No cabaré, com Cabrito

3 de maio de 2010

Ilustração para Les chansons de Bilitis, 1894, de Pierre Louys, que chegou a ser musicado por Debussy

As putas ficaram putas – pensei lá com meus botões, enquanto assistia ao show de Cabrito, sábado passado, dia do trabalho e do trabalhador – e nada mais justo que comemorar a data junto às meninas da mais antiga profissão do mundo.

Mas estou me adiantando, botando o carro na frente dos bois – ou das vacas, galinhas, tal, só pra manter o clima rural e machista –, chegando a uma conclusão à qual não poderia atinar apenas lendo o convite, manifesto, panfleto, dépliant, email, enfim, que me chegou virtualmente ainda idos de abril e que descrevia o artista como um “supersucesso”, com composições “conhecidas por jovens de todo o país e até na Europa e nos Estados Unidos”.

Como assim? Cabrito, aquele do Sebo Vermelho e do Beco da Lama?

Nenhum preconceito, crianças: que o cabra era um letrista fescenino e dos bons já sabiam as traças do sebo de Abimael e as baratas do beco, mas que tinha essa legião de fãs, só assistindo ao show, primeiro, único e imperdível, intitulado – comedidamente, como se verá – Neste o trabalhador goza.

O público, mais para estudante universitário do que working class hero, gozou, com certeza. Antes de o show começar, já lotavam a calçada, a rua quase insuspeita e as mesas do carrinho de lanches da esquina onde se ubíqua o Veros Bar, BR-101, “atrás do Sam’s Club”. Nove entre dez eram homens, todos na faixa da vacinação contra a H1N1, perfil classe média, camisa arrochadinha e musclinhos saltitantes.

Na entrada, enquanto a bilheteria improvisada preparava o troco – dez real o ingresso, com direito ao CD Os nominhos que ela tem – uma loira estalava um sonoro tapa com a mão aberta nas ventas de um que, suponho, passou-lhe a mão na bunda, mal coberta (ou bem descoberta) por um minúsculo short branco. Embora as moças “das elite” nativa gostem de se exibir nos bares da moda com a mesma indumentária, não dava pra confundir: aquela era uma legítima Puta com pê maiúsculo e outras hipérboles, todas mui graciosas, devo confessar. E pra entrar no clima do show, sem meias-palavras, assumo: eu comia, sim, com muito gosto.

Pois bem, eis cá, sétimo parágrafo, as putas do primeiro: deu pra contar umas dez, entre comíveis e não comíveis, que o Veros é lugar de responsa.

A turma do Beco, pra minha surpresa, era minoria. Os boys, já falei, aumentavam em número, gritos e animação e eu percebi definitivamente que havia algo estranho no ar quando os aplausos com a entrada de Cabrito e banda superaram em muito a saída da loira platinada que fez o clássico strip-tease minutos antes.

Pra resumir, os versinhos abaixo foram todos cantados em uníssono pelos rapazes e por quase todas as moças (força de expressão) do recinto, também:

Eu queria ser vaqueiro/ Do gado da minha tia/ Só pra poder ficar brechando/ Minha prima todo dia/ Ela só caga de coca/ Em cima de um jirau/ E também só limpa o cu/ Com um pedaço de pau [A cagada da minha prima]

Quando cheguei na casa dela/ Eu descobri que tinha outro em meu lugar/ O ricardão tava chupando seu tabaco/ Na cama nova que eu comprei pra nós casar/ O negão era aloprado/ Meteu a pomba na priquita da neguinha/ A sua espada tava toda na bainha/ E a rapariga ainda ficou querendo mais/ Eu não caso com você/ Você tá toda arrombada/ A minha pomba é pequena e bem fininha/ E comparada com a do nego não é nada [Corno pescada]

Eu vou botar meia sola no pau/ Eu quero é cair na putaria/ Na festa do Carnatal/ Comer dois priquitos todo dia [Meia sola]

Papai tinha uma cabrita/ O nome dela era Fulô/ Foi minha primeira foda/ Foi o meu primeiro amor/ Os meninos da fazenda chafurdavam em seu priquito/ E por mais me apelidaram/ Com esse nome de Cabrito [Minha história]

Mulher malvada é a Zefinha/ Que chupa rola/ Não chupa a minha/ Interesseira, dá o furico/ Só quer fuder com homem rico [Reggae safado]

Te conheci na Romualdo/ Chupei seus peitos na Prudente/ No Machadinho eu lambi o seu pinguelinho quente/ Quando voltei à passarela meu pau levantou de novo/ Mas não encontrei você no meio daquele povo [Carnatal]

Tempero de buceta é rola/ Disse o poeta do Assu/ A buceta fede tanto/ Porque mora perto do cu [Sacanear]

Nossa. Até eu, como diz uma amiga, rubrei, copiando esses versos. Mas, vos asseguro, tem coisa pior: uma mistura de Pasolini com Marquês de Sade e pitadinhas de Pierre Louys (vamos intelectualizar a putaria), tudo transposto pro sertão do Caicó, de onde, pelo que percebi, vinha a maioria da plebe mais alvoroçada – explica-se: Cabrito é convidado especial e freqüente do carnaval caicoense, puxando o bloco “Eu quero é gozar”.

Da metade em diante do show, o “palco” foi tomado por rapazes com mais testosterona que álcool nas veias. Um deles ainda se agarrou numa pilastra, as mãos e as pernas simulando um coito vertical.

Depois, todos pra casa, correndo, que o lance estava mais pra sexo oral ou auditivo, mesmo, todos fãs do supersucesso e suas letras impudicas.

Daí eu concluir que as raparigas (stricto sensu) ficaram pês da vida.

Mas o show foi do caralho.

11 Já Comentaram para “No cabaré, com Cabrito”

  1. Cabrito disse:

    Mário Ivo, prazer orgasmático vê-lo falar muito bem do meu show; quanto a ser o primeiro show, quero salientar que não será o único, é porque esses dublês de produtores culturais existentes na nossa cidade não têm coragem de produzir algo que seja no mínimo polêmico, algo que lhes possa sujar o “nome” que alguns zelam com muita mentira e mediocridade. Mas Nelson “Coragem” Rebouças surgiu mui oportunamente e taí o resultado o qual você viu.
    Noites melhores virão, e asiim, tiraremos a música do Rio Grande da gaveta (dessa corja), pois fizemos um show que se paga, sem precisar esmolar aos que de uma forma verdadeiramente maliciosa não promovem a cultura e só mamam nos peitos das cafetinadas ( de cafetão, para não haver dúvidas ) fundaçães.

    Sem mais,

    Cabrito, o independente.

  2. Jarbas Martins disse:

    beleza de crônica, mario ivo, meu cronista pós-moderno preferido. só um aristocrata é capaz de dizer essas coisas que você diz. sempre tive uma relação muito especial com minhas nada tristes putas, e cheguei
    até me interessar pela vida das putas alheias, com uma curiosidade movida, antes de tudo, pelo sentimento cristão. tenho um soneto inédito sobre Madalena. e guardo nos bolsos do meu paletó alheio notas e notas sobre a biografia de Maria Severa, que se fazia de triste, cantando fados no palácio de um fogoso aristocrata português, em Lisboa, século XIX. mas das minhas putas, a que guardo uma amorosa e felliniana lembrança
    é de Chica Coca, uma angicana que iniciou gerações de jovens imberbes (que se destacariam nas mais diversas atividades sociais).Chica Coco, pelo que pude apurar, manteve realações intensísimas com figurões
    e figurinhas angicanas, que não é bom nem falar aqui, nesse momento.talvez, quem sabe, esses ardentes e pecaminosos relatos apareçam em Minhas Memórias Fragmentadas de Sabonete, vinte anos depois da minha morte.atençao, Mario Ivo, quero uma introdução sua para o livro, a ser editado pela Sebo Vermelho de Abimael, em 2040. e não abro mão das orelhas escritas por Vicente Serejo, macauense de ascendência
    genovesa.( há dias atrás disse que Serejo tinha ascendência napolitana. está retificado, Serejo).Moacy Cirne,
    raparigólogo por destinação, entrará nessa empreitada: divulgando meu livro no seu baio porreta.

  3. Larissa Gabrielle Araújo disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk, não acredito que perdi esse exagero erótico. E mais, não acredito que deu público no show de Paralamas – com todo respeito e idolatria pelo Herbert, cof cof – com um espetáculo libertino desses em cartaz! Druuuuoga, eu nunca estou aí nesses momentos sexyapill, sex appeal.

  4. Mario Ivo disse:

    meu caro jarbas, como a ciência é prodigiosa, se vivo estiver em 2040, acho q vai dar, sim, p introduzir esse volume, digo, suas memórias – [p não perder o bonde postmoderno, ouça memories can't wait, nas versões black and white (na seção blog, ao lado)]

  5. Carlos Magno Araújo disse:

    Mario Ivo: faltou só vc ‘disponibilizar’ a seus leitores o áudio de tão originais composições. há como ou só visitando com mais frequência o local do show para aguardar o próximo? Abração

  6. Mario Ivo disse:

    o cd não é tão bom quanto o show, carlosmagno (tente os fones 9151.7783 e 9922.8188) – o q pode ser um bom álibi p vosmicê visitar “com mais frequência” o veros – posso fazer o sacrifício e acompanhá-lo, amigos são p essas coisas, abs

  7. Cabrito disse:

    http://www.4shared.com/dir/38625557/4389ba57/Cabrito_-_Os_nominhos_que_ela_.html

    Alguém disponibilizou na inter, eis o link. Goze Carlos Magno. Porém o disco está à venda no Sebo Balalaika.

    Sem mais,

    Cabrito, o queixo fino

  8. Joaquim disse:

    Mario Ivo, poderia disponibilizar todos os nomes das músicas que tem no CD?

  9. Thiago disse:

    Muito bom o texto e, melhor ainda, a presepada proporcionada por esse evento pra lá de singular.
    Suas palavras captaram e definiram bem a aura da festa. Houve, entretanto, um pequeno equívoco: o bloco “Eu quero é gozar”, apesar de sair no carnaval de Caicó, é formado, em sua grande maioria, por natalenses. O alvoroço todo não foi, portanto, resultado de um revoada migratória do seridó, como pode-se acreditar…

  10. Elson disse:

    Gostaria de saber os nomes das músicas do “Mestre”…

    Se alguém souber por favor me envie um e-mail.

    [email protected]

    E parabéns pelo texto!

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