O beijo da vitória

15 de julho de 2010

Sorry, Carbonero, pra ajoelhar, só aos pés da Cruz

Segundo as folhas – as recentes, ainda na memória, pois as antigas, da semana passada pra trás, digamos, já caíram no esquecimento – existe, sim, um “o beijo da vitória”, com direito a esse título único, indivisível e tudo o mais.

“O”, artigo definido, “beijo”, é aquele pespegado pelo goleiro espanhol Iker Casillas na namorada, a repórter Sara Carbonero, diante das câmeras do mundo.

Eu não vi, que tenho mais o que fazer. Mas as notícias são que nem novela: a gente não assiste mas finda sabendo tudo.

Casillas não é nenhum Georgito Clooney, acho eu, mas quem sou eu pra achar qualquer coisa em relação a homem-bonito. Enfim. Ponto. As damas podem opinar com mais Razão e Sensibilidade. Já Carbonero, bueno, Carbonero é lindinha sim, embora injustos os espanhóis quando lhe passaram o título de “nova namorada da Espanha”, espécie quando a “velha” é a – besos, besos, besos – Penélope Cruz.

Parêntese: eu sou mais Nuestra Señora de la Cruz, muito embora, confesso, arrasto uma de minhas duas asas, também, para sua conterrânea Paz Vega.

Títulos e preferências à parte, Cruz, Vega, Carbonero, o que chama atenção no tal “o beijo da vitória” são as reações do meio onde atua a repórter. “Isso é um exemplo de má conservação dos valores do bom jornalismo televisivo”, julgou o presidente da Associação Espanhola de Imprensa, um certo Fernando González, tão lugar-comum em sua análise quanto o lugar-comum do seu nome em se tratando de um hispânico.

Joder, tío: o tal bom jornalismo televisivo (e símiles) há muito foi substituído pelo jornalismo de celebridades e besteirol reinante, basta uma espiada em qualquer jornal e, ou, portal eletrônico do mundo hodierno, incluso aí aqueles ditos mais sérios. Culpa da demanda – o povo quer circo, em primeiro lugar, pão, em segundo, e questionar a própria sociedade onde se insere, em último, lá na rabeira.

Como a indústria do entretenimento – dos romances de Jane Austen (na virada do século 18 para o 19) às novelas latino-americanas (que resistem ao 21), passando pelo cinemão hollywoodiano (cujo apogeu aconteceu no 20) – há muito vem dando sinais de cansaço, o jeito foi não apenas beber na fonte original de histórias mais ou menos reais, como exibi-la em sua forma mais atrativa: as fontes são cada dia mais cantantes, dançantes, luminosas, feéricas, espalhafatosas, pois. Os reality shows, surgidos há mais de década, encabeçam a onda.

Daí os peitos tonitruantes de Larissa Riquelme, que nem na África estava. E outro dia já pousava no estúdio de Renan Rêgo, em Sampa, para uma campanha para uma marca esportiva chamada Los Dos (nada a ver, digo, tudo a ver com o par de atributos que rendeu fama – e, auguro, fortuna – a miss Riquelme).

Por exemplo. Um par de exemplos.

*

Me perdi um pouco nos dois últimos parágrafos, mas prometo me corrigir:

… então, daí que “O beijo” entre o golquíper e a jornalista me transportou para uma época em que ainda eram castos – como quase tudo o mais – esses ósculos enamorados. Podiam ser entrevistos em Casablanca, o clássico celulóide onde, mais que se via, se ouvia a tentativa de explicação – “a kiss is just a kiss”, dito, dístico, epígrafe e epitáfio, datado 1942. Juro não lembrar se Bogart beijava, efetivamente, Ingrid Bergman. Sei que rolava um triangulozinho amoroso e besta e a moça partia deixando o varão no início de uma nova amizade com um capitão de polícia, o que inspiraria, depois, filmes como Brokeback mountain e outras frescurites.

Se a Deborah Kerr que o Burt Lancaster

As colinas de Hollywood ainda esperariam uma década para mandar pras telas uma relação extraconjugal indo, finalmente, pros finalmente – cena clássica e, para a época, “tórrida”: as bocas, lábios, peitos, braços, abraços, pernas e o maiô de Deborah Kerr e o sungão de Burt Lancaster, em A um passo da eternidade, mais um clássico, ufa, de 1953.

Mas aí ainda estamos no terreno da fiction. E ainda não estamos no terreno dos paparazzi, isto é, as celebridades. Mas, os fotógrafos, claro, todos uns filhos de uma mãe, já estavam à espreita. Um deles, Alfred Eisenstaedt, passeava pela Times Square, NYC, 14 de agosto de 1945, o dia em que o Japão se rendeu aos americanos e o povo saiu às ruas para comemorar. Um marinheiro flanava por ali e tascou um beijo numa enfermeira. Imaginem só: um militar, à serviço da guerra, agarrando uma enfermeira, à serviço dos feridos pela guerra. A foto se tornou, com justiça, clássica – que o mundo, senão o passado, é feito de clássicos.

A enfermeira morreu dia destes, velhinha, claro. A identidade do marinheiro nunca se comprovou – meia dúzia de marmanjos se declaram beijoqueiros, nenhum deles comprovado.

Moral da história? Os valores do bom jornalismo há muito foram pras cucuias, señor Gonzalez. Aliás, não apenas do bom ou mau jornalismo. A enfermeira, Edith Shain, passou 25 anos antes de assumir que era ela a moça da foto. “Os tempos eram outros”, se justificou. Não ficava bem ficar se beijando na rua com desconhecidos. Muito menos com conhecidos.

War, Love

2 Já Comentaram para “O beijo da vitória”

  1. Ótimo texto, Mário, dos seus melhores. Também achei uma frescura a celeuma com o beijo do rapaz na jornalista-namorada. Abração!

  2. soraia disse:

    vi o beijo (bem espontâneo), mas não acompanhei a celeuma, foi apenas um beijo e ponto. curto muito o do marinheiro com a enfermeira. a falsa moral gera umas polêmicas tão assim, assim…caretas, invasivas, bregas e etc. beijar ou não beijar, prefiro o livre arbítrio: quando há escolha é sinal de que há liberdade (real e possível).

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