O devir

22 de junho de 2012

Matt Black, Sheep at dawn, Firebaugh, California


Esta fase “luminosa” chegará num futuro distante, num tempo indefinido.

Witold Gombrowicz, sobre o Marxismo

Lua derramada sobre mar. Nenhuma imagem semelhante no livro das mutações. Vou direto ao índice, fastio de folhear quinhentas e tantas páginas. Pode ser o hexagrama vinte e oito, Preponderância do Grande. Quatro linhas inteiras no centro, duas abertas, no alto, abaixo. “Uma viga grossa e pesada no centro, porém demasiada fraca nas extremidades.” Daí que, autoexplica-se o I Ching, nada se sustenta. Além das extremidades frágeis, o excesso de peso no meio contribui para a inexorável queda. Fosse o contrário, e tudo bem. Num arremedo, o popular segurar as pontas.

Eu ando segurando as pontas, equilibrando-me sobre o fio da navalha. Não tem sido fácil. Vez ou outra alguém me faz sorrir. E eu sorrio.

Não é retribuição, não é reflexo, não é nada. Apenas um sorriso escangalhado no meio da cara.

Os melhores risos, bobos.

Vez por outra alguém me convida para uma viagem. Semana retrasada foi para a Toscana. Um monte de girassóis emoldurava o convite. Agora, New York – sem molduras, apenas o aviso de que a terra próximo à Ponte Central era mais solta.

Vez por outra alguém me convida para uma viagem, mas eu não viajo. Tenho horas, dias de partir. Fosse um traficante – de armas, de cigarros, de heroína ou ecstasy (êxtase, me corrige o corretor) – estaria sempre com as malas prontas e o passaporte em dia. Inclusive os falsos.

As melhores viagens que fiz foram sem malas, me disse.

As inesquecíveis, penso que acrescentou ou disse mesmo ali pelo meio da frase anterior.

Como será inesquecível, sem mim, perguntei.

Desta vez tenho a mala arrumada, contestou.

O fato é que partiu. Para New York City. Esqueceu de levar um Lou Reed na lapela, provavelmente mais envolvida que está com o Neil Young.

A viagem da Toscana ficou esquecida, lá, ali, pelo meio da semana retrasada – ou terá sido um mês atrás?

Neste exato momento estará com os cintos cruzados sobre a barriga, o cobertor envolvendo as pernas, os cabelos soltos sobre o travesseiro bem seguro com a mão esquerda de encontro à orelha.

Terá tirado os brincos?

Terá girado o anel em pensamentos turvos?

Terá bebido meia taça de vinho, porque, não, não lhe caiu bem.

Ou. A imagem do destino (filmes, muitos filmes, demasiados filmes): de costas, os cabelos vagando entre as espáduas, o grande letreiro com as partidas e chegadas, nomes de cidades, nomes de aeroportos, números, horários, confirmado, landed. Etc.

A mala, arrumada, ainda repousando aos pés. As rodinhas imóveis. A alça erguida contra o céu de vidro e metal e a voz anunciante dos alto-falantes.

Não se anunciam mais as partidas ou as chegadas nos grandes aeroportos. Excesso de tráfego, talvez. Daí a preferência pelas estações de trem – de preferência na Toscana, poderia acrescentar, mas, não, não acrescento. Uma vez, na Sicília, atravessamos a linha. O guarda não evitou a multa. Rasgamos, jogamos no lixo.

Volto à imagem do destino. Continua parada lá, observando o quadro, lendo letras, contando números. Ainda traz os brincos nas orelhas e o anel permanece intocado. A mala, arrumada, aos pés.

Não será uma viagem inesquecível.

Será. Porque não conseguirá esquecer.

Ainda que a terra, próxima à Ponte Central, estará úmida, último respiro de primavera.

12 06 12, noite.

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