O culpado

18 de julho de 2010

Domingo é o mais domingo dos dias. Fato. E fato antigo. Tem sido sempre assim, derna tempos, digamos, imemoriais. O sujeito (da oração – eu, tu, ele, e seus equivalentes plurais) acorda, quase sempre um tanto ou um tico mais tarde do que o costumeiro e permanece o resto do dia sem saber o que fazer, a não ser que já tenha se programado de véspera e encare, com a alegria incontida e idiota dos otimistas, um piquenique na praia, um passeio no bosque, uma lasanha gigante, um domingo no parque, roda gigante, sorvete e rosa como na música de Gil.

Domingo, também, e uma época, era dia de ler jornais, de botar em dia a semana impressa, diários, revistas, classificados. Como hoje quem normalmente lê, e ainda lê, já passa o dia-a-dia no computador, em tempo real e vida virtual, há pouco pra se atualizar e resumir. Adeus às páginas embaixo da rede. A rede agora é na tela plana, todo mundo sentado à escrivaninha, mesa, birô, encostando as costelas no espaldar, que, ao contrário da maca, só balança pra frente e pra trás.

Chato. Tudo muito escritório, pois. Como quem leva constantemente trabalho pra casa. E tome twitter, facebook, uol celebridades e demais congêneres, todo mundo à caça de uma luz para o fim do túnel em que nos enfiamos, cada dia – e domingo – mais solitários na multidão populosa de almas, corações e mentes.

Mas, muito embora as fronteiras se dissipem – entre os dias da semana, entre o trabalho e o ócio, entre real e virtual, público e privado – o domingo continua se destacando do resto dos dias. Encolhido entre as maravilhas do sábado e as desventuras da segunda, o domingo é de pouca monta, caso perdido. Antes mesmo de começar, o domingo já está terminando.

Quer beber? Existem poucas opções. E igual limitação nas companhias amigas. Todo mundo trabalha na segunda, até os desempregados. Quer comer? Os restaurantes estão lotados, assim como as salas de cinema e os shoppings, malls e outros templos modernos. Desconfio que até as missas se abarrotem de gente, em que pese a crise católica, apostólica, romana. É preciso mesmo muita reza e exorcismo para o dia mais quente, mais frio, do inferno.

O mais sorumbático dos dias, há uma melancolia eterna pairando nos ares dominicais. A mesma sensação que provávamos quando do último dia de férias, quando da véspera de uma prova difícil, quando da noite anterior a um exame de sangue ou à extração de um dente. Quando do fim de um amor. O domingo, não como o ciúme, não é a véspera do fracasso. É o próprio, assassino oculto da segunda-feira.

Um Já Comentou para “O culpado”

  1. Jarbas Martins disse:

    Ler suas crônicas é um eterno exercício de surpresas.
    Surpresa aos 67 anos exige comemoração, meu caro Mario Ivo.Com presença da mulher, filhos, neta,genro, que eu também sei ser careta, pois não. E na minha frente, do outro lado da cabeceira, a presença do meu ego, um grandalhão comedor de pizzas.Pensei que o tema domingo, velho conhecido com quem tenho me deparado nos poemas de Laforgue, Paulo Mendes de Campos, e nas crônicas de Rubem Braga e Vicente Serejo, tinha se exaurido.Qual o que, que acidez mais pós-moderna, que estilo mais neonlaforguiano, meu caro.Meu ego, de colesterol e moral elevadíssimos, além da minha surpresa diante da sua crônica, aprovou também este comentário.Abraços. Mario Ivo.

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