O marqueteiro – [e V]

11 de dezembro de 2009

A família de Alexandre Macedo sempre foi madrugadora. Das 5h30 às 7h da manhã o tempo era dedicado à leitura dos jornais – menino, gostava de saber o que acontecia na cidade, no estado, no mundo.

Desde criança, também, era “fascinado” pela política. Aluno Marista durante 12 anos, do pré-primário ao pré-vestibular, foi no colégio onde conquistou as primeiras vitórias eleitorais. Nada de marketing, ainda: o candidato era ele mesmo – primeiro vice-presidente, depois presidente do centro cívico.

Também chegou a ser governador-mirim – mas aí as eleições eram indiretas. Mandatos biônicos dispensavam campanhas eleitorais e consequentemente marqueteiros.

Eu sempre tive um olho pra política. A relação com a política me energiza bastante.

Saindo do Marista, fez vestibular em Natal e Mossoró – o que demonstra, se não sua insegurança, ao menos sua cautela. Foi aprovado nas duas universidades, mas obviamente opta pela capital, onde se diploma em 1985.

Quando entrei no curso de direito, eu abracei um princípio do qual nunca mais me separei:

– Quando você entra em qualquer coisa, você entra pra ser o melhor.

E, para ele, para o profissional de marketing, ser o melhor significa ir muito além do contrato profissional.

Eu não consegui ainda hoje fazer uma campanha onde eu não estivesse completamente envolvido por ela. Quem trabalha com comunicação não pode esquecer nunca que o lado profissional é importante, mas o lado da realização, de saber que está fazendo um trabalho que poderá dar um resultado positivo – não para alguém isoladamente, mas para um conjunto, um sistema – é muito forte.

Muito forte, também, é a carga emocional que diz jogar nas campanhas – e em si mesmo – embora reconheça a importância de saber dosar essa carga: Macedo não esquece o pragmatismo – e acredita que profissionais da comunicação, especialmente do marketing político, realizam um trabalho que exige fígado, mas onde também é indispensável ser “mais cerebral”.

*

Para ele, uma das primeiras pessoas a quem o candidato deve convencer é o próprio marqueteiro. Que, por sua vez, primeiro deve ouvir o candidato, segundo a sua estrutura política, para, terceiro, por derradeiro, ouvir o povo – a ordem, para ele, é exatamente essa.

A partir daí você faz um projeto, elabora uma linha de comunicação, acredita nela e vai em frente. Porque se você ficar todo dia mudando seu projeto, a depender do humor do candidato, ou apenas da experiência de outros políticos que o apóiam, você naufraga.

Do mesmo jeito que tem de haver um comando político numa eleição, tem de haver um comando de comunicação. E eu só fiquei nessas campanhas o tempo que fiquei porque exerci o poder dentro da comunicação, restrito à comunicação.

O projeto de Alexandre Macedo, claro, não é apenas a campanha em si: é a vitória.

Eu graças a Deus ainda não senti o gosto da derrota – e espero não sentir, mesmo.

Se declara feliz com a invencibilidade. Seria cínico se afirmasse o contrário.

É ele quem diz, não sou eu.

O fígado trabalha contemporaneamente ao cérebro. Um não se sobrepõe ao outro. E vice-versa.

Como é ele mesmo quem lembra a exceção que confirma a regra – e o porém complementar que justifica a ressalva.

É cínico se eu disser que não tenho a felicidade de dizer que todos os candidatos pra quem eu ajudei, ou trabalhei, nesse período, de majoritário, de Executivo, todos venceram a eleição. O único que eu não tive sucesso foi Fernando Bezerra, na eleição do senado [em 2006], mas recebi dele, pós-eleição, os efusivos parabéns pelo trabalho que foi feito. Não foi o marketing que o teria eleito, também não foi o marketing que o derrotou. Mas, para o Executivo, graças a Deus, até hoje, todas as campanhas que eu participei, eu tive a sorte a sorte de ter os melhores candidatos, e eles ganharam as eleições.

Alexandre Macedo é ambíguo. Por defesa, talvez. Reconhece a importância do profissionalismo, ao mesmo tempo em que atribui o sucesso à “sorte”. Fala em felicidade, mas nega que a vitória tenha um sabor especial. Prefere falar em “satisfação” – a de que A, B, C ou Z acreditou no seu trabalho. Se o trabalho rendeu um projeto vitorioso – e, como vimos, quase sempre rendeu –, fala em “prazer”.

Alexandre Macedo é radical.

Eu tenho o desejo excessivo de ser vitorioso. Porque se você não procurar ser vitorioso, naturalmente você está procurando ser fracassado.

Daí que não é de se estranhar que, em outros momentos, chegue a usar termos arrebatadores, viscerais, sempre excessivos – como quando afirma que o marqueteiro deve entrar numa campanha com a paixão pela vitória.

E eu tenho as duas coisas: tenho a paixão pela vitória e tenho profundo desrespeito – não é desrespeito, não, vamos mudar a palavra: eu tenho profundo… é… Vamos traduzir: eu não gosto de perder.

Todo ser humano gosta de ganhar. Ganhar em todos os aspectos, você gosta de ganhar no amor, você gosta de ganhar na profissão… a única coisa que eu não gosto de ganhar é peso.

Para alguém cujo maior hobby é ler jornais e revistas, ou navegar obsessivamente na internet à cata de notícias, ou passar horas ao telefone conversando sobre política e sobre os jogos da política, seria até natural ganhar peso.

Os vizinhos de uma de suas casas de veraneio, em Pirangi do Sul, 20 quilômetros ao sul de Natal, todos antigos e todos, ou quase todos, em maior ou menor medida, boêmios, estranharam quando o novo veranista aportou na praia, levando para o terraço à beira-mar o hábito de falar exageradamente ao celular.

Eu não me considero anti-social, mas sou uma pessoa de pouca visibilidade social – não sou de estar na badalação.

Eu não jogo, eu não tenho o hábito de beber, eu bebo socialmente, muito pouco.

O que danado faz esse homem, então? – o leitor poderia perguntar, porque até eu, que fiz a entrevista, a essa altura estou me perguntando, pra lá de impaciente.

Pois.

Viaja, claro.

Alguém que se considera uma pessoa discreta (não por estratégia, como ele mesmo explica) e “que não procura a visibilidade”, une o prazer de viajar ao desejo de conhecer culturas diferentes – e de lambuja ainda some, mesmo que por breves períodos, dos holofotes e das invejas que nega provocar.

Eu tenho viajado menos do que gostaria.

Eu tenho sede por conhecimento nessa área. De saber como vive o povo de um outro país, de uma outra região, mais próspera ou menos próspera desta onde vivemos…

E, o que faz o viajante nessas viagens?

Eu arriscaria dizer, ouso: aquilo que não faz em sua própria cidade.

Quando eu chego em qualquer lugar eu gosto de ir à padaria, eu gosto de ir ao mercado, eu gosto de ir na praça – eu gosto de ver como as pessoas vivem.

Interpretação minha, confesso. Assumo.

Mas, se vocês virem Alexandre Macedo numa padaria natalense ou na praça de alimentação de um shopping, duvidem – porque com certeza não é ele.

*

Voltando a duas de suas obsessões: o excesso de peso (menos) e o excesso de vitórias (mais).

Eu acho que você deve sempre acordar e dizer eu vou vencer. Quantas vezes eu já comecei uma dieta e não fui vencedor? Mas isso não significa que eu não vou começar de novo. Qualquer dia desses eu começo outro regime e vou terminar vencendo.

Ele sabe do que está falando. E do que é capaz.

Em 1979, aos 18 anos, viu-se num avião entre Belém e Manaus que esteve “muito perto de cair”.

Do “momento de absoluta tensão”, como resumiu o quase acidente fatal, a uma verdadeira fobia, foi um crescendo que atingiu seu ápice três anos depois, em 1981, quando chegou a parar o avião em que viajava ainda na pista de Congonhas.

Eu fiquei de 81 a 88 sem voar. Como eu sempre gostei de viajar, eu me submetia a sair daqui pra São Paulo de ônibus… pegava um trem no Rio… de carro… era um transtorno.

Era tão forte essa fobia que, quando eu ia pro aeroporto esperar alguém, já estava suado. Em 88 eu me conscientizei que não dava mais – era uma coisa que ia atrapalhar todo o meu projeto de vida, essa limitação que eu estava me impondo. Eu busquei um apoio psicológico e fiz um trabalho grande de conscientização de que não era possível mais: as pessoas de bom senso iam e voltavam, os aviões pousavam e decolavam e eu ia ser uma pessoa fora do mundo.

Hoje reconhece que, se lhe tirarem a possibilidade de deslocamento, de ir e vir, de conhecer lugares, de passear, vão estar tolhendo uma das maiores alegrias de sua vida.

Só eu sei o quanto foi difícil ou quantas vezes eu achei que era impossível.

Um dos conselhos que recebeu foi afrontar diretamente o medo: sempre que possível deveria virar um “peru”, um freguês assíduo, mesmo sem ser convidado, das cabines dos aviões.

E eu virei. Fiz muitas viagens dentro da cabine, porque eu fazia de tudo para agradar a tripulação, contanto que me deixassem entrar na cabine. E aí era uma nova sessão de agrados, porque eu precisava convencer o piloto a me deixar ficar na cabine.

E assim foi – viajou muitas horas, junto aos pilotos, encarando literalmente de frente o vôo. Os pilotos tornaram-se quase psicólogos e ouviam, pacientes, o relato do seu drama.

*

Contar numa entrevista, pela primeira vez, esse drama, parece que o faz relaxar. O marqueteiro cerebral torna-se mais humano, com toques de filosofia poética – ou lições práticas de auto-ajuda:

Eu acho extremamente humano o medo de voar. Uma vez, conversando com um oficial da marinha, num navio, ele me disse que certa ocasião um passageiro lhe contou que não tinha medo de navegar, mas tinha medo de voar. Ele perguntou o porquê, e o passageiro respondeu: “Porque eu aprendi a nadar, e nunca me ensinaram a voar.”

É difícil passar um avião e a pessoa não olhar pra ele – e não é porque é um meio de transporte que vai carregando 300 pessoas: é porque o homem sente que ele não é capaz de fazer aquilo que aquele bicho está fazendo. Ele vai a Recife a pé – pode passar 50 dias na viagem, mas ele chega em Recife, a pé. Ele vai nadando de um lado a outro da lagoa – desde que tenha resistência física, claro. Mas ele não tem habilidade pra decolar. Ele não decola. As asas que nós temos são só para as coisinhas pequenas.

A conclusão tem o inconfundível sotaque natalense, ainda mais envolto num riso franco, de quem superou o insuperável, de quem venceu:

Tem asa pra voar, não.

*

Ele se recusa a responder a obviedade da próxima pergunta a respeito de um “último vôo”. Diz que isso parece coisa de quem já está parando. Aos 48 anos, parar definitivamente não está em seus planos.

Eu acho que cada momento tem um desafio novo. O meu objetivo daqui pra frente é continuar vencendo.

Mas sabe que algumas coisas são invencíveis.

Algumas das adversidades que eu nunca enfrentei, eu só espero enfrentar depois de muito tempo: a morte de uma pessoa dentro de minha casa, dentro de minha família.

Fala sobre a família com o recato esperado:

Mesmo eu não sendo um político, mas por ser uma pessoa próxima à política, minha família também já sofreu bastante com injustiças – mas sabe que a regra do jogo é assim.

A minha relação com meus filhos passou por cima de muita coisa, e é uma coisa bonita – mais do que ser pai eu procuro ser amigo deles.

A relação de respeito que eu tenho com meus pais, ambos com mais de 80 anos, ambos com suas limitações físicas, de saúde… tem muita coisa que me faz brotar o lado emocional.

*

O menino, o adolescente, o leitor de jornais – que não se lembra mais do slogan com o qual ganhou as eleições estudantis (mas arrisca dizer que “devia ser Vencer”) – continua acordando cedo. Faz suas caminhadas matinais, enfrenta, dia sim, dia não, os esforços físicos e desagradáveis de uma academia de ginástica, mesmo sem saber por quanto tempo resistirá.

Continua preferindo os jornais impressos, mas, com a chegada das televisões locais, primeiro, e com a internet, depois, o tempo encurtou ainda mais e passou a ser dividido diante das telas – da TV e do computador: calcula em cerca de oito a dez horas por dia o tempo que passa conectado, acessando os principais blogs e portais.

Recentemente, contrariando o ideal da invisibilidade constante – e, de um certo modo, respeitando-o – passou a ter um programa numa rádio local e aderiu ao twitter.

Na noite de 11 de novembro passado, Macedo replicou a jornalista Juliska Azevedo: “o pensamento que você postou é o melhor do twitter numa noite de muita bola. Aqui e fora daqui.”

Na verdade, a jornalista tinha retuidado o deputado Ney Lopes Jr., que por sua vez tinha citado uma frase, supostamente de Shakespeare: “É possível ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.”

Ele parece se lembrar bem daquela noite e da frase e do porquê a frase o tocou.

Eu acho que há muitas pessoas que se auto-limitam em algum momento da vida.

Em qualquer campo.

Eu sou um apreciador total da inteligência humana. Eu chego a reverenciar os atos inteligentes das pessoas – eu sou fã da inteligência. E não me refiro só aos gênios da humanidade – falo da inteligência aplicada no dia-a-dia. A opção por uma saída inteligente para qualquer problema, qualquer situação, eu gosto de registrar.

Eu conheço pessoas com adversidades até muito fáceis de serem superadas que se auto-limitam e não as superam.

Então, às vezes a gente chega num determinado ponto da vida e diz: “não, eu vim até aqui, daqui não vou mais não… porque eu não consigo, eu não vou vencer…”

Eu não acho assim.

Eu acho que, no campo profissional, se eu encerrasse minha carreira hoje – a nível bem local, restrito ao RN, na minha área de atuação – eu acho que teria cumprido a minha parte. Isso não significa que eu não vá em frente buscar novas vitórias: vou, e vou com todo ardor que eu puder ir.

Mas a gente não tem só o lado profissional. A gente tem o lado pessoal, a gente tem o lado familiar, a gente tem o lado… sei lá… desbravador.

Então, ser um vitorioso é uma expressão muito complexa.

A conclusão é uma frase de efeito, que quase soa falsa, de tão natural como é anunciada – coisas de quem trabalha com publicidade e marketing:

Eu não me acho um vitorioso. Eu me acho um candidato à vitória.


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