[Publicado originalmente no Sanatório da Imprensa, de Alex Medeiros, 500 anos atrás.]
Jornais, revistas e web andaram comentando há algumas semanas lançamentos literários ligados à epopéia do western americano.
No Brasil, depois que for all virou forró, o far west só poderia se transformar mesmo em faroeste, e os cowboys em caubóis.
A diferença é que, enquanto a presença americana abaixo da linha do Equador rendeu um só filminho besta, a cruzada dos pioneiros rumo ao Oeste selvagem criou um gênero, um dos mais populares do cinema, encontro entre Mitologia e meio de expressão, segundo André Bazin, ou ponte entre as conexões lineares e a configuração, segundo McLuhan.
Difícil de entender? Melhor passar da teoria à prática – e melhor ainda quando a prática vem numa das vertentes do cinema do gênero, os spaghetti westerns, faroestes italianos filmados na Espanha, no deserto de Almería. Il Buono, il Bruto, il Cattivo (1966) de Sergio Leone, fala do pistoleiro, numa tradução livre:
- O mundo se divide em dois: os que sacam e os que cavam. O revólver tá na minha mão, assim, pode pegar a pá.
Ainda tá difícil de entender ou quer que desenhe? Melhor ilustrar com outro diálogo:
- Baxter! Ei, Baxter! Até que enfim você chegou, Baxter! Faz dois dias que estou esperando. Começamos mal.
- Realmente, amigo, começamos mal. Eu não me chamo Baxter.
Pistoleiro, dirigindo-se a ninguém menos que John Wayne:
- Escute, amigo, só existem três homens capazes de atirar com tanta rapidez como você! Um está morto. O outro sou eu. O terceiro, que eu saiba, é um tal Thornton. Como se chama, amigo?
- Thornton.
James Coburn, pistoleiro de celulóide, encontra um camponês trabalhando preguiçosamente sua terra:
- Ei, amigo! Pode me dizer como se chega a Junction City?
- Não sou seu amigo.
- Está bem, não amigo. Pode me dizer como se chega a Junction City?
- Não.
- Não sabe?
- Sei.
- E não vai me dizer?
- Não.
- Sabe que você é um filho da mãe?
- Sim, eu sei que sou um filho da mãe. Você é quem não sabe como chegar a Junction City.
Johnny Guitar, conversando com Bart Lonergan, no clássico homônimo (1953) de Nicholas Ray, com a presença feminina de Joan Crawford:
- Não vim aqui atrás de confusão, senhor Lonergan.
- Me chame Bart, meus amigos me chamam Bart.
- Tudo bem, senhor Lonergan.
E, como é de praxe recordar os mortos, ainda mais quando o defunto ainda está quente, Brando, ele mesmo, Marlon, que quando ganhou um Oscar mandou uma índia à cerimônia de entrega, sonho maior de qualquer ator – a estatueta, não a índia. Mas Brando nunca foi um qualquer. Em A Face Oculta (1961), interpreta o clássico solitário, serio, sisudo, de poucas palavras e rosto despido de emoção:
- É você o homem a quem chamam Rio?
- Sim.
- A catorze dias daqui existe uma cidade e nela um banco. Sua caixa forte é de papel. Lhe interessa roubá-la comigo?
- Não.
- Dizem que você anda atrás de um velho sócio seu, Dad Longstreet, para ajustar umas contas. Pois, amigo, parece que esse velho sócio é o sheriff dessa cidade. Lhe interessa agora minha oferta?
- Sim.
Curiosidade pra encher lingüiça e aumentar umas linhas deste texto: a direção é do próprio Brando, que substituiu outro estranho no ninho – ninguém menos que Stanley Kubrick.
Mas curioso mesmo são os títulos brasileiros para os filmes, privilégio não exclusivo dos faroestes, é verdade, mas com algumas pérolas históricas. Shane (1953), talvez o mais hosanado por nove entre dez críticos cinematográficos, virou por aqui Os Brutos Também Amam. Rancho Notorious (1952), de Fritz Lang (sim, ele também se rendeu ao chamado selvagem do Oeste Americano), virou O Diabo Feito Mulher, talvez pela presença de Marlene Dietrich. Duelo de Titãs na verdade se chamava Last Train from Gun Hill (1959). Quando os Brutos se Defrontam (1970) manteve o sentido original do título italiano (Faccia a Faccia), mas num tom bem mais rebuscado, pegando carona, inclusive, na corruptela de Shane. Jeremiah Johnson (1972), habitual dobradinha de Sydney Pollack e Robert Redford, foi traduzido como Mais Forte que a Vingança. Rio Bravo (1959) de Howard Hawks passou a ser Onde Começa o Inferno. O célebre duelo a que se refere o título original do clássico Gunfight at the OK Corral (1957) foi esquecido quando virou Sem Lei e Sem Alma. Mas os tradutores brazucas acabaram contribuindo com títulos que ficaram na memória, não apenas pelo filme, claro, mas por sua sonoridade em língua portuguesa. Poucos se lembrarão de The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah, mas ninguém fica imune a um título-frase-libelo como Meu Ódio Será Sua Herança. Conheço muita gente que pagaria para um dia poder dizer uma frase assim, ao menos uma vez na vida.
Gente mais competente pode escrever páginas e páginas sobre John Ford, John Sturges e Howard Hawks, três dos grandes diretores do gênero, cujos clássicos têm, mínimo, mais de quarenta anos. O faroeste estreou em 1903 com uma combinação imprescindível – um roubo e um trem, máquina de fazer doido empurrando as fronteiras do sonho americano sempre mais para o oeste distante. A própria América, sem metáfora, era o Oeste dos colonizadores europeus. Depois de The Great Train Robbery (feito não por um diretor de cinema, mas por um jornalista) muito tempo se passou até que Ford pronunciasse sua famosa frase que provocou escândalo em Hollywood: “Meu nome é John Ford. Faço faroestes”.
Já na década de setenta o western deixou de produzir clássicos. Um Homem Chamado Cavalo e O Pequeno Grande Homem, ambos de 1970, são os últimos a merecer tal classificação. O primeiro traz Richard Harris em rituais de piercing sioux. O segundo traz Dustin Hoffman como um branco sioux meio matusalém, revisitando o gênero através de suas memórias. Coincidentemente ambos têm como protagonistas homens brancos avermelhando a pele, se integrando e se entregando aos velhos inimigos, os nativos da América. A traição determinou o crepúsculo do gênero? Há quem pense diferente. John Ford afirmou, ainda nos anos sessenta, que sempre houve diretores que procuraram mostrar o lado dos índios, embora estes nunca amaram o homem branco e nunca foram muito diplomáticos. Enfim, diz o diretor, “éramos inimigos”.
Muita gente esqueceu isso, e quando o chato do Kevin Costner abriu os anos noventa com seu Dança com Lobos falou-se em originalidade e muito blá-blá politicamente correto. Fora este, poucos merecem registro desde então, entre eles o indiscutível Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, com o próprio, Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris. A Academia (assim, com A maiúsculo, como eles gostam) reconheceu o talento de Eastwood, que veio ao mundo do western pelas mãos de um parteiro de peso, o gigante Sergio Leone.
Se Eastwood não seria ninguém sem a ajuda de Leone, este tampouco poderia ter ido muito além do west sem a batuta de Ennio Morricone. Autor de inúmeras trilhas sonoras, Morricone emprestou seu talento a muitos diretores. Ouvir o tema principal de Il Buono, il Bruto, il Cattivo, com o assovio inconfundível, a harmônica, o timbre característico da guitarra, o coro de vozes, é ouvir o resumo de um sentimento cinéfilo, quando nos sentávamos no escurinho do cinema, dispostos a matar ou morrer. Afinal, como diz Burt Lancaster à procura de Claudia Cardinale em Os Profissionais (1966), é a dinamite, e não a fé, quem move montanhas.


Nada que chegue perto do de Alex, mas tenho um texto “sobre ela”, me cobre. Vou procurar…acho que é de 2008.