O Big Brother e a Big Sister

11 de maio de 2010

Entre mortos e feridos, entre vantagens e desvantagens, o tal do twitter inegavelmente pauta uma parte do mundo – aquela conectada em banda larga e wi-fi, iPhones e tais. Ou seja, os grotões bem-anabolizados economicamente Brasil-afora.

E oferece algumas surpresas interessantes.

No mesmo dia em que apreendo a demissão do editor da National Geographic Brasil, Felipe Milanez, descubro as opiniões do senhor Jean Wyllys sobre a revista Veja.

*

Milanez foi demitido supostamente porque externou no twitter opiniões contrárias ao carro-chefe da famiglia Civita.

Começou aconselhando seus seguidores a seguirem, no twitter, “os ‘colegas’ que assinaram a matéria ‘repugnante’ anti-indígena”, publicada na edição de 5 de maio [aqui]. “Para a gente não esquecer no futuro – os índios têm memória”, explicou. E deu um #FF “anti-indígena” para os autores – @leocoutinho, @paulinigor e @juliademedeiros. Nenhum dos quais, pelo que pude ver, retrucou. (Julia de Medeiros, inclusive, divide seu tempo entre Sampa e o Ryo Grande do Norte – será a mesma da Veja, ou Milanez se equivocou com uma homônima?)

Dois dias depois, o editor voltou ao ataque:

Eu costumava ignorar a idiota Veja. Mas esse racismo recente tem me feito sentir mal. É como verem um filme da Guerra torcendo pros nazistas.

Ainda chegou a perguntar, sem papas na língua, aludindo outra matéria, sobre índios bolivianos:

Como pode ser tão escrota depois desse século de holocausto?

A história findou – por enquanto – com Milanez passando mal – hoje, 10 de maio escreveu:

Tô destruído, muito chateado. Acabo de ser demitido por causa dessa infeliz conta de Twitter. Sonhos e projetos desmancharam no ar virtual.

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Demitido ou não, o fato é Milanez conseguiu uma repercussão no twitter que, aparentemente, está só no começo. Salvo engano, seus seguidores multiplicaram-se instantaneamente e, embora a revista tenha bem menos opositores que acólitos, não vai faltar quem queira demonizar seu poder.

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Daí que descobri – e tirei da gaveta da memória – que Jean Wyllys ainda existe. Seu perfil, @jeanwyllys_real, tem quase 17 mil seguidores. Como toda celebridade, “real”, segue apenas 94 almas.

Sobre a demissão de Milanez, um dos vencedores do Big Brother, escreveu:

Veja é mesmo anti-democrática!

“O que achei da matéria de capa da nova edição de Veja está no meu time line”, escreveu. “Dê uma olhada lá: achei a matéria tendenciosa!”

A nova edição a que Wyllys se refere é aquela sobre os gays – na capa, “Ser jovem e gay – a vida sem dramas” [aqui]. Claro que eu fui olhar o que o rapaz achou.

Segue, sua opinião, arrumadinha e tal, e bastante válida – afinal, salvo engano, Wyllys saiu do armário faz tempo. A numeração é do próprio, iniciada às 23h36 do dia 9 de maio e finalizada, o último twitter da série, às 12h39 do dia seguinte:

1) A revista Veja se supera a cada nova edição em sua tarefa de desqualificar os movimentos sociais e disseminar sua ideologia reacionária.

2) Depois de desqualificar o movimento negro e incitar a classe média contra as cotas, a Veja agora se voltou contra o movimento LGBT.

3) Depois de afirmar o absurdo de que não existe racismo no Brasil, ela quer levar a classe média a crer que não existe mais homofobia.

4) Conheço realidades homossexuais – muitas! – em que o “paraíso” descrito por Veja sequer se desenhou.

5) Em grandes cidades, a juventude de classe média alta que cresceu com o movimento LGBT tem mesmo uma postura mais aberta.

6) Mas a análise de Veja é distorcida e tendenciosa quando afirma que essa geração de gays de classe média é “esmagadora maioria”.

7) Afirmar-se gay só é necessário quando a homossexualidade é vivida em ambiente repressivo. Não é caso da garotada de classe média urbana.

8 ) Mas a afirmação e a militância continuam sendo necessários em todo resto do Brasil, onde ainda há muita repressão contra gays e lésbicas

9) A Veja se “esqueceu” dos 3.196 assassinatos de homossexuais ocorridos no Brasil, ano passado, por motivos torpes porque homofóbicos.

10) Em resumo, o que Veja quer, com seu “jornalismo” abjeto, é derrubar o movimento LGBT, assim como, antes, tentou derrubar o negro.

11) Veja representa o pensamento político mais reacionário da pior elite econômica deste país. Se você acredita em Veja, azar o seu!

12) Os que acham que a matéria de Veja é “do bem” não se deixem enganar. Há muito que Veja se coloca contra a luta de minorias por direitos.

13) Ao generalizar para todo país um comportamento que é próprio de adolescentes de classe média urbana, Veja quer esvaziar a luta de LGBT.

14) A idéia que Veja quer passar é: pra que movimento LGBT se o preconceito contra homossexuais está acabando? O objetivo é derrubar a luta.

15) O objetivo é parecido com aplicado em relação ao movimento negro: pra que políticas de combate ao racismo se não somos racistas?

16) O que Veja quer é ver PNDH elaborado pelos movimentos sociais virar letra morta. Se você acredita em Veja, azar o seu!

A ver agora a reação da revista. Pesquisando na net (google, claro) li que Wyllys pode se candidatar pelo PSOL de Heloísa Helena. Deputado federal, Rio. A Veja deve cobrar a fatura.

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