O coração lacerado

9 de novembro de 2010

Não sei por quê, mas eu nunca estive no local onde Pasolini foi assassinado.

Começa assim um dos capítulos do filme Caro diário, 1993 – com a voz em off de Nanni Moretti abrindo gavetas do passado e folheando velhos jornais e revistas, todos sobre a morte de Pier Paolo Pasolini. Na seqüência, sob os acordes de Keith Jarret em The Koln Concert, Moretti monta em sua Vespa e percorre a cidadezinha de Óstia, no litoral italiano, próximo a Roma, descortinando um cenário todo ermo e desilusão, até chegar ao terreno abandonado onde o poeta, escritor e cineasta foi massacrado e morto em 1975.

Antes de ontem revi Caro diário.

Dia desses foi o 35o aniversário da morte de Pier Paolo.

Há alguns anos também eu segui os passos, digo, as duas rodas de Moretti, e visitei o Idroscalo de Óstia, montado não numa Vespa mas num Renault vermelho, emprestado de um amigo, porque eu precisava pegar uma encomenda que tinha atravessado o Atlântico na bagagem de um italiano que morava a meio caminho do mar.

E daí que fomos – eu estava acompanhado da minha companheira de então e de uma amiga em férias – aproveitar a viagem e chafurdar no terreno onde Pasolini levou porrada. Muita porrada. Tanta porrada, que morreu. Na noite de primeiro de novembro de 1975. Na madrugada de 2 de novembro de 1975. O rosto ficou coberto de hematomas, os cabelos, de sangue. A orelha direita com um corte, a esquerda completamente arrancada. O maxilar quebrado. Dez costelas quebradas. O fígado lacerado. O coração lacerado.

Não enumero esses trágicos sinais por prazer sádico, mas apenas para mostrar, muito resumidamente, o martírio do poeta – a partir de fonte indubitável: o laudo médico reproduzido por Luiz Nazario no belíssimo Todos os corpos de Pasolini (Perspectiva, 2007).

E também para reforçar as vozes que se alçaram, infelizmente muito depois da sua morte, contestando a versão oficial que afirma, ainda hoje, que um garoto de programa, sozinho, matou Pasolini, na óbvia e rasteira tentativa de reduzir o caso a um crime sexual, aliás, homossexual, destino lógico e supostamente merecido a quem incomodava, em vida, a não poucos – governo, igreja, direita, esquerda. E, por isso, foi assassinado. Não por ser homossexual, mas também por ser homossexual. Não por um garoto de programa, mas através de um garoto de programa, que serviu de isca para levar o poeta à sua imolação.

Ironicamente, trinta e cinco anos depois do assassinato de Pasolini, o primeiro-ministro da Itália afirma que é melhor olhar as garotinhas do que ser gay. O que não deixa de ser verdade, como bem argumentou Livia Iacolare.

Ironicamente, trinta e cinco anos depois do assassinato de Pasolini, o papa, em visita a Barcelona, é cercado por centenas de homossexuais que se beijam em público, em protesto (quase) silencioso.

Ironicamente, trinta e cinco anos depois do assassinato de Pasolini, o presidente da Puglia, assumidamente homossexual e católico, recita 27 sinônimos para a palavra “gay”, na televisão italiana. E à pergunta se é melhor gostar de belas mulheres, conclui:

É melhor ser feliz.

Ironicamente, trinta e cinco anos depois do assassinato de Pasolini, ouço o comentário de minha filha, 9 anos:

Minha amiga falou que se Dilma ganhasse o mundo todo viraria gay. Então? Dilma ganhou e o mundo nem virou gay.


7 Já Comentaram para “O coração lacerado”

  1. Carito disse:

    Assistimos a esse filme juntos, Firenze, 1995… não sei se foi nesse ou no L’uomo delle Stelle de Tornatore que eu tomei antes um café com grappa…

    Lembro que fiquei realmente muito impressionado com esse filme sobre a morte de Pasolini…

  2. Mario Ivo disse:

    não foi “caro diário”, acho: assistimos, além do filme de tornatore e outros, “pasolini, um delito italiano” de marco tulio giordana

  3. Carito disse:

    Tem razão! Ah esses meus neurônios restantes… Mas eu sabia que eu tinha assistido com você a um filme sobre a morte de Pasolini… Que foi muito forte! Fiquei com vontade de revê-lo agora! “Pasolini, um delito italiano”. Isso mesmo! E agora também me toquei que assisti a esse outro – Caro Diário – em video, faz tempo… Uma sátira, né? Muito bom também! Valeu!

  4. Jarbas Martins disse:

    comovente lembrança, mario ivo e carito. gostaria de ter lido e conhecido mais sobre esse grande artista e
    intelectual. sim, pasolini militou no partido comunista. mas que espírito independente. por isso, longe dele aquela visão medíocre, submissa, aquele posicionamento subalterno, próprio dos que se diziam, àquela época, “esquerdistas’. um autêntico revolucionário. revi, há pouco, o seu filme “o evangelho segundo são mateus”, uma obra ímpar da história do cinema. infelizmente conheço pouquíssimos poemas seus, um deles traduzido por nosso franco jasiello (publicado na “antologia de tradutores norte-rio-grandenses”, edufrn,organizada por nelson patriota). abraços.

  5. Laélio Ferreira disse:

    Cáspite!
    “‘!@#$%¨&*()_-+=cobras,largatixas…

    Essa “antologia” é do carilho!
    Quá, quá, quá!

  6. antonia maria de araujo fernandes disse:

    Caro Mario Ivo, não vi os filmes de Pasolini na Italia e sim nas sessões de cinema de arte do Rio Grande, já que nasci a mais de 40 anos, mesmo que não tenha sido na cidade dos reis. E foi naqueles filmes, com trechos cortados pela censura de então, que muito aprendi sobre a necessidade de termos discernimento quanto ao maniqueismo reinante na dita civilização ocidental cristã, e nas estórias dos pobres amantes. Foi muito bom você fazer esse registro sobre Pasolini.

  7. joão batista disse:

    Mário Ivo,

    Recentemente, em agosto, estive no Festival de Cinema e Audiovisual de Salvador, lá rolou um espaço só para/sobre/de Pasolini. Vi dois documentários fundamentais. Um deles, se a memória agora não falha, chama-se A noite da morte de Pasolini. Chocante. O outro trata das locações de Saló. E revi alguns filmes, como O Evangelho segundo são Mateus. Pasolini é forte. Visceral, como às vezes se diz por aí e, nesses tempos tão banais, fundamental. A rima é necessária. Abraço, João

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