanha do PV em 2008: Mister M.

O codinome dispensa explicações.

Boato ou verdade, o fato, confirmado pelo próprio, é que a sua administração acontecia fora da produtora, “tendo reuniões com dois ou três profissionais que estavam envolvidos na campanha e uma linha direta com a prefeita”.

Mas, estou me adiantando, ainda estávamos sob o sol de Porto Seguro, sob o sol de Trancoso, e agosto se aproximava de setembro.

Quando voltei tive uma conversa com a candidata e ela pediu que eu tivesse uma participação mais completa, mais dedicada – e eu tive, mesmo: fiquei responsável pela elaboração dos programas eleitorais, toda a parte de comunicação, saí da consultoria e assumi a coordenação.

A parte da entrevista a seguir, de tão interessante, vai praticamente na íntegra, sem edição alguma – eu pergunto:

O coordenador da campanha era Zé Ivan, seu antigo sócio na Briza…

Não conheci essa coordenação.

Mas, oficialmente, pelo menos, era.

Não sei, confesso não saber. O fato de ser o nome de um ex-sócio meu não implica que eu faria uma avaliação A ou B. Não tomei conhecimento oficialmente. Ninguém nunca me disse.

Porque… depois de Balila, ficou ele – ou não?

Não tenho idéia. Quando Balila saiu, eu estava fora, em São Paulo, não acompanhei muito… eu acompanhei a partir da hora em que fui convidado e a partir da hora em que aceitei. Comigo nunca foi tratado esse assunto, de uma outra pessoa ser o coordenador.

A campanha, então, não tinha um coordenador?

Acho que tinha, era Micarla de Sousa.

Eu estou sendo sincero: ninguém nunca disse a mim que o coordenador era uma outra pessoa da área de comunicação.

Você coloca no seu currículo como uma campanha sua?

Eu prefiro colocar que a própria Micarla é quem sabe dizer isso. Era ela quem me chamava de “o meu marqueteiro”.

Impossível segurar o riso. O dele e o meu. Risos que seguem, permeando as frases seguintes.

Ela foi a minha prefeita, ela foi a minha prefeita, ela que me chamava de “o meu marqueteiro”.

Você era o marqueteiro dela e ela era a sua prefeita…

… a minha prefeita…

… era uma relação recíproca.

Recíproca…

Você prefere não falar sobre Zé Ivan. Então, não vamos falar sobre Zé Ivan.

Silêncio.

*

E, sobre um suposto silêncio em torno do seu nome e de sua participação na campanha, então adversária, da governadora, ele encerra o assunto:

Não havia da minha parte nenhuma preocupação em ser anunciado como o marqueteiro de Micarla.

Eu não disse antes da campanha de Micarla que ia fazer a campanha de Micarla, eu não disse durante a campanha de Micarla que estava fazendo a campanha de Micarla, e eu não disse depois da campanha de Micarla que tinha feito a campanha de Micarla – eu acho que essa é a primeira vez que estou dizendo que tive efetivamente uma participação profissional na campanha de Micarla de Sousa.

*

E o que ele pensa da sua última candidata-cliente?

Eu acreditei no projeto dela para a administração de Natal.

Alguns a vêem populista. Eu não a julgo assim.

Ela tem uma veia de popularidade, vem da área de comunicação, como apresentadora de televisão, filha de um político populista, mas acho que ela agregou, conseguiu mostrar que era uma candidata preparada para administrar a cidade, vinha de um mandato curto de deputado estadual, mas vinha de uma experiência exitosa na iniciativa privada, como empresária, como jornalista. Ela convenceu a cidade disso.

Mostrou que apesar de haver um exército de líderes, numa outra trincheira, ela, com as lideranças que ficaram com ela, conseguiu superar isso e vencer a eleição.

*

Guardando as devidas diferenças, e se eu não estivesse diante de alguém reconhecidamente cerebral, na profissão, quase, quase, eu diria, quase, quase, que Micarla de Sousa Weber tomou o posto de Wilma de Faria no coração de Alexandre Macedo. Não digo, claro – faço, invés, a associação da Micarla de 2008 com a Wilma do passado, enfrentando os poderosos.

O poder Executivo constituído à época estava todo com Fátima. Ela representava a prefeitura de Natal, o governo do estado e o governo federal. As pessoas que ocupavam esses cargos estavam no palanque de Fátima. O que eu acho é que houve, talvez, uma interpretação equivocada de como melhor trabalhar esse lado.

Eu não estou criticando o marketing que foi feito para Fátima, mas o conceito global da campanha dela, o misto de conceito político e conceito de comunicação, pode não ter criado a melhor alternativa para apresentar Fátima como a candidata do poder, mas uma candidata capaz de transformar o poder numa coisa extremamente saudável para as pessoas.

Eu acho que Micarla e a estrutura de comunicação de Micarla souberam aproveitar melhor as fragilidades do poder que estava com Fátima.

O peso do marketing foi fundamental para a vitória…

É infantil dizermos que o marketing não tem um peso fortíssimo na eleição. Até o PT, que questionava muito isso, aprendeu com a eleição de Lula, em 2002.

Quando começou a campanha, Micarla era a favorita para ganhar a eleição. A campanha da deputada Fátima, a rigor, nunca esteve na liderança de pesquisa, matematicamente nunca realmente assustou… Houve um momento da campanha onde se observou que poderia haver um crescimento de Fátima que colocasse a eleição num segundo turno. Em havendo o segundo turno, o jogo poderia ser considerado, para muitos, como um zero a zero.

A força política que Fátima tinha era muito grande. O que eu não sei é se Fátima dosou bem e se usou bem essa força.

Em relação ao marketing…

Em relação ao marketing… É cínico a gente dizer que o marketing não é uma peça importantíssima na campanha. É cínico. Existe uma coisa muito interessante: os políticos costumam acreditar muito na política; os marqueteiros, e comunicadores, costumam acreditar muito no marketing e na comunicação.

A vitória é sempre do candidato, mas se o marqueteiro não fosse uma figura da maior importância na campanha de um político, ele não era contratado para isso e não era dado a ele o status que é dado. É inegável.

*

Lhe digo, então, que, na minha opinião e de outros mais competentes do que eu, uma das peças fundamentais da campanha de Micarla foi uma das últimas, onde ela falava, para um entrevistador invisível, com uma aparente espontaneidade e sinceridade, que, paradoxalmente, às vezes lhe faltava, por ser uma pessoa acostumada demais às câmeras.

A peça durava um programa inteiro.

Pergunta: mais uma vez o “folclore” do meio diz que eram apenas você, a candidata e o operador de câmera, num bate-papo espontâneo – como foi realmente a produção dessa peça?

Um dos grandes receios da campanha de Micarla era a vinda do presidente Lula a Natal.

Havia por parte do comando estratégico da deputa Fátima, acho, uma grande expectativa na vinda do presidente, como um fato novo capaz de dar um gás na campanha e botar a eleição para o segundo turno. E havia no comando estratégico de Micarla uma dúvida, um receio natural. O cara ganhou aqui em 2002, ganhou em 2006.

Me pareceu que Lula não foi tão bem brifado, pela área política, diga-se de passagem, e fez um comício na Zona Norte onde muitos equívocos aconteceram.

Diversas pessoas próximas à Micarla queriam uma resposta da candidata, e do senador José Agripino, ao presidente Lula. Isso cresceu em 24 horas. Me coube dar uma sugestão a José Agripino, de que o embate entre ele e Lula era no Senado Federal – aqui não seria oportuno.

Nós não tínhamos o que dizer contra Lula – primeiro: a candidata era do PV, partido que estava na base do governo Lula. Depois: o que dizer contra uma pessoa que tinha 70-80% de aprovação popular e que tinha o legítimo direito de vir aqui lutar pela sua candidata?

O que nós fizemos foram algumas peças mostrando que a disputa em Natal não era travada entre Micarla e Lula, ou entre Micarla e Wilma – era entre Micarla e Fátima.

Depois, nós fizemos um programa inteiramente com depoimentos populares, para contrapor ao programa de Fátima, que explorou o comício e a fala de Lula.

Foi um programa que teve um enorme recall porque as pesquisas que nós tínhamos nos apontaram imediatamente o acerto da estratégia.

Eu apresentei à candidata uma proposta de fazer com ela uma entrevista, sobre a vida pessoal dela, como mulher, jornalista, empresária, política. Realmente, aquele programa foi feito numa sala, eu, ela e o diretor de TV. Todas as perguntas foram feitas por mim, conversamos bastante antes da gravação, e ela agiu da forma mais espontânea possível. Não foi um programa ensaiado. A mim coube projetar, conduzir, fazer as perguntas. Depois, também houve um bom trabalho de edição.

Eu confesso que foi um dos programas eleitorais que eu criei e coordenei a execução de maior recall na minha carreira. Foi uma grande satisfação, porque eu recebi parabéns, do mais ilustre apoiador político de Micarla até pessoas extremamente simples, que sabiam – da forma mais discreta possível, mas sabiam – que eu estava envolvido.

Adendo: o “mais ilustre apoiador político de Micarla” era José Agripino Maia.

*

A seguir, Alexandre Macedo fala sobre a campanha de 2010, onde os três candidatos ao senado apresentam coincidências interessantes (foram governadores por dois mandatos e prefeitos de Natal), e por que Wilma de Faria, mesmo sem uma estrutura de comunicação própria, conseguiu vencer “lutando contra pessoas que têm o domínio sobre a área de comunicação”.

2 Já Comentaram para “O marqueteiro – [III]”

  1. georgia gomes martins disse:

    Muito boa a entrevista do Alexandre, eu já sabia que tinha sido ele que fez a campanha da Micarla,Brilhante, Maravilhosa, Eu sou grande admiradora dele, Procuro sempre escutar e lê suas entrevistas, pois sou publicitária com pós-graduação em MKT politico, estudante de redação publicitária(ESPM/SP) e Matriculada no Bootcamp da Miami school com previsão de conclusão para Maio de 2010, e espero um dia ter a chance de trabalhar e aprender com ele muito do que ele faz com tanto sucesso.

  2. Laélio Ferreira disse:

    Mário Ivo.

    Saravá!

    O ensino da pós-graduação (redação publicitária, especificamente) parece que anda muito mal, tanto em São Paulo quanto em Miami. Trocar o infinitivo do verbo pelo subjuntivo (“ler” por lê”) é dose para nenhum mamute botar defeito. O diabo é que isso é a coisa mais normal do mundo, aqui, na ocara grande de Felipe Camarão. Acontece quase todo santo dia, nas “foia” e nos blogues de muitos (como tem, my God!) “jornalistas culturais”…
    Arre égua!
    Abraço,
    Laélio Ferreira

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