O ano da morte do meu pai

8 de agosto de 2010

Para organizar o caos da vida e do tempo, ininterrupto, sem paradas, metros ou esquadros, inventaram, os homens, os calendários, os relógios, as estações. Vezenquando é preciso, também, esquecer datas números regras. Neste exato instante, não saberia dizer o ano da morte do meu pai. É inútil e dispensável dizer que faz xis anos. Não se mede o tamanho de uma falta em anos – ela cresce e se agiganta, recrudesce e quase aparentemente some, sem pedir licença, sem aviso, irregular. Mas quando desponta no calendário certas datas – aniversários, dias disso, daquilo – o negócio todo, inevitavelmente, explode. Então, hoje, Dia dos Pais, me vem de republicar aqui o que escrevi na semana da morte do meu pai. É um dos muitos textos que escrevi envolvendo seu nome, mas, talvez, o mais sintomático porque escrito em meio à tempestade que foram aqueles dias, meses, ano. O ano da morte do meu pai. Os anos passados, os anos futuros.

*

Meu pai

A lembrança mais antiga que tenho do meu pai são seus braços me erguendo acima de sua cabeça no canteiro de obras da casa da Cônego Leão Fernandes, 558. A lembrança mais recente não é a do seu corpo descansando no velório, aparentemente alheio e indiferente àquela “confusão” de choro, vozes, orações e solidariedade imensa dos seus amigos e dos amigos dos seus filhos. A lembrança mais recente do meu pai, na verdade, são muitas imagens que vêm e vão sem pedir licença, às vezes acompanhadas de dor, às vezes acompanhadas de risos, agora, sempre carregadas nos ombros das saudades.

As lembranças do meu pai são sob o signo do movimento: nos levando em seu fusca azul para o açougue na Ribeira; nos levando à Rio Branco e à Princesa Isabel para ver as luzes do Natal; nos levando nas manhãs dominicais para a casa em Pirangi, onde nas noites de veraneio, no alpendre escuro nos mostrava as ondas do mar.

Em Pirangi, gostava de caminhar bem cedo. Levantava os braços e respirava profundamente. Depois, deitava-se na areia, os olhos fechados, e erguia novamente os braços, rolando seu corpo salpicado de grãos de areia.

Sempre foi tranqüilo, sereno, parcimonioso. Com ele, e com minha mãe, aprendemos a valorizar os pequenos presentes como grandes que realmente eram. Dificilmente elevava a voz. Dizia que não se deve falar de um compartimento a outro. Bebia pouco, fumava pouco, nos amava imensamente, sem medidas. Nunca falou mal de um filho e sempre procurou contemporizar as arestas naturais entre os irmãos. Quando eu era bem pequeno, peguei umas moedas dos bolsos da minha irmã. Ele percebeu que eu escondia algo. Sorrindo, sentou-se para ficar à altura dos meus olhos, me fez abrir as mãos – não lembro se disse algo, nem, se o disse, o que falou. Lembro apenas que o meu erro foi tratado carinhosamente, e que nunca mais fui capaz de pegar algo que não era meu.

Era um sedutor. Encantava as mulheres. Sabia a palavra certa, o elogio justo, o sorriso sincero, para conduzi-las num encanto que nada tinha de rede, teia, ou armadilha. Seduzia as mulheres, de todas as idades, de todas as belezas, apenas para vê-las sorrir.

Em igual medida era assim com os amigos e nas suas atividades profissionais. Nunca pretendeu cargos elevados, o centro do palco, os holofotes – preferia os bastidores, onde atuava como conselheiro e amigo. Era um homem tradicional, mas ouço com orgulho e um prazer imenso o relato de ex-alunos seus, de como fazia a ponte entre os arroubos da juventude radical e o peso da instituição, às vezes reacionária. Quando entrei na Faculdade de Medicina, ele vice-diretor do Centro de Ciências da Saúde, nunca me pediu para que eu cortasse os cabelos. Nunca pediu para que baixássemos o volume dos discos de rock que ouvíamos. Nos primeiros anos do Projeto Pixinguinha, ao final de um dia de trabalho, ia nos apanhar no SCBEU e nos levava – os filhos mais novos – a todos os shows no Teatro Alberto Maranhão.

Criança ainda, me levou a Recife, na primeira de muitas viagens. Aos 10 fui a Fortaleza, aos 12 ao Rio e Santa Catarina, aos 15 anos à Amazônia e ao Peru, destino que nos deixou escolher. Nunca fez nenhuma preleção enfadonha da importância desses passeios – nos mostrava na prática, ao nosso lado, como companheiro. De viagem e de vida.

Às vezes, quando fazia algo que nos contrariava, dizia que era proposital, para que quando ele fosse embora não sentíssemos tanto a sua falta. Não conseguiu, claro.

Se redescobri meu amor à Natal, à sua cultura, ao seu passado e tradição, foi por influência do meu pai, pelo seu exemplo de vida familiar e social numa época que infelizmente tende a ser esquecida.

Se hoje sou pai de duas filhas é porque procurei e procuro imitá-lo. Inútil dizer que não chego aos seus pés: foi melhor avô do que sou pai. Aos netos e netas, ainda bebês, pedia que lhes puxasse as orelhas e o nariz pronunciados: dizia-lhes que eram pequenos, que os fizesse ainda maiores. E sorria. Sorria. Sorria, sempre.

Nem a perda parcial da visão conseguiu-lhe tirar completamente a alegria – mas deixou de caminhar à beira-mar, porque era nas caminhadas que saudava os amigos e conhecidos e, sem reconhecê-los, não podia parar para a conversa amigável, o interesse sincero em ouvir, o sorriso de despedida e o augúrio de um novo reencontro. Tudo aquilo, enfim, que norteou sua longa caminhada em oito décadas.

Nos últimos dez anos foi o melhor amigo com quem contei. Me alegra tê-lo ouvido diariamente nesses anos. Me entristece saber que nos próximos não o terei do outro lado da sua mesa, em seu escritório, ou do outro lado do telefone. Volto a me alegrar quando percebo que sua lembrança – minha maior herança – jamais findará, por mais que eu a consume. Me alegra saber que ele nunca morreu e continua vivo, em mim, em meus irmãos, em minha mãe, em seus netos, nos seus futuros bisnetos e tataranetos e…

5 Já Comentaram para “O ano da morte do meu pai”

  1. Elianne disse:

    Bonito. Que beleza de pai, tb.
    Bj Elianne

  2. RetrOvisOrio disse:

    Se Mario Fosse Real…

    Muito interessante! Abraços……

  3. Jarbas Martins disse:

    belíssima, porque verdadeira, a crônica “O ano a morte de meu pai”.

    gostaria, meu caro mario ivo, de compartilhar desse sentimento, o amor filial, tema tão recorrente na literatura, publicando neste espaço um poema meu.

    PATER

    Do teu tonco de silêncio
    e retidão
    diga-me, meu pai,
    que Deus existe.

    Do imponderável quadro
    de uma janela
    apontavas para uma igreja.
    Era num tempo de platibandas e beirais
    e ninhos.

    Andorinhas construíam
    em torno de uma torre
    uma auréola viva.

    Sob a tuas pálpebras
    minha mãe ainda cochila
    em seu demente travesseiro
    de ternuras.

    Um coro celestial
    canta
    por tua mudez.

    Jarbas Martins

  4. Rochelle Bezerra disse:

    Que amor imenso!
    Percorri as ruas…senti o cheiro de Pirangi!
    A textura dos grãos de areia…
    E o melhor…os sentimentos!
    A ternura…a simplicidade do seu pai…a doçura do olhar do filho!
    Que também tornou-se um sedutor! Das palavras!

    Beijos carinhosos!

  5. Jarbas Martins disse:

    relendo a tua bela crônica, caro mário ivo, vou me lembrando do poema de leopardi, denso e pungente, onde ele lembra a figura do pai, a passagem do tempo, a morte…vagas estrelas da ursa…penso às vezes em um antigo projeto: organizar uma antologia de crônicas (me considero antes de tudo um antologista: de gols, de sonetos e crônicas)…se essa antologia não for publicada em livro, e daí ? continuará íntegra, perfeita, inscrita numa nuvem.abs.

    ps: o meu poema PATER, que você gentilmente publicou em meio aos comentários, saiu com um erro de digitação.leia-se: Do teu tronco de silêncio.

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