Nuvem passageira, de Hermes de Aquino, é jóia nem tão rara no Olimpo do cancioneiro popular verdamarelo: classificadas ora como bregas, ora como kitsch, há 1.001 exemplos do gênero, quase todas revisitadas por gênios – ditos gênios, aliás – ditos cult, pois.
Nenhum deles, porém, todavia etc. consegue superar os originais.
No mais, no caso da clássica canção de De Aquino, impressiona a perfeição vocabular onde substantivos e adjetivos os mais prosaicos convivem em perfeita harmonia. Não há excessos, não há rebuscas, o barroco passou longe, a semana de arte de vinte e dois foi diluída ao extremo e coada e filtrada até que não restassem dúvidas nem lamentos. Nem Carlos Drummond conseguiu ser tão feliz e simples.
Ainda assim, preste atenção como alguns versos surpreendem os anteriores em associações inusitadas (A lua cheia convida para um longo beijo/ Mas o relógio te cobra o dia de amanhã/ Estou sozinho, perdido e louco no meu leito/ E a namorada analisada por sobre o divã).
Também não adianta buscar no passado mais ou menos longínquo explicações e/ou inspirações para texto e notas musicais – Nuvem passageira ignora repentes, sambas, cocos, maracatus, frevos, cirandas, for alls etc. Não há etnia regional em sua forma, senão aquela urbana, de desencontro em mesa de bar, solidão a dois e na multidão. Embora cheia de elementos da natureza, a pólis corre solta em suas veias e no sintetizador plugado no infinito.
Atemporal, eterna, também foge do tropicalismo e da bossa nova como o cão da cruz, e se adianta, sem necessariamente se antecipar, ao rock dos anos 80, ao manguebit, às cantorinhas do terceiro milênio e demais inutilidades.
E ainda provoca vídeos bacanas como o que abre esse post.
Um clássico, como se convencionou dizer, ao pé da letra:
Nuvem passageira, de Hermes de Aquino
Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer, ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar

para além dos adjetivos, dos códigos etnicos, dos embates acerca do tempo, que incluem concepções objetivistas – independente da realidade humana – ou subjetivas – enraizadas na natureza humana, que se ampliem a oferta e o uso dos divâs: os desencontros de uns e outros, o narcisismo e solidão urbanas encontrariam retorno no outro estranho que habita em cada um de nós.
Eis aqui uma adolescente rediviva. Nossa, fui longe no tempo, eu venerava essa música. Fora isso, um ótimo texto. Parabéns.
Pôxa, Mario Ivo, eu tenho que aprender é mesmo por aqui, neste nada ameno sítio. Desculpe minha logorréia professoral, mas isto deve ser o Sublime Tecnologizado. De Aquino bate com você em criatividade: Nuvem Passageira é pastiche, fake, mas antes de tudo neobarroco neón. Passear pelo teu sítio causa cada susto em velhinhos como eu… Abraços.
A ultimate version desta pop song pode ser localizado no derradeiro disco da banda Karnak, aquela do André, filho do chato do Abujamra. Dia desses, travei uma batalha monumental com uma amigo que insistia ser a música de autoria de Walter Franco. ‘É de um Hermes num-sei-das-quantas’, teimei. Eis Mário Ivo e a luz do novo eón.